apresentação do livro
Coração apertado

Por Richard Aczel*
Os verbos auxiliares do coração é um livro que exige e, ao mesmo tempo, desafia introduções. Trata-se de uma oração pessoal – “em nome do pai e do filho” – lamentando a morte de uma mãe, mas também de uma meditação sobre como dizer “meus pêsames” de maneira articulada (e suportável) num meio notoriamente público: a palavra escrita. Alternando entre o intimamente confessional e o ostensivamente literário, a obra se aproxima e se afasta da tristeza que procura retratar. Mesmo a identidade da mãe morta permanece incerta.
Ela não pode ser chamada simplesmente de a mãe do escritor, porque é claramente um personagem ficcional, cujo próprio nome, Beatriz Elena Viterbo, é tirado de uma novela de Borges. Mesmo chamá-la, com um pouco mais de cuidado, de a mãe do narrador é não contar a história por inteiro, já que na segunda metade do livro ela é o narrador, encomendando e velando o corpo de seu filho perdido. Ela é, ao mesmo tempo, tão estudadamente literária quanto comoventemente convincente em relação à tristeza que envolve sua perda.
É essa mesma ambiguidade – a mesma compulsão literária que faz com que a voz se afaste da experiência narrada – que dá ao título do romance a sua ironia: a justaposição de uma categoria gramatical, o verbo auxiliar, com o símbolo da paixão humana, o coração. E os verbos auxiliares, como o livro vai nos mostrar, não são apenas suportes da expressão, mas servem também para anular e negar.
Se Os verbos auxiliares do coração é, de acordo com seu autor, um livro que “exige um prefácio”, o prefácio de Esterházy se propõe a pouco mais do que ensaiar o drama de proclamação e negação promovido pelo romance. Quando Esterházy parece estar sendo mais sincero, ele está na verdade vestindo a máscara de um de seus mais caros “auxiliares”: a citação literária. Quase todo o texto de seu prólogo aparentemente confessional foi tirado de A Sorrow Beyond Dreams, de Peter Handke. O uso da citação é central para o projeto mais amplo ao qual o romance de Esterházy faz parte. Os verbos auxiliares do coração é obra introdutória também em outro sentido: faz parte de uma série de textos que Esterházy publicou nos anos 80 sob o título de Introdução à literatura. Antes de olhar mais atentamente para este projeto e o lugar que o presente romance ocupa nele, é preciso dizer algumas poucas palavras sobre o autor.
Péter Esterházy nasceu em 1950 em uma das mais ilustres e aristocráticas famílias da história húngara. A influência da família remonta ao início do século XVII, quando Miklós Esterházy, um nobre protestante, adquiriu extensas propriedades e o título de conde como recompensa por sua lealdade à dinastia Habsburgo e adoção da fé católica. Ele se tornou Paladino da Hungria em 1625. Seu filho Pál, poeta e grande patrono da cultura barroca, que recebeu o título de príncipe em 1687, também permaneceu leal à dinastia durante a Guerra da Independência no início do século XVIII. A geração seguinte seria celebrada principalmente como patrona das artes, empregando Joseph Haydn como mestre de capela em 1761 – cargo que o compositor ocupou por quase trinta anos. A família continuou influente ao longo do século XIX e início do XX. O príncipe Pál Anton Esterházy serviu no governo revolucionário húngaro de 1848, enquanto o Conde Móric Esterházy – avô do escritor – foi primeiro ministro da Hungria por um breve período em 1917.
Péter Esterházy, entretanto, cresceu em um mundo muito diferente, no comunismo húngaro do pós-guerra, em que a família havia perdido seu status e, um ano após seu nascimento, foram declarados como “inimigos da classe”, e colocados num exílio interno. No clima político mais liberal dos anos 1960 e 1970, Esterházy estudou matemática na Universidade de Budapeste, onde se formou em 1974. Nos quatro anos seguintes, trabalhou como operador de sistemas no Instituto de Tecnologia da Computação do Ministério de Metalurgia e Mecânica Pesada, uma experiência que foi usada em seu primeiro romance, A Novel of Production, publicado em 1979.
Nesta época, Esterházy já era um escritor com dois livros de contos publicados. Mas foi A Novel of Production que o alçou imediatamente à categoria de escritor mais interessante e desafiador de sua geração. O romance apresenta um pastiche hilariante do “ambiente de trabalho” stalinista, narrando a surreal batalha de um jovem técnico em informática contra a burocracia. A história é acompanhada por volumosas notas de rodapé sobre a composição do romance e o dia-a-dia de seu autor, escritas por seu secretário literário fictício, Johann Peter Eckermann (de Goethe). As histórias contadas nas notas guardam relação pouco óbvia com a narrativa propriamente, antecipando a relação peculiar entre vida e o fazer literário que Esterházy desenvolveria em Os verbos auxiliares do coração. A Novel of Production também antecipa Os verbos auxiliares do coração no ubíquo uso que Esterházy faz das citações – dos debates parlamentares do século XIX às demagogias políticas dos anos 1950 – minando de forma singular a identidade e a autenticidade da voz narrativa.
