Lançado em: abril/2010
apresentação do livro
Caminhos na obra de Iberê Camargo: a força do gesto e a matéria viva

Um convite para percorrer a vida e a obra de Iberê Camargo (1914-1994), este livro é um painel extremamente cuidadoso e enriquecedor, tanto para os que conhecem o trabalho do artista quanto para aqueles que procuram uma apresentação ao seu universo. A professora de história da arte do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Vera Beatriz Siqueira, percorre em Iberê Camargo: origem e destino as fases do artista gaúcho que o transformaram num dos mais importantes da pintura brasileira.
Publicado pela Cosac Naify em parceria com a Fundação Iberê Camargo, o volume é organizado cronologicamente, como uma biografia, e sua espinha dorsal conduz o leitor pelas experiências e encontros que influenciaram Iberê Camargo. A autora dividiu o livro em quatro fases principais: “Origem e destino (1914-56)”, “Carretéis, estruturas dinâmicas, núcleos” (1956-64), “A qualidade da forma” (1964-80) e “Imagens interiores” (1980-1994).
Cada capítulo traz imagens não apenas das obras do pintor, mas também de esboços de obras, estudos e desenhos. Ao final de cada uma das quatro partes, a edição traz comentários analíticos dos quadros mais representativos do artista, escritos pelos mais importantes críticos de arte brasileiros, dentre os quais Rodrigo Naves, Paulo Venâncio Filho, Ronaldo Brito, Ferreira Gullar e Paulo Sérgio Duarte.
Arte e consciência
Ao acompanhar o caminho do escritor – as primeiras aulas ainda no Sul, os mestres no Rio de Janeiro, a viagem de estudos à Europa – é possível ver claramente um pintor em formação, que olha a tradição com curiosidade e respeito, e busca no passado não modelos a serem seguidos, mas certa independência no aprendizado e o desenvolvimento de uma espécie de método particular.
Tudo isso resulta numa consciência límpida de seu lugar de pintor. Vera Beatriz sintetiza o “problema formal enfrentado pelo artista: erguer uma linguagem moderna a partir da leitura renovada do passado”. Essa consciência de Iberê como pintor é o que o norteia tanto na busca de uma arte própria, original e nova, quanto no reconhecimento do papel do artista como um instrumento do Absoluto, como se a Arte, maior que ele, o pusesse a serviço dessa entidade misteriosa e imensa, cujo sentido deve ser perseguido em cada gesto do pintor. O reconhecimento da autonomia da Arte cria um artista dividido: se é obediente, porque realiza a obra quase sem escolha, também é dono dela, porque se fez capaz de realizá-la.
Nesse processo, é como se Iberê se impusesse uma busca insaciável por um modelo que ele mesmo desconhece e nessa busca se deparasse com um caminho que se bifurca incessantemente. O livro, portanto, busca explicar a arte de Iberê do ponto de vista de sua evolução – evolução que é como um equilibrar-se entre dicotomias: concreto e abstrato, tradição e inovação, expressão e geometria, gesto e matéria.
Mas a evolução na obra do artista significa compreender, também, o elenco de obsessões – principalmente o núcleo figurativo que guia a maioria de suas fases. Para tanto, Vera Beatriz conta com o depoimento do próprio artista e com a impressão de especialistas, tanto no corpo do texto quanto nos comentários analíticos.