Lançado em: abril/2011
apresentação do livro
UM EDITOR ENTRE JOYCE E BECKETT

Por Ronaldo Bressane*
Em Dublinesca, seu romance mais recente, o catalão Enrique Vila-Matas narra a viagem de um editor a Dublin na tentativa de salvar a sua vida – e a própria literatura
Começo tentando definir Dublinesca, novo romance de Enrique Vila-Matas, como uma combinação de A viagem vertical, Bartleby e companhia e O mal de Montano, romances anteriores do autor nascido em Barcelona em 1955.
Mas não. Isso não é o mais correto: o novo livro de Vila-Matas combina temas de alguns de seus romances, sim, mas também de outros livros, filmes, poemas, canções, obras de arte. Trata-se de uma combinação de combinações.
Por todo o romance, Vila-Matas faz o que, em linguagem de DJ, se convencionou chamar de mash-up: uma mistura entre duas canções, usando uma melodia ou batida das músicas como "ponte", criando uma terceira canção.
A astúcia matadora do espanhol não está somente em, como fazia William S. Burroughs, fazer cut-ups de pedaços e trechos de textos e agregá-los aleatoriamente: o diabólico em Vila-Matas esconde-se justamente no amálgama entre tantas citações; sua inimitável classe – a cadência elegante, leve e ao mesmo tempo sombria, do fraseado que passeia por tantos livros, filmes, poemas, canções, obras de arte.
Embora se tenha falado aqui em música, o enredo de Dublinesca é essencialmente literário. Um renomado editor barcelonês, Samuel Riba, completa 59 anos imerso numa crise existencial, sentimental e, de certo modo, histórica.
Seu casamento não vai bem – a esposa se interessa mais pelo recém-descoberto budismo do que por seus achaques pré-sexagenários. Sua editora, que só publicou autores prestigiosos e experimentais, mas nada de best-sellers, foi fechada há dois anos, antes de falir, e Riba se recrimina por jamais ter revelado um escritor genial, “um jovem que fosse muito melhor que os outros, um escritor capaz de estruturar o mundo de maneira diferente”. Abstêmio há dois anos, Riba trocou o alcoolismo por dias e noites em frente ao computador. Depois de sua aposentadoria, ressente-se da falta dos amigos, dos jantares borbulhantes em que festejava o grande mundo intelectual. Para piorar, não para de chover em Barcelona e tudo o que Riba deseja é gozar da efervescência cosmopolita de Nova York, a cidade que mais ama, a cidade de seu amigo Paul Auster (amigo de Vila-Matas na "vida real"). Contudo, seu incontornável provincianismo o faz buscar refúgio em outra cidade pródiga em escritores, um lugar de onde eles partem para não mais voltar: Dublin, Irlanda.
Imaginando-se, além de todas as suas crises, testemunha do grande nó cultural do século, assistindo o livro impresso ser atropelado pelo livro eletrônico, vendo o riverrun do romance em papel ser estilhaçado pelo dilúvio de informações fragmentadas da internet, Riba planeja ir a Dublin comemorar o bloomsday com um funeral: ali, velará a passagem da era de Gutenberg para a era do Google.
Antes da viagem, porém – e o tema da viagem para interromper uma depressão é recorrente em Vila-Matas, como em A Viagem Vertical –, o narrador na terceira pessoa lança Riba em uma série de digressões tipicamente vilamatasiana, como se o preparativo à viagem constituísse uma odisseia em si mesma.
Guiada pela ideia do literário como em O mal de Montano, esta jornada é feita principalmente de encontros com a literatura. O primeiro nome a surgir é o do surrealista francês Julien Gracq, autor de O Litoral das Sirtes. Este livro, que trata mais das preliminares de uma viagem que da própria (escrito sob influência confessa de Os Sertões, de Euclides da Cunha), o instiga a criar uma teoria do romance que tem cinco elementos: "Intertextualidade; conexões com a alta poesia; consciência de uma paisagem moral em ruínas; superioridade do estilo sobre a trama; a escrita vivida como um relógio que avança". Claro que o próprio Dublinesca se assenta sobre esses cinco pilares. Cerebral e autoconsciente, a escrita de Vila-Matas nunca brincou tanto com os limites entre as figuras do observador e do observado. Em uma entrevista, Gracq tentou explicar seu livro como "a necessidade de ser ao mesmo tempo ator e espectador, de se distanciar constantemente daquilo que se faz, não deixando de fazê-lo. Pois o homem que vai partir lança um olhar novo sobre aquilo que o cerca. Ele ainda está lá e não está mais". Uma definição perfeita para Dublinesca, que vai, sem ter partido, e que quando chega, lá já não está.
A eterna digressão de Vila-Matas faz com que Riba, que se vê como um hikikomori (os nerds japoneses que jamais saem de casa, confinados na internet), espelhe-se no personagem Spider, o esquizofrênico do filme de David Cronenberg, cuja letra o faz lembrar a caligrafia do escritor suíço Robert Walser – aquele que passou a escrever com uma letra cada vez menor, até morrer, solitário, nas nevadas imediações do hospício onde havia sido internado por esquizofrenia.
No delírio autoconsciente de Riba, uma lembrança de vida leva a uma lembrança de arte, como se a biografia, na verdade, não passasse de um catálogo de livros, ou melhor, do ensaio de um catálogo de livros – e aqui a palavra ensaio encontra ressonância como significado de aproximação. O leitor se aproxima do fugidio Riba, mas ele sempre escapa por trás de uma nova citação, de um novo universo literário que paralisa sua vida – assim como os bloqueios criativos dos personagens de Bartleby e Cia. A tensão narrativa se sustenta nesse permanente diálogo com fantasmas, como se a cada nova citação se reafirmasse, paradoxalmente, a morte da literatura. A leitura, para Riba, é "não só uma prática inseparável de seu ofício de editor, mas também uma forma de estar no mundo: um instrumento para interpretar de forma literária, sequência após sequência, o diário de sua vida".
Mesmo cambaleante entre essa realidade fracassada e seus sonhos literários, Riba convence três amigos a compartilhar em Dublin de seu réquiem pela literatura. Os enlaces entre vida real e vida escrita se evidenciam quando se sabe que os partícipes do misterioso funeral são membros de uma certa Ordem do Finnegans – da qual, na "vida real", fazem parte o próprio Vila-Matas e escritores como Eduardo Lago; os Cavalheiros vão a Dublin todo 16 de junho para ler trechos do Ulysses e depois, convenientemente, embriagar-se num pub chamado Finnegans.
Mas, quando a viagem de Riba estreita-se com a efusão do aniversário de Bloom, um outro espectro irlandês resolve participar da jornada: Samuel Beckett. Entre a escrita onívora de um e o texto descarnado do outro, entre a "busca da leveza na arte" e o "peso de viver", na expressão do poeta Mark Strand, Samuel Riba vai levando uma existência atônita e apatetada, em que o desespero intelectual a todo momento é assustado pela falta de jeito ao lidar com a vida, o que redunda em momentos de comicidade – como quando um personagem é esnobado por Tom Waits ou outro se apaixona por uma moça banguela comendo batata.
Entre tombos, delírios e dezenas de citações, o livro conta a odisseia de um homem oco em busca de sua identidade: um oco que só se preenche com o que lhe é alheio. Essa dinâmica de multiplicidade e unidade, gravidade e leveza, biografia e invenção, ficção e ensaio só conseguiria mesmo encontrar equilíbrio numa escrita musical como a desse DJ de livros chamado Enrique Vila-Matas.
* Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor de Céu de Lúcifer, entre outros.