Lançado em: junho/2010
apresentação do livro
Frida Kahlo em fotos inéditas reunidas em livro

Tiragem única no Brasil, com mais de 400 fotos do acervo pessoal da artista mexicana. Lançamento mundial no México, Estados Unidos, Europa e América Latina
Ela foi precoce, libertária, conviveu com nomes que marcaram sua época e os conquistou – homens e mulheres –, com os quais dividiu sua vida e foram perpetuados em seus quadros. Além disso ditou moda, fez estandarte de suas dores e morreu antes dos cinquenta. Frida Kahlo tinha tudo para se tornar o mito que é até hoje – e ainda por cima tinha consciência de que o estava construindo.
Se os principais pilares dessa construção ficam à mostra em sua obra – que sempre esteve flagrantemente entrelaçada à vida da artista –, outra porção (literalmente escondida entre as paredes de sua casa) vem agora à tona, graças à publicação pela Cosac Naify de Frida Kahlo: suas fotos, com lançamento mundial no Brasil, México, França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e América Latina. No livro, mais de 400 fotos se reúnem para contar, de outros ângulos, a história da mais famosa artista mexicana.
Quando, já viúvo de Frida, Diego Rivera deu a Dolores Olmedo instruções expressas de que o acervo pessoal do casal não fosse aberto por quinze anos após sua morte, não esperava que sua amiga e testamenteira fosse ser tão zelosa guardiã de seus segredos. Por mais de 50 anos, documentos e lembranças do casal – entre os quais cerca de 6 mil fotografias – estiveram trancafiados num banheiro da famosa Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo, em Coyoacán, na capital mexicana.
Mesmo que muito já tenha sido dito, ao longo dos anos, sobre os sofrimentos físicos e psíquicos de Frida Kahlo – começados com uma poliomielite na infância, agravados por um terrível acidente de bonde na adolescência, e coroados pelos abortos que sofreu devido a sequelas do mesmo acidente –, o conteúdo do livro ilumina muito sua vida, à moda de uma fotobiografia..
As imagens mostram uma série de autorretratos de seu pai fotógrafo, a Frida quando menina, seu estúdio, o encontro com Rivera, seu círculo cosmopolita de amigos e a intimidade da artista com personagens notáveis como Breton, Duchamp, Trótski, Henry Ford, Dolores del Rio e alguns brasileiros como Adalgisa Nery. Acompanhando as imagens – ora por si só eloquentes, ora persistentemente misteriosas – os ensaios que abrem cada uma das partes do livro vêm, como uma lufada de vento, arejar todo esse material congelado no tempo.
Os textos introdutórios – do organizador do volume, o fotógrafo, editor e curador mexicano Pablo Ortiz Monastério, e de Hilda Trujillo Soto, diretora do museu Frida Kahlo, que capitaneou a catalogação das descobertas – definem a importância do material publicado. A esses, somam-se ensaios encomendados a pesquisadores de diferentes áreas – Masayo Nonaka, Gaby Franger e Rainer Huhle, Laura González Flores, Mauricio Ortiz, James Oles, Horacio Fernández e Gerardo Estrada – que propõem leituras dos vários aspectos suscitados pelas imagens do livro.
Um apoio imprescindível para que o leitor seja conduzido pelo novo caminho aberto pela publicação para dentro do mundo da pintora, os ensaios não somente apresentam o conteúdo iconográfico, mas tecem hipóteses, conjecturam, sublinham, legendam as fotografias desse acervo escondido, abordando a influência da fotografia em sua obra, suas referências políticas e estéticas, e sobretudo a construção de sua impactante figura pública.
As fotografias do arquivo pessoal de Frida foram organizadas em sete temas principais: “Origens”, “Papai”, “A Casa Azul”, “O corpo dilacerado”, “Amores”, “A fotografia” e “Luta política” ensejam dar conta dos aspectos que mais marcaram a biografia de Frida.
Se seguimos as “Origens”, por exemplo, ficamos sabendo que não se deve à convivência com o nacionalista Diego Rivera o gosto de Frida pelos trajes típicos que, junto com as hirsutas sobrancelhas, fizeram sua imagem tão ou mais famosa do que seus quadros. O gosto pelas vestes de tehuana, típicas de Oaxaca, foi herdado de sua mãe, Matilde Calderón. Já debruçando-nos sobre as informações de “Papai”, aprendemos que, além de o fotógrafo Guillermo Kahlo ter proporcionado à filha o gosto pelo seu ofício, ele também lhe legou o apreço por se autorretratar – o que para ele era uma obsessão de bastidores se tornaria um traço marcante da obra de Frida.
Para os que conhecem A Casa Azul como Museu Frida Kahlo, é curioso e enriquecedor vê-la habitada, em suas encarnações anteriores – como casa da família Kahlo, quando sua antiga fachada ainda não ostentava a cor, e mais interessante ainda, quando por ela circularam os grandes personagens que, em algum momento, cruzaram a vida do casal Kahlo-Rivera. As fotos dessa seção povoam um espaço que é hoje uma espécie de altar ao qual visitantes de todo o mundo rendem peregrinação. Elas dão a dimensão humana que, para muitos, parece faltar a esse tipo de museu.
“O corpo dilacerado” e “Amores” são, ao mesmo tempo, as seções mais e menos íntimas do livro. Por um lado, retratam o que se tornou mais conhecido sobre a artista: suas tragédias pessoais, suas relações passionais. Por outro, trazem material inesperado, que permite perceber vieses recônditos de frustrações notórias: é o caso, por exemplo, das ilustrações do processo de gestação, que Frida Kahlo nunca pode experimentar até o fim.
Por fim, “A fotografia” e a “Luta política” promovem uma troca de lentes: do zoom sobre a vida íntima, passa-se a uma grande angular que enfoca o contexto da pintora. Frida teve a oportunidade de conviver com nomes fundamentais da arte fotográfica de seu tempo: Edward Weston, Tina Modotti, Nickolas Muray, Man Ray, Pierre Verger, entre outros. Nas duas últimas seções do livro, exemplos de seus trabalhos se fundem a fotografias anônimas de jornal, devolvendo Frida Kahlo, sua obra e sua vida, a um contexto mais amplo e tornando-a, assim, finalmente humana.