Lançado em: outubro/2009
apresentação do livro
Jean Vigo em obra prima de Paulo Emílio

Miguel de Almereyda com o filho Jean Vigo
“Passou por minhas mãos o manuscrito do mais belo livro de cinema que já li. Trata-se de um livro monumental sobre Jean Vigo, sua vida, sua obra.”
François Truffaut, Cahiers du Cinéma, 1954
A Cosac Naify e as Edições SESC SP lançam a Caixa Paulo Emílio, composta pelos livros Vigo, vulgo Amereyda e Jean Vigo, de Paulo Emílio Sales Gomes, um dos mais importantes intelectuais e críticos de cinema do Brasil, em continuidade à publicação de toda obra do autor, iniciada em 2007 pela Cosac Naify. A caixa inclui ainda dois DVDs da obra integral do cineasta francês e extras: entrevistas com Antonio Candido, Carlos Augusto Calil, Lygia Fagundes Telles, Ismail Xavier e François Truffaut, além do documentário de Jacques Rozier, Cineastas do nosso tempo (1982), sobre Jean Vigo.
Os textos são publicados pela primeira vez na forma originalmente pensada por Paulo Emílio, que trabalhou na perspectiva de dois títulos diferentes: um sobre Almereyda e outro sobre Jean Vigo. Na época de sua primeira edição, em 1957, por exigência da editora francesa, o ensaio sobre Almereyda foi resumido e transformado numa introdução à Jean Vigo.
O projeto exigiu um cuidadoso e longo trabalho de equipe da Cosac Naify, que durou quase dois anos, sob a coordenação de Carlos Augusto Calil e Augusto Massi. Essa preparação contou com a colaboração da Cinemateca Brasileira, a pesquisa iconográfica de Luce Vigo, filha do cineasta, e do pesquisador residente na França Mateus Araújo Silva, o que possibilitou enriquecer os volumes com dados históricos e imagens de Almereyda, Jean Vigo e do próprio Paulo Emílio, bem como dos fotogramas da produção cinematográfica de Vigo.
Com uma curta produção artística, Jean Vigo [1905-1934], cineasta de vanguarda francês, teve uma vida marcada pela liberdade de espírito e comprometimento social, deixando um legado fundamental à geração que conviveu com ele, no começo da década de 1930, e às posteriores, que redescobriram sua obra a partir do final da Segunda Guerra Mundial.
Os ensaios de Paulo Emílio são considerados fundamentais para o reconhecimento da genialidade de Vigo e da estreita relação entre sua obra e vida, influenciadas pela presença do pai, o anarquista Miguel Almereyda [1883-1917], personalidade notável do século XX. Os volumes ganham agora nova edição, enriquecidas com imagens dos filmes e do cineasta, posfácio, notas de apoio, bibliografia, filmografia, índice onomástico e importante fortuna crítica assinada, entre outros, por François Truffaut, André Bazin, Paul Ryan e Ismail Xavier.
VIGO, VULGO ALMEREYDA
A vida de Miguel Almereyda, pai do cineasta Jean Vigo, mistura-se ao período convulsionado em que viveu no ensaio do crítico brasileiro.
“O que torna o livro tão envolvente é a maneira como entrelaça a história de um homem à de uma época.” Claude Lefort.
Combinação da história de vida de três personalidades notáveis do século XX: o anarquista Miguel Almereyda, o cineasta de vanguarda Jean Vigo e o mais importante crítico de cinema do Brasil, Paulo Emílio Sales Gomes. É este quem relata a trajetória de Eugène Bonaventure de Vigo, vulgo Miguel Almereyda, relacionando sua biografia com a história da Paris convulsionada por agitações políticas do começo do outro século.
Instigado pela obra de Jean Vigo, filho de Almereyda, Paulo Emílio destrincha a vida do pai para analisar posteriormente com ainda mais autoridade a obra do filho. Para o pesquisador Adilson Inácio Mendes, que assina o posfácio da edição, “rastrear a trajetória de Almereyda, a partir do contexto histórico, ajuda a entendê-lo como homem e militante político e contribui ainda para a compreensão do inconformismo de seu filho”.
O texto, que havia se tornado mera introdução ao estudo sobre Jean Vigo à época de sua publicação na França, em 1957, atualmente vem restabelecido e organizado pelo crítico e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Carlos Augusto Calil, atual secretário municipal de cultura de São Paulo.
Trata-se de uma edição primorosa, com notas de apoio sobre os fatos e personagens históricos do movimento anarquista na França, de autoria do professor Edgar Carone, e atualizadas pelo citado pesquisador; fortuna crítica assinada pelo próprio organizador, além de Claude Lefort, Luiz Felipe de Alencastro e Zulmira Ribeiro Tavares.
A vida política de Almereyda, marcada pelo anarquismo e posteriormente pelo socialismo, é dividida por Paulo Emílio em três capítulos, que recontam a história do biografado durante os períodos em que participou de três diferentes publicações. Dos episódios vividos por Almereyda, brota o segundo enredo do livro, as movimentações da esquerda no período.
A França vivia a tentativa de consolidação da III República em meio a uma intensa movimentação social, expansão imperialista, enorme instabilidade parlamentar e reestruturação do movimento operário. O grupo L’Action Française repaginou o discurso monarquista e dominou a cena política da extrema direita, ao mesmo tempo em que inúmeros grupos de esquerda se organizaram em manifestações e sindicatos.
