Lançado em: dezembro/2009
apresentação do livro
A história recente da Alemanha em romance épico

“O melhor romance sobre a reunificação alemã”, segundo o jornal Die Zeit.
Ele está entre os escritores de língua alemã mais prestigiados nos últimos quinze anos, período em que ganhou força a onda do Wenderoman – “romance da virada” –, que coloca em cena o passado da Alemanha Oriental e as mudanças trazidas pela reunificação. Um dos seis melhores autores jovens da Europa, segundo a revista New Yorker, desde seu primeiro livro, 33 instantes de felicidade (1995), Ingo Schulze se dedica ao flagrante do cotidiano em temas que não se separam de seu tempo e ao registro de sua história pessoal das rápidas transformações da vida moderna, como nos contos de Celular – treze histórias à maneira antiga (Cosac Naify, 2008). Mas nada comparável às experiências da juventude na Alemanha Oriental, como no romance epistolar Vidas novas (2005), que a Cosac Naify lança no Brasil em 2009, quando se completam vinte anos da queda do muro de Berlim.
Considerado “o melhor romance sobre a reunificação alemã”, nas palavras do jornal Die Zeit, e ganhador do Prêmio Grinzane Cavour, em 2008, em Vidas novas o autor faz um jogo literário muito bem articulado entre ficção e realidade para traçar um extraordinário painel da época.
Ingo Schulze apresenta-se no prefácio do livro como mero organizador e comentador de uma série de cartas a que teve acesso depois de longo tempo de pesquisa em busca de um tema para um romance. O autor das cartas, Enrico Türmer, não era de todo seu desconhecido, uma vez que haviam estudado na mesma escola. Türmer se tornara uma figura de destaque na região da Turíngia e da Saxônia, graças ao sucesso como homem de jornal. É possível conhecer a intimidade de Türmer – e sua transformação de escritor frustrado em empresário bem-sucedido – pelas cartas que escreve entre janeiro e julho de 1990 a três grandes amores: a irmã, Vera; o amigo de infância, Johann Ziehlke; e uma jovem fotógrafa da Alemanha Ocidental que conheceu por acaso, por quem se apaixonou, e que se transforma em espécie de musa inalcançavel, Nicoletta Hansen.
FORMA EPISTOLAR
A forma epistolar não é gratuita, ao contrário, corresponde aos estertores de um passado não tão distante, quando se trocavam cartas em papel, que permitiam ver as rasuras e a caligrafia do missivista – detalhes para os quais as notas do organizador chamam a atenção vez ou outra. Desse modo, o que se vê ao longo das 750 páginas do livro é a silhueta complexa do protagonista, traçada com os movimentos de sua própria pena, em que Schulze desempenha o papel do organizador, embora deixe escapar ao longo da leitura que as cartas são fruto de sua criação literária.
Nas cartas a Vera e a Johann, Türner conta os fatos do tempo presente, a relação com Michaella, a atual companheira, e com o filho dela, Robert; retoma temas que dizem respeito ao passado familiar; projeta planos para o futuro e sobretudo narra suas aventuras para a fundação de um jornal em Altenburg, cidadezinha da antiga Alemanha Oriental. É aí que surge uma figura decisiva em sua vida: Clemens von Barrista, consultor de empresas vindo da Alemanha Ocidental, que vê no recém-fundado jornal uma mina de dinheiro. Figura mefistofélica, saída das páginas da melhor tradição literária alemã, Barrista consolida uma mudança anunciada pela crise do protagonista na época das manifestações em Leipzig: a percepção de que seu futuro como escritor, atividade que ele mantinha em segredo, mas acreditava ser seu dom verdadeiro, estava de fato encerrado e de que era preciso partir para a ação, para o mercado, para os negócios.
Nas cartas endereçadas a Nicoletta, Türmer procura responder a pergunta “de que jeito e de que maneira o lado ocidental chegou à minha cabeça?” e, assim, faz delas algo próximo de uma autobiografia, em que se mostram as primeiras memórias da infância, o amor incestuoso pela irmã, as leituras mais marcantes, a falta do pai, a relação com a mãe, a amizade marcadamente erótica com Johann, os anos na escola, no exército e na faculdade, até o momento em que se muda para Altenburg a fim de trabalhar no teatro da cidade, conhece Michaella, passa a ter uma vida familiar, e é arrebatado pelos acontecimentos de 1989, quando assume voz de liderança, tornando-se uma espécie de poeta porta-voz do povo, nas manifestações em Leipzig e cai numa crise cujo fim remete à figura do narrador presente, envolvido nas dificuldades com o jornal e nas propostas de sucesso feitas por Barrista.
TURBILHÃO DA HISTÓRIA
O destino individual de Türmer, que traz muitas semelhanças com a vida do próprio Ingo Schulze, está inserido no turbilhão da história daquele instante: revolução pacífica, tomada dos prédios da Stasi, eleições para a Câmara popular vencidas pela direita, eleições municipais, união monetária e início das negociações do tratado de unificação. Paralelamente, recompõem-se imagens que escapam àquelas veiculadas pela mídia e conhecidas no mundo inteiro. São as imagens dos gestos, dos hábitos que se perderam na memória daqueles que viviam na República Democrática Alemã.
Ao final da correspondência, percebe-se o movimento circular da narrativa, que se construiu a partir da organização cronológica das cartas. O conteúdo das endereçadas a Nicoletta termina justamente no ponto em que começam aquelas a Vera e a Johann, ou seja, o início do romance.
NOTA ÀS NOTAS DO TRADUTOR
Em Vidas novas, Ingo Schulze faz notas para Encrico Türner. Na tradução especial para a edição brasileira, Marcelo Backes faz notas às notas de Schulze. De maneira cuidadosa e inusitada, o tradutor intensifica o jogo metaliterário, participando do diálogo que o organizador estabelece com o personagem, revelando os bastidores do romance e recheando a obra com notas de rodapé informativas e interpretativas de extrema utilidade.
No prefácio à edição brasileira, Schulze fala da “colaboração estimulante” de Backes e diz: “Suas observações e comentários vão além dos que de resto são usuais e ultrapassam nitidamente as explicações de um tradutor, no sentido de tornar a obra mais compreensível em seu caminho no estrangeiro.”