Salas e abismos

Lançado em: fevereiro/2010


Título do Livro

apresentação do livro


Entre e fique à vontade nas salas de estar (e de estranhar) de Waltercio Caldas




Livro com 25 instalações faz com que as obras se relacionem, dialoguem e criem uma tensão e unidade próprias

Com trabalhos nos acervos dos principais museus e exposições nos mais importantes eventos de artes plásticas do mundo, o carioca Waltercio Caldas tem agora, pela primeira vez reunidas em livro, todas as instalações – ou salas, como ele prefere descrever, criadas ao longo da sua prestigiada carreira. Salas e abismos apresenta uma nova visão do trabalho do artista por meio de um universo singular: a seleção feita no livro faz com que as obras se relacionem, dialoguem e criem uma tensão e unidade próprias, permitindo um novo e surpreendente olhar sobre a poética criativa do artista.

Já no título, o livro concilia duas ideias aparentemente contraditórias mas fundamentais para a compreensão da obra de Waltercio Caldas, artista sempre atento à forma como cada trabalho será apresentado aos olhos do espectador. No início da carreira, acondicionava objetos em caixas, como em Condutores de percepção (1969), em que duas barras de vidro transparente com pontas de prata repousam sobre o veludo preto de uma caixa da mesma cor. No texto de apresentação do livro, o crítico de arte Paulo Venâncio Filho, curador da exposição do Museu Vale, toma esta peça como ponto de partida para demonstrar como Waltercio vai transformando o ambiente em escultura no amadurecimento de sua poética.

As salas seriam as caixas de outrora, fundindo objeto e lugar, sobrepondo a obra de arte com sua própria exposição. Um entusiasta dos parênteses – recorreu aos sinais gráficos inúmeras vezes em seus livros- objetos –, Waltercio também usa com frequência paredes de vidro, fios de lã colorida e finíssimas hastes de alumínio para delimitar espaços. Os limites quase transparentes substituíram a antiga moldura e as caixas de fundo negro, dissolvendo os objetos no espaço e dando a eles sutileza e discrição. As peças deixaram de estar “dentro” de alguma coisa para estar “entre”, suspensas, abrindo-se para a perturbação e a instabilidade.

A vertigem a partir do familiar
Ao levar os trabalhos para o espaço sem molduras, o artista tirou deles qualquer vestígio ilustrativo. Coados dos excessos alegóricos, os objetos se apresentam ao olhar quase zerados, dando ao espectador a sensação de vertigem. É aí que a sala vira abismo, para depois voltar a ser sala. A sequência dos ambientes, tanto na exposição quanto no livro, cria novos abismos. Pensados pelo artista como um trajeto, os trabalhos exigem que se mude de frequência à medida que se avança para a sala seguinte. Cada uma tem iluminação e montagem peculiares, gerando aproximações e antagonismos. São espaços fechados, mas que se comunicam com os seguintes, retomando a suspensão, os parênteses e os limites transparentes.

Venâncio Filho diz que Waltercio consegue unir campos semânticos aparentemente inconciliáveis como “salas” e “abismos” por nos fazer perceber que “a vertigem do familiar é a mais vertiginosa de todas. Salas de estar podem rapidamente se tornar salas de estranhar”.

Não é à toa que Salas e abismos é literalmente a maior obra gráfica já feita pela Cosac Naify, com dimensões monumentais – 28,5 x 36 cm –, transformando as 240 páginas numa verdadeira galeria para o leitor.  Com projeto gráfico do artista, o livro também é um “lugar” criado por Waltercio para a visitação dos espaços expositivos, e que se encerra em si mesmo como obra de arte.

 O livro não tem a mesma ordem apresentada no Museu Vale – Waltercio acredita que ele é uma outra exposição. Além de mostrar os nove trabalhos vistos em Vila Velha, no Espírito Santo (até fevereiro de 2010) – alguns deles inéditos, como O silêncio do mundo –, a edição da Cosac Naify inclui obras que nunca foram vistas no Brasil, caso de Quarto amarelo e Quarto azul, ambas de 1999, apresentadas numa grande exposição do artista no Centro Galego de Arte Contemporánea, em Santiago de Compostella, em 2008.

