Maksim Górki

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Aleksiéi Maksímovitch Piechkóv, que se consagrou na literatura com o pseudônimo de Maksim Górki, isto é, Máximo, o Amargo, nasceu em Níjni-Nóvgorod, em 1868, e morreu em 1936.

Sendo um daqueles autores que mais escreveram sobre sua experiência pessoal, é, ao mesmo tempo, um dos menos compreendidos em várias passagens de sua biografia, pois as tormentas do século parecem ter se encarregado de apagar as pistas para uma compreensão cabal.

Filho de um estofador, viveu até os dez anos com o avô materno, sofrendo, então, profunda influência da avó, cuja imagem fixaria com tanto carinho em Infância e em Ganhando meu pão. Frequentou escola entre 1876 e 1877, executando pequenos serviços para ganhar a vida. Os passos seguintes são bem conhecidos pelos leitores de Ganhando meu pão, o segundo livro desta trilogia autobiográfica: seu emprego numa sapataria, aos dez anos, o trabalho no escritório de um arquiteto, a vivência como lavador de pratos num navio do Volga e, depois, a volta à casa do arquiteto.

(Quer antes da Revolução de Outubro, quer depois, foi-lhe apontado mais de uma vez que ele não era propriamente de origem operária, como se esta fosse absolutamente indispensável para alguém atingir a sua posição de escritor revolucionário.)

Transferiu-se em 1884 para Kazan, na esperança de ingressar na universidade local, o que não conseguiu, sofrendo, naqueles dias, grandes privações, que narraria em Minhas universidades e vários contos. Foi jardineiro, estivador, cantor de coro e, finalmente, padeiro. Na mesma época, ligou-se a um grupo de populistas, mas, desde cedo, não parecia muito inclinado a aceitar a exaltação do mujique, típica daquele movimento, o mesmo camponês que ele conhecia bem e que lhe parecia longe de encarnar as maiores virtudes humanas.

Não conseguindo encontrar um sentido para a existência, tentou suicidar-se, perfurando um pulmão a bala. Internado, conseguiu restabelecer-se, mas aquele ferimento contribuiu para o aparecimento da tuberculose, da qual sofreria pelo resto da vida.

Passou os três anos seguintes em andanças pelo sul do Império, quando conheceu de perto os vagabundos que seriam personagens de suas primeiras obras. Regressou a Níjni-Nóvgorod em 1890, sendo então preso, devido a vagas suspeitas de atividade revolucionária. Solto, passou a interessar-se pelo nascente movimento marxista russo. Mostrou, na época, um poema a Korolenko, que o criticou severamente. Reiniciando as suas andanças, desceu o Volga, atravessou a Ucrânia, em direção à Bessarábia, dirigiu-se a Odessa, dali à Crimeia e, costeando o mar Negro, chegou a Tiflis (hoje Tbilíssi, nome autóctone de que Tiflis é a forma russificada), na Geórgia, percorrendo milhares de quilômetros a pé. Um jornal de Tiflis publicou, em 1892, o seu primeiro conto. Em pouco tempo, tornou-se conhecido como escritor e jornalista.

Passando a residir em Samara, constituiu família, mas, pouco depois, perderia o emprego, devido à amargura e franqueza com que escrevia. De regresso à cidade natal, foi secretário de um advogado e colaborou na imprensa, sendo a rebeldia dos seus escritos notada tanto pela censura como pelos revolucionários. Em março de 1898, saiu o seu primeiro livro de contos, rejeitado anteriormente por diversas editoras. Conheceu, então, um êxito estrondoso e tornou-se, do dia para a noite, uma das figuras literárias mais famosas do país.

As consideráveis somas que recebeu como direitos autorais foram quase inteiramente dedicadas ao movimento revolucionário, que ajudou também com a pena e com as facilidades advindas de sua imensa popularidade. Em 1901, foi preso pela terceira vez, mas obteve a liberdade pouco depois, graças à intercessão de Tolstói, sendo, porém, proibido de residir em sua cidade natal.

