Edição ilustrada por Guazzelli traz conto raro do escritor português
A Cosac Naify se orgulha de apresentar o conto Um dia de chuva, de Eça de Queiroz. Trata-se de um dos últimos contos escritos pelo autor português, tendo sido publicado após a sua morte. Pouco conhecido – inclusive pelos amantes de Eça – o texto ficou “inacabado”, um traço de modernidade que só enriquece a leitura. O professor e intelectual Antonio Candido – que colaborou com esta edição – registrou seu apreço pelo conto no artigo “Eça de Queiroz, passado e presente”, saudando também o estabelecimento do texto feito por Beatriz Berrini: “Embora mais irregular, o texto estabelecido por Beatriz Berrini continua encantando pela graça e originalidade, a ponto de podermos dizer que, se é inacabado como redação, é completo como composição, sendo uma pequena obra-prima sem polimento final”.
O enredo é simples e aponta para uma singela história de amor, encoberta por uma chuva incessante. José Ernesto, um solteirão de Lisboa, vai até o Norte de Portugal com o intuito de comprar uma quinta, para fugir da cidade grande. Ao chegar, sucedem-se vários dias de chuva sem trégua. Impossibilitado de visitar a propriedade, ocupa o tempo conversando com o padre da paróquia local, que também é procurador dos donos da casa, e o caseiro. Impossibilitado de conhecer a quinta, José Ernesto ouve ao redor de uma boa mesa, ao sabor das iguarias rurais e do vinho, o padre contar as vantagens do terreno e a história da família que habitava a casa. É então que ouve falar de D. Joana, filha do proprietário, por quem se apaixona mesmo antes de conhecê-la.
Se o texto conduz o leitor ao ambiente exterior, marcado pela água torrencial, as ilustrações de Guazzelli criam a atmosfera romântica que se forma, gradativamente, entre José Ernesto e a filha do proprietário, priorizando o interior do casarão do século XVI. “Desenhar este livro representou, para mim, um exercício extraordinário de articulação de opostos: o contraponto entre um ambiente chuvoso, sempre indefinido, quase abstrato, e o caráter sólido e imutável da quinta. A atmosfera de refúgio que pouco a pouco envolveu o protagonista me atraiu. Era como se, a cada desenho, essa sedução acontecesse da mesma forma em mim”, explica Guazzelli.
Este conto raro – publicado no Brasil apenas nas obras completas do autor –, em que Eça estabelece, mais uma vez, o paralelo entre os males da cidade e as excelências da vida próxima à natureza, traz à memória do leitor queiroziano romances como A ilustre casa de Ramires (1900) e A cidade e as serras (1901). “O que não se entende é que esta narrativa admirável tenha ficado à margem da caudal poderosa que foi a voga de Eça de Queiroz no Brasil nesses cento e poucos anos”, conclui Antonio Candido.
Um dia de chuva se junta a outras obras de escritores clássicos que a Cosac Naify publica em edições ilustradas. Assim é
A Árvore dos Desejos de William Faulkner,
Pawana de J. M. G. Le Clézio (ambos também ilustrados por Guazzelli) e
A janela de esquina do meu primo, de E. T. A. Hoffmann, com ilustrações de Daniel Bueno.