Unidade poética
O silêncio do mundo
abre a exposição e o livro. Sala formada por mesas e objetos completamente negros, ela é, curiosamente, na opinião de Waltercio, um trabalho solar. Mas é também um ruído surdo, uma pausa, um cartão de visitas que tira o visitante/leitor da confusão de imagens em que estava mergulhado antes de começar o percurso, como um computador que é reiniciado para aprimorar sua performance.

As mesas, presentes neste trabalho são outra obsessão de Waltercio. Objetos tão comuns nas salas “de verdade”, cotidianas, elas formam uma espécie de linha do horizonte na poética do artista. Podem ser combinadas a outros objetos e formar uma espécie de natureza-morta, como acontece em Maçãs falsas (2009), em que duplas de maçãs são arranjadas em mesas com paredes de vidro e hastes de alumínio. Neste trabalho, é impossível não pensar em Cézanne e em toda a história da natureza-morta como gênero da pintura. Com ele, percebe-se a série de relações entre as salas que se estabelece no livro. Maçãs falsas se comunica com a Série Veneza, assim como Ping ping se relaciona com a falsa cegueira de O silêncio do mundo e com Orquestra (2005). Neste último ambiente, setas coloridas de vinil, coladas à parede, insinuam o trajeto do som no ar. As setas se dirigem para esculturas na parede que podem aludir a instrumentos musicais, e, em vez de sair deles,  parecem correr para seu interior. Um interior que, diga-se de passagem, não existe, já que os “instrumentos” são vazados.

Orquestra também tem uma relação íntima com Velocidade. Criado por Waltercio para a Bienal Internacional de São Paulo de 1983, o ambiente era um corredor, formado por duas paredes reproduzindo caixas de chicletes Adam´s. Em uma delas, os retângulos apareciam coloridos, sem a logomarca, apenas insinuando seus sabores pela cor (hortelã=amarelo, morango=rosa, menta=verde). Na outra parede, retângulos completamente brancos funcionavam como espelhos e receptáculos para a cor irradiada pela parede em frente. A cor tomava o ambiente, usando uma referência da história da arte (o pontilhismo de Seurat), mas dando a ela uma dimensão industrial e de pintura monumental, bem adequada ao tempo que veria o aparecimento da chamada Geração 80.

“É curioso observar que, ao longo do tempo, a natureza dos materiais e a forma de montagem da minha obra acompanharam as questões da época, mas preservando o núcleo central de sua poética”, diz o artista.


Ideias e objetos
Quarto amarelo
é outra obra em que a pintura extrapola para o ambiente. Waltercio aproveitou uma parte em “V” de uma das salas do centro cultural e pintou cada um dos lados deste ângulo com o mesmo tom de amarelo. Postas uma de frente para a outra, as paredes amarelas, suspensas do chão por um vão livre sustentado por pilotis, funcionam como dois imensos rebatedores de cor e luz para o ambiente. Três fios de lã, também amarelos, criavam sombras da cor no piso branco e funcionavam como os elementos de delimitação quase invisível que caracteriza o trabalho do artista.

“O amarelo vaza para as paredes e o chão do ambiente, como se a cor se expandisse”, lembra Waltercio, que não adultera materiais e nem usa grandes recursos de montagem para fazer seus trabalhos. “Uso o aço inoxidável, a madeira e as tintas como eles se apresentam. Não há tecnologia alguma, só as ideias, os objetos e o aparecimento deles. [A crítica] Sonia Salzstein escreveu certa vez que estes trabalhos seriam sempre contemporâneos, na versão forte do termo. Na realidade, meu trabalho não tem fases, tomo apenas o cuidado de que ele esteja sempre no início. Procuro preservar nos objetos a sua capacidade inicial de aparecer”.

Além dos ensaios de Paulo Venancio Filho e Sônia Salzstein, textos de época de Paulo Sergio Duarte ganharam notas introdutórias escritas pelo crítico especialmente para a edição.