Eleito membro honorário da Academia de Ciências, a eleição foi anulada por um ato do tsar, após o qual Tchekhov e Korolenko se demitiram da mesma academia, em sinal de protesto.

As primeiras peças de Górki, Os pequenos-burgueses (tão importante no Brasil a sua encenação pelo Teatro Oficina, dirigida por José Celso Martinez Corrêa e tendo num dos principais papéis o russo-brasileiro Eugênio Kusnet) e No fundo (conhecida em nosso país pelo título antigorkiano de Ralé), estrearam na Rússia com grandes restrições por parte da polícia, e a segunda dessas duas foi autorizada somente porque o governo

esperava um fracasso completo. No entanto, a sua apresentação pelo Teatro de Arte de Moscou foi um grande êxito de público, e em pouco tempo tornou-se uma das peças russas mais representadas internacionalmente.

Preso mais uma vez em 1905, na esteira dos acontecimentos revolucionários, o governo se viu obrigado a soltá-lo, depois de protestos no mundo inteiro. Participou das manifestações de outubro em Moscou. Após o fracasso da rebelião de dezembro, deixou o país e foi para o estrangeiro coletar fundos para a revolução.

Sua chegada aos Estados Unidos, em abril de 1906, constituiu um triunfo. No entanto, a embaixada russa em Washington, que não conseguira impedir a sua entrada no país, divulgou a notícia de que a atriz Andréieva, que o acompanhava, não era sua esposa, e, em pouco tempo, a imprensa norte-americana mudou de atitude. O casal foi expulso do hotel no meio da noite, o presidente da República Theodore Roosevelt cancelou a recepção para Górki na Casa Branca e houve outras conseqüências desagradáveis, até ele regressar à Europa. Suas impressões dos Estados Unidos resultaram no livro A cidade do diabo amarelo (no caso, Nova York).

De passagem por Paris, teve uma polêmica violenta com intelectuais que o haviam defendido contra a prepotência tsarista, mas que se mostraram indignados com os termos de um artigo seu contra a concessão, pelo governo francês, de um empréstimo ao governo russo.

Estabeleceu-se em Capri em fins de 1906. No ano seguinte, participou, com a facção bolchevique, do congresso de Londres do Partido Social-Democrático dos Operários Russos. Em Capri, organizou uma escola para revolucionários, mas esta foi, pouco depois, desaprovada por Lênin, pois Górki estava então sob a influência de vários ativistas políticos que tendiam a uma concepção religiosa do movimento revolucionário. Esta marca se percebe claramente nos livros que escreveu então. Manteve correspondência com Lênin sobre esse assunto.

Após o início da Primeira Guerra Mundial, voltou à Rússia e apoiou a luta com a Alemanha, enquanto os bolcheviques moviam campanha contra a guerra.

Com o advento do regime de Kérenski, dirigiu o diário Nóvaia Jizn (Vida Nova), no qual fez críticas violentas a Lênin e seus companheiros. Mostrava-se então muito assustado com o caráter violento que teria uma revolução social na Rússia, e considerava os bolcheviques duros, prepotentes, implacáveis.

Deflagrada a Revolução de Outubro, dedicou-se particularmente à preservação dos valores culturais, em meio ao caos, e dirigiu-se freqüentemente ao governo, pedindo medidas para a proteção de obras de arte, auxílio material a intelectuais, comutação de penas de morte etc. Devotou-se também à orientação de atividades literárias sob o novo regime. Em 1919, passou a chefiar uma coleção de obras internacionais, a serem publicadas pelo Estado. Por insistência de Lênin, viajou para o estrangeiro em 1921, a fim de tratar da saúde, estabelecendo-se então em Sorrento, na costa Amalfitana.

Residindo no exterior, sua atitude era a de um defensor da Rússia soviética, para a qual viajou várias vezes. Na época, foi bastante hostilizado pelos russos emigrados, e geralmente respondia-lhes no mesmo tom. Mas, por outro lado, mantinha relações de amizade e de troca intelectual com escritores e poetas que se estabeleceram no Ocidente.