Por trás desta problematização das relações entre arte e vida está um desafio mais profundo ao didatismo convencional da tradição literária húngara. Na Hungria – e mais geralmente no Leste Europeu – a literatura tem sido um assunto altamente político há pelo menos duzentos anos, onde o escritor ocupa a privilegiada posição de reformador social e porta-voz nacional. Foi um poeta que liderou a revolução húngara de 1848 contra os Habsburgos, e os escritores desempenharam papel não menos importante nas revoltas de 1956. Até então, “literatura comprometida” significava sobretudo o compromisso com as imposições do partido comunista, seja na forma do realismo socialista (parodiado em A Novel of Production) ou louvações aos trabalhadores e líderes políticos de Stakhanovite (também ingredientes do pastiche de Esterházy). Em 1949, um ano antes de Esterházy nascer, o diário do Partido insistia: “Chegou a hora de declarar abertamente que somente o Plano de Cinco Anos deve determinar as linhas gerais de nossa literatura e escolher seus temas. Para aqueles que veem isso como uma camisa de força, a nova Hungria só pode parecer uma prisão, e eles não têm lugar na nossa nova literatura”.
É o esforço de libertar o escritor do que se convencionou chamar de “seu papel de europeu oriental” que forma o grandioso projeto de Introdução à literatura, de Esterházy, que finalmente apareceu como um volume único em 1986. “Pode ser mais animador”, escreve Esterházy em certa altura do livro, “se o escritor pensar menos em termos de povo e nação e mais em termos de sujeito e predicado”.
Este retorno ao reino da palavra – em oposição àquele das ideias adquiridas – percorre toda Introdução à literatura, e é notável que o título do primeiro romance da série publicado de forma independente fizesse referência a um termo gramatical, como em Os verbos auxiliares do coração. Entre a variedade de significados que o título húngaro do romance, Függö (1981), abrange estão “subordinado” (como em oração subordinada) e “indireto” (como em discurso indireto) – termos que, como “auxiliares”, sugerem o aspecto crucial de afastamento. Novamente o drama da sinceridade e da duplicidade é ensaiado nas palavras iniciais do romance: “Eu narro, eu, e esse ‘eu’ não é um personagem fabricado, mas o romancista, que conhece o seu assunto, um homem amargamente desiludido...” O “romancista desiludido” aqui não é Esterházy, mas Robert Musil, e a declaração enxertada a partir dos Diários, de Musil.
O prefácio de Os verbos auxiliares do coração é datado de 16 de junho. Esta data aparece aproximadamente trinta vezes ao longo de Introdução à literatura [série de textos que Esterházy publicou nos anos 80 e apareceu como um volume único em 1986] e, para Esterházy, é duplamente significante. Por um lado, foi o dia em que Imre Nagy, o líder do governo revolucionário húngaro, foi executado, dois anos após a revolta. No mesmo dia, em 1989, Nagy – até então enterrado em vala comum – recebeu funeral público em Budapeste, marcando o início do fim do regime comunista húngaro. Mas 16 de junho é também um dia crucial na história da ficção moderna. É o bloomsday de James Joyce – o dia em que acontece a ação de Ulysses, um dia na vida do personagem central, Leopold Bloom. A fusão fortuita da história nacional e da história literária serve como lembrete que, para toda a seu divertido virtuosismo e insistência na autonomia da literatura, Esterházy permanece totalmente consciente do contexto histórico no qual sua literatura inscreve. Isto fica particularmente claro em um dos mais controversos romances de sua Introdução à literatura, A Pocket Hungarian Pornography (publicado em 1984), uma sátira dos preconceitos políticos, culturais e nacionais da Hungria. Nesse livro, que se inicia com uma sentença gramaticalmente incorreta, pornografia é, ao menos em parte, uma questão de abuso de linguagem; a violência praticada pelo clichê e pelo dogmatismo – sobretudo os clichês e dogmatismos do stalinismo dos anos 1950.
“Não tenho nada a dizer, e estou dizendo, e isto é poesia”, escreve Esterházy em A Pocket Hungarian Pornography, citando o compositor americano John Cage. Esta afirmação, no contexto do desafio ao didatismo nacional representado por Introdução à literatura, deve ser interpretada como um gesto dramático, e não como manifestação da verdade. Claramente, Péter Esterházy tem algo a nos dizer – sobre a escrita, sobre a região onde vive e, em Os verbos auxiliares do coração, sobre uma experiência fundamental e comum a toda a humanidade: o luto. Seus verbos auxiliares e citações literárias não somente “anulam e negam”, mas também expressam. E existem poucas expressões mais poderosas da experiência da perda humana na ficção moderna do que Os verbos auxiliares do coração. Por toda sua negação e disfarce compulsivos, Os verbos auxiliares do coração é um ato de fé no poder das palavras, e o retorno de Esterházy a um princípio fundamental da gramática – sujeito e predicado –, que faz parte de um meticuloso, e por vezes doloroso, processo de aprendizado do uso da linguagem, outra vez após anos de abuso dogmático. O reaprendizado da linguagem, que Esterházy oferece e ao mesmo tempo demanda de seus leitores, é muito mais que uma fuga literária. Afinal, como sugere a frase de Wittgenstein, epígrafe de Os verbos auxiliares do coração: “Pode falar quem tem esperança, e vice-versa”.
*Richard Aczel é crítico, tradutor do húngaro, dramaturgo e
professor de literatura inglesa na Universidade de Colônia, na Alemanha.