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Ironweed
Ironweed
Lançado em:
maio/2010
apresentação do livro
Os vivos e os mortos
Vencedor de dois dos prêmios mais prestigiosos das letras norte-americanas – o National Book Critics Circle Award e, em especial, o Pulitzer na categoria ficção – ,
Ironweed
(1983), segundo romance do americano William Kennedy (1928-), publicado agora pela Cosac Naify, por pouco não deixou de ser lançado. O livro foi rejeitado por mais de uma dúzia de editoras, porém quando foi enfim lançado, em grande parte devido a uma enérgica intervenção de Saul Bellow, Prêmio Nobel de Literatura e um dos ídolos de Kennedy, logo se transformou em best-seller. O êxito da obra rendeu ao autor uma polpuda bolsa da MacArthur Fellows Program, comparações com James Joyce e, em 1987, uma adaptação cinematográfica dirigida por Hector Babenco com roteiro do próprio Kennedy e elenco encabeçado por duas estrelas de peso, Jack Nicholson e Meryl Streep – ambos indicados para o Oscar na ocasião.
Ironweed
integra a série escrita por Kennedy em torno de sua cidade natal, Albany, capital do estado de Nova York, e, de acordo com o escritor Marçal Aquino, no texto de quarta capa feito especialmente para a edição da Cosac Naify, representa “uma amostra de sua prosa tão vigorosa quanto inventiva, na qual, acima de tudo, brilha um olhar caloroso e cheio de compaixão para a vida sórdida das pequenas criaturas que ficaram à margem do sonho americano”. É o terceiro trabalho da série, após
Legs
(1975) e
O grande jogo de Billy Phelan
(1978), este já editado pela Cosac Naify. Em todas as obras do Ciclo de Albany, personagens se entrecruzam nas histórias, com destaque para a família Phelan, descendente de imigrantes irlandeses.
Se em
O grande jogo de Billy Phelan
conhecemos a desgraça do personagem-título, um habilidoso jogador de pôquer e bilhar que se recusa a servir de informante do sequestro do filho de um político poderoso de Albany, em
Ironweed
a história contada é a do pai de Billy, Francis Phelan, ex-jogador de beisebol (e dos talentosos, segundo a lenda) que abandona a família depois de causar acidentalmente a morte do filho caçula, Gerald, ainda um bebê.
Quando a trama tem início, Francis é um vagabundo, alcoólatra, que vive de bicos ligeiros em meio à Grande Depressão dos anos 30. Sua teia de relações inclui outros beberrões (como Rudy, vivido no filme de babenco pelo cantor Tom Waits), mendigos, ex-prostitutas e sua amada Helen Archer, cantora e pianista de talento que também acabou nas ruas. Ele acaba de ser tirado da prisão por Billy, que pagou a fiança e revelou que a antiga esposa de Francis, Annie, até pouco tempo atrás não contara aos filhos sobre sua culpa na morte do pequeno Gerald. Tal revelação o comove a ponto de repensar a trajetória como vagabundo e a imaginar um retorno para a família. Enquanto não se decide a voltar, Francis mantém conversas entre o lúcido e o delirante com mortos do passado, de Gerald (na primeira visita desde a morte do menino) a um fura-greve assassinado por ele há muito tempo.
Logo na abertura do livro, atravessando um cemitério dentro de um caminhão, o protagonista percebe “que os mortos, mais que os vivos, organizavam-se em territórios”. É sobre a relação com aqueles que já se foram que versa
Ironweed
. Francis dialoga com eles para compensar a incapacidade de lidar com os vivos, que tanto o prejudicou no passado. Na conversa imaginária com Gerald, o ex-jogador de beisebol se dá conta (ou “ouve” o bebê dizer) de que a morte acidental do filho impôs a ele “a obrigação premente de cumprir seus atos finais de expiação pelo abandono da família. E você não tem como saber quais são esses atos, disse o menino em silêncio, até ter cumprido o último deles (...) Mais tarde, depois de todos esses atos terem sido cumpridos, você vai parar de querer morrer por minha causa”.
Culpa, por sinal, é a palavra-chave do romance. Costuma-se comparar Kennedy a James Joyce pela maneira aguda de explorar a vida cotidiana de uma cidade – Albany, no caso do americano, e Dublin, no do irlandês. Entretanto, é no trato dos sentimentos católicos encravados na consciência dos personagens que os dois se assemelham mais – fora o remorso, há piedade, perdão, sacrifício, redenção. Tanto que, a certo ponto de
Ironweed
, Phelan chega à conclusão de que é um guerreiro cuja crença “implicava proteger os santos dos pecadores, proteger os vivos dos mortos”. Assim, conclui, “minha culpa é tudo que me resta. Se ela desaparecer, é que eu nunca signifiquei nada, nunca fiz nada, nunca fui nada”.
Uma nota introdutória informa que o título
Ironweed
– literalmente, “erva de ferro” – alude a uma planta da família do girassol, cujo nome científico é Vernonia altíssima. “Seu nome popular se deve à grande resistência do caule”. Não por acaso, Kennedy reveste Francis Phelan de uma comovente resistência ante as vicissitudes do acaso. O fracasso na tentativa de amar (“O amor é sempre insuficiente, sempre uma mentira”) é apenas uma prova da resistência moral conferida pelo autor.
Com
Ironweed
, a Cosac Naify dá sequência à edição dos livros do chamado de Ciclo de Albany. Os próximos títulos a serem editados são
Velhos esqueletos
e
Roscoe
.
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