Regressou à Rússia em 1928, sendo recebido com grandes festividades. Nessa fase, mostrou-se particularmente preocupado com a situação internacional e procurou estimular a formação de uma frente internacional de intelectuais, contra a guerra e o fascismo. Poucos anos depois, a situação seria completamente diversa, com a guerra inevitável contra o fascismo, mas, naqueles anos, ainda se erguia o lema antibélico e antifascista.

Tornou-se um defensor extremado das instituições soviéticas, passando a considerar necessária mesmo a violência para a eliminação dos vestígios do passado. No período dos processos de Moscou, chegou a pedir publicamente mais repressão, e é sabido o que isso significava.

A partir de 1934, ano do Primeiro Congresso de Escritores da União Soviética, foi considerado o grande teorizador do realismo socialista, definido geralmente como o método da arte e da literatura que exigiria uma representação verídica e historicamente correta da realidade e de seu desenvolvimento revolucionário. E isso levou a extremos, no esmagamento de quaisquer atividades culturais que se afastassem do modelo exigido.

Ao mesmo tempo, as últimas obras de Górki eram apresentadas como o ideal em literatura. Um episódio ilustra bem o clima que se criou em torno dele. Numa visita que Vorochilov e Stálin lhe fizeram, leu para ambos um poema de sua mocidade, "A jovem e a morte". Pois bem, o chefe supremo escreveu então sobre a página do livro: "Esta coisinha é mais forte que o Fausto de Goethe (o amor vence a morte)". Depois de tanto lugar-comum e das estátuas de bronze que eram erguidas em sua homenagem, custa a crer que se tratava do mesmo Górki de Ganhando meu pão e tantos outros livros marcados pela exuberância de temperamento e pela veemência humana.

Todavia, houve quem interpretasse de modo diferente a sua posição. Assim fez Ievguêni Zamiátin, o grande ficcionista do romance Nós e de tantos contos, obras de uma lucidez extraordinária, e que conseguira deixar a Rússia em 1931 para residir em Paris, graças à intervenção de Górki. Zamiátin escreve em 1936 (!), após a morte do autor de Infância, que ele havia exercido uma influência benéfica sobre Stálin nos longos passeios a pé que faziam juntos, cada um com a sua casa de campo a uns cem quilômetros de Moscou. Dois anos depois, foi anunciado que Górki havia morrido em conseqüência de tratamento intencionalmente errado, devido a uma conspiração de inimigos internos, ligados (a acusação de sempre!) a potências estrangeiras.

Nos últimos anos, têm saído na Rússia muitos materiais sobre Górki, inclusive livros que não foram incluídos nas edições soviéticas de obras completas. Pessoas que o conheceram ou tiveram relação direta com sua atuação têm publicado trabalhos e mais trabalhos, mas certas passagens de sua biografia continuam sendo um enigma.

Em O arquipélago Gulag, Soljenítzin apresenta Górki como conivente com o terror stalinista e não vê nenhuma atenuante em sua atuação. Aliás, refere-se a ele sobretudo a propósito de uma visita feita a Solovki, ilhas do extremo Norte, onde estava instalada uma prisão terrível. Mas o importante historiador da cultura, Dmítri Likhatchóv, que esteve aprisionado ali, escreveu recentemente sobre aquela visita: "Deram-lhe a entender que, se ele não fizesse nenhuma crítica ao regime vigente na prisão, este seria abrandado. [...] Górki cumpriu a palavra, e os carrascos, não"1.

Surgiram também nos últimos anos muitas versões sobre a sua morte. A que aparece com mais insistência é a de que Stálin mandou envenená-lo. Há também suposições de que ele estaria implicado numa conspiração.

1 Rossíiskaia Gazeta, 27/1/1992, apud Vadim Baranov, Górki sem maquiagem (Górki biez grima). Moscou: Agráf, 1996.

Obras de Referência