Paulo Emílio não perde de vista a complexidade do personagem que biografa: narra da ascendência de pequena nobreza de província à sua morte, depois do itinerário que envolveu diversas passagens pela prisão, participação em manifestações, defesa de causas em artigos inflamados na imprensa, experiências de agrupamento revolucionário e, no final da vida, relações próximas a membros do governo que havia combatido e o conforto de uma vida com amantes, carros e posses. Tido na época de sua morte, em 1917 – ano em que estoura a Revolução Russa –, como um traidor, foi o estudo de Paulo Emílio que o reabilitou na memória histórica. Entre outros esclarecimentos, o crítico defende que sua morte não foi um suicídio na prisão, mas sim um assassinato realizado pelas pessoas com quem Almereyda já havia entrado em conflito.
Esta obra de Paulo Emílio, de importância capital para historiadores, estudiosos de cinema e interessados em política, joga luz na vida de um dos personagens mais controversos da esquerda francesa, além de apresentar os traços que ecoariam nos filmes de Jean Vigo.
JEAN VIGO
Em Jean Vigo, Paulo Emílio Sales Gomes une rigor informativo e análise profunda em uma prosa literária sobre o cineasta francês.
Quatro mil metros de película, utilizadas em quatro filmes, é o que Jean Vigo (1905-1934), cineasta de vanguarda francês, deixou de sua breve vida. A liberdade de espírito e o comprometimento social que marcam sua curta produção são, estes sim, o legado que passou à geração que conviveu com ele, no começo da década de 1930, e às posteriores, que redescobriram sua obra a partir do final da Segunda Guerra. Nesse movimento de recuperação de Vigo, o livro de Paulo Emílio foi fundamental para a redescoberta da genialidade do cineasta francês e da estreita relação entre sua obra e vida. Desde sua publicação na França, em 1957, a edição é considerada essencial para o entendimento de Vigo e constitui bibliografia básica para o estudo de cinema.
Os elogios que o crítico brasileiro recebeu dos principais conhecedores de cinema destacam o rigor das informações, a clareza do texto e a profunda análise que Paulo Emilio apresentou no texto. Desde o início, o autor trabalha com passagens significativas da vida de seu personagem, que iluminarão, até a conclusão, aspectos de sua obra. Narra a infância confusa, as viagens para visitar a mãe, as diversas internações de Vigo em sanatórios, inclusive aquela em que conheceu Lydu, com quem se casou.
Paulo Emílio conta o processo de criação de cada filme: sua ideia original, a construção do roteiro, as filmagens, a montagem, a repercussão deles no momento de sua estreia e chega até mesmo a estudar suas carreiras nos anos posteriores, indicando não apenas maestria na análise interna de cada um deles, como também a preocupação de recuperar o artista seguindo a trajetória de sua recepção.
A respeito de Zero em comportamento (1933), por exemplo, escreve: “Revendo o filme como um todo, constatamos que existem dois universos em Zéro de conduite: de um lado, o dos meninos e o do povo, e de outro, o dos adultos, dos burgueses. (...) Esta divisão em dois mundos e a conclusão do filme nos fornecem todos os elementos da ideologia de Vigo e das intenções sociais de Zéro de conduite. A escola de Zéro de conduite, para além da escola real surgida das recordações de infância de Vigo, é a sociedade tal como Vigo adulto a enxerga. A divisão entre crianças e adultos dentro da escola corresponde à divisão da sociedade em classes: uma minoria forte que impõe sua vontade a uma maioria fraca”.
Publicado pela Seuil, em 1957, na França, Jean Vigo ganha esta nova e enriquecida edição brasileira, traduzida por Dorothée de Bruchard, e que contém, além do posfácio do pesquisador Adilson Inácio Mendes, as cartas de Paulo Emílio, datadas dos anos 50, um texto inédito e especial do cineasta Manoel de Oliveira (maio de 2008), filmografia completa de Jean Vigo, que contempla inclusive os projetos não realizados, e uma bibliografia sobre o cineasta e o crítico Paulo Emílio. A fortuna crítica reúne autores como François Truffaut, André Bazin, Paul Ryan e Ismail Xavier. É este último que, em texto para a edição de 1984 do livro, diz: “É indispensável conhecer o poeta. Melhor guia, seria pedir demais”.
DVDS “JEAN VIGO INTEGRAL”
Coedição: Cosac Naify, Edições SESC SP e Versátil Home Video
Disco 1: Filmes: A propósito de Nice (À propos de Nice/ França/ 1930); Taris ou a natação (La natation par Jean Taris, champion de France/ França/ 1930); Zero em comportamento (Zéro de conduite/ França/ 1933).
Extras: “Jean Vigo e Paulo Emílio Sales Gomes”, com depoimentos de: Antonio Candido (crítico literário), Lygia Fagundes Telles (escritora), Carlos Augusto Calil (prof. de cinema – USP), Ismail Xavier (prof. de cinema – USP). “Biografias”: Perfil biográfico, bibliografia e opiniões sobre Paulo Emílio Sales Gomes. Perfil biográfico e filmografia de Jean Vigo. Galeria de imagens: slide show com fotos de cena e de bastidores dos filmes A propósito de Nice e Zero em comportamento, pertencentes à coleção do Museu Gaumont.
Disco 2: Filmes: Atalante (L’Atalante/ França/ 1934); “Cineastas de nosso tempo: Jean Vigo” [Cinéastes de notre tempes, 1964], o diretor Jacques Rozier entrevista vários amigos e colaboradores de Jean Vigo, reconstruindo a vida e a obra do cineasta francês. Extras: “Rohmer entrevista Truffaut”. O cineasta Eric Rohmer entrevista o também cineasta François Truffaut acerca de Atalante, de Jean Vigo (17:30 min). Galeria de imagens: slide show com pôsteres, fotos de cena e de bastidores do filme Atalante, pertencentes à coleção do Museu Gaumont.