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Os anões
Os anões
Lançado em:
junho/2010
apresentação do livro
Histórias mínimas
“Estou convencido de que uma das características de um livro contemporâneo é que, antes de ser uma leitura, ele é uma experiência”. Essa é a porta de entrada sugerida pelo escritor mexicano
Mario Bellatin
no texto de quarta capa de
Os anões
, terceiro livro da gaúcha radicada em São Paulo,
Veronica Stigger
. A experiência de que fala Bellatin ganha aqui a forma de histórias breves, uma prosa radical e corrosiva.
Os leitores de seus primeiros dois livros –
O trágico e outras comédias
(publicado primeiramente em Portugal em 2003 e republicado no Brasil no ano seguinte pela editora 7Letras) e
Gran Cabaret Demenzial
(Cosac Naify, 2007) – surpreenderam-se sobretudo com a imaginação desenfreada e com a linguagem desassombrada, que incorporava desde o palavrão mais desabusado até o fraseado próprio das crianças, que pode ser cândido ou escatológico, quando não ambos ao mesmo tempo. O crítico Karl Erik Schøllhammer, no recente estudo
Ficção brasileira contemporânea
(Ed. Civilização Brasileira, 2009), resume assim as estratégicas de Veronica nestes livros: “Do ponto de vista do conteúdo, são histórias grotescas, de violência cruel e sexo, com uma clara exploração de fixações anais e práticas sadomasoquistas, mas tudo sempre narrado em tom lúdico, envolvido por humor negro e exagero extravagante”.
No entanto, agora que Veronica Stigger chega a seu terceiro livro, é possível constatar que o que verdadeiramente importa nesta obra é menos a atração pelo grotesco do que aquilo que podemos chamar de uma certa propensão ao originário. Nos livros anteriores, esta propensão estava presente nos vários textos que perseguiam a forma do mito e se propunham a narrar como um determinado personagem ou acontecimento se impunha ao mundo. Veja-se, por exemplo, o verdadeiro mito de origem do travestismo oferecido no divertido conto “Olívia Palito”, de
Gran Cabaret Demenzial
.
Em
Os anões
, esta propensão ao originário fica clara já no título de uma das três seções em que o volume se divide, Pré-histórias – as outras duas são Histórias e Histórias da arte. As Pré-histórias falam de um mundo primitivo que, no entanto, coincide integralmente com o nosso mundo presente. Estamos diante de seres que parecem ainda não ter aprendido as lições mais elementares de sobrevivência, como nos curtíssimos “Caça” e “Colheita”; ou diante de seres que executam estranhos rituais, como no enigmático “Caverna”, em que, numa sala de cinema, estranhos personagens executam um desconcertante balé ao trocarem incessantemente de poltronas.
Vale notar que, num jogo de sobreposição de significados frequente nesta obra, o título Pré-histórias também alude à configuração formal dos textos aí reunidos, os quais como que se recusam a desenvolver as histórias que anunciam. Menos que contos em miniatura, temos aí contos em germe, ficções embrionárias ou potenciais que, por sua própria incompletude, ficam ressoando na memória do leitor.
Mas é na primeira das Histórias que o sentido crítico desse interesse pelo originário parece ficar mais evidente. Trata-se do conto “Os anões”, que empresta seu título ao conjunto todo. Nele, por meio da terrível narrativa do massacre de um casal de anões acostumados a furar filas, a autora constrói uma espécie de alegoria brutal (e tão mais brutal pelos traços de humor que a atravessam) da origem do fascismo: uma origem que não se confunde com o começo do fascismo como fenômeno histórico, mas que desliza pelo tempo, abarcando também os nossos dias, uma vez que o fascismo, lamentavelmente, pode sempre nascer de novo, mesmo nos atos mais banais, como, por exemplo, ir à confeitaria, sempre que a diferença (ou estranheza, que sempre foi uma marca definidora das criaturas de Veronica Stigger) seja vista como um valor negativo, e seu portador alguém a ser eliminado. Estranheza que, aqui, dialoga com o projeto gráfico do livro, concebido por Maria Carolina Sampaio: um livro adulto com formato pequeno e papel cartonado, normalmente utilizado na confecção de livros infantis.
Mas as Histórias não se resumem a esta imersão nas trevas. Também encontramos entre elas aproximações inusitadas aos afetos humanos, seja o amor, em “Curta-metragem” e “Curta-metragem II”, seja a amizade, em “Ceia”.
Em Histórias da arte, Veronica Stigger ensaia uma abordagem irônica e crítica ao universo artístico – universo, aliás, que ela conhece bem, devido à sua atuação como pesquisadora e professora de história da arte. Essa abordagem não se dá simplesmente pela alusão a artistas e suas obras, mas também por meio de procedimentos caros à arte moderna e contemporânea, como o
ready-made
, a citação descontextualizada e, por isso mesmo, proliferadora de sentidos, o uso paródico de formas de escrita originalmente externas à literatura. Com os recursos da ficção, a autora aborda algumas questões fundamentais da estética de nosso tempo, a começar pelo grande paradoxo de uma arte tão provocadora que, no final das contas, acaba sempre capturada pelo mundo das mercadorias. É com notável irreverência que, nas páginas de Veronica, os nomes de escritores e artistas plásticos passam a designar os mais inesperados produtos, de apartamentos a jogos de talheres, à espera de consumidores dispostos a pagar seu preço.
Esta crítica ficcional dos dilemas contemporâneos da arte também está presente em contos como “Tatuagem”, em que a contradição entre arte e mercadoria dói na carne, e “Teleférico”, em que a ideia de espetáculo é levada às últimas consequências. Stigger consegue fazer do humor um instrumento ao mesmo tempo de alegria e de desespero; temos aí, às vezes, um riso nervoso e macabro, não uma franca gargalhada. Resta, anota Mario Bellatin, nos conformarmos com “os feitos extraordinários como banalidades necessárias para continuar sendo o que somos: seres insignificantes”.
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