a máquina de fazer espanhóis

Lançado em: maio/2011


Título do Livro

apresentação do livro


Fazedor de velhos




Por Alexandre Rodrigues*
 
Com um estilo de prosa que José Saramago definiu como um “tsunami linguístico, semântico e sintático”, valter hugo mãe (1971) é o mais prestigiado autor de sua geração em Portugal. Vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2007, valter vem ao Brasil em julho, para a Flip.

Em A máquina de fazer espanhóis, seu romance mais recente, o autor português narra a história de antónio jorge da silva, um barbeiro que acaba de completar 84 anos, e depois de perder a mulher, é entregue a um asilo.

Romance sobre a velhice, o amor e a amizade, a máquina de fazer espanhóis fala também de certo sentimento de inferioridade que passou a marcar a relação de Portugal com a Espanha, ex-concorrente dos tempos dos impérios ultramarinos. Mais do que os vizinhos, os espanhóis viram concretizadas as promessas de prosperidade sinalizadas pela entrada na União Europeia. Portugal, por séculos colonizador em vários continentes, viu-se, ao contrário, amargar uma série de revezes econômicos e sociais.

Ao perder seu amor, o narrador, silva, se vê descartado, num mundo cuja metafísica foi subtraída (“um mundo em minúsculas”). Ele que viveu sob o peso de Salazar, nos tempos em que as ditaduras regiam tudo, coloca o passado e suas ações em perspectiva, não sem notar que o pessimismo sobre o papel do país no mundo exacerbou-se ainda mais. Portugal se transformou numa máquina geradora de sentimento de inferioridade, uma máquina especializada em produzir entre os nascidos no país a vontade de deixá-lo.

O legado político do salazarismo está entrelaçado à história de silva. Enquanto convive com os outros moradores do asilo, tudo conspira contra a estadia tranquila de silva, que, no passado, preocupado em proteger a si mesmo e à família, silenciou, como a maioria dos portugueses, permitindo que a ditadura se fortalecesse. Uma ferida ainda não resolvida na sociedade. Em tempo: há alguns anos, no país de Camões, Pessoa e Saramago, uma pesquisa apontou Salazar como o maior português de todos os tempos.

A grande reviravolta na vida do narrador acontece com a morte da mulher e a ida, contra a sua vontade, para o asilo. A partir daí, passamos a ver um desfile de personagens que ocupam e desocupam os quartos cinzentos do asilo, como se o local fosse uma antessala da morte. Ainda que todos ali sejam diferentes uns dos outros, a iminência da morte torna-os semelhantes nas reações: a solidão, o mau humor, o silêncio, a esperança.

Dentro do asilo, os fantasmas remetem ao ambiente no país de décadas atrás, quando, como em quase todas as ditaduras, as únicas manifestações permitidas eram a anestesia do futebol, das emoções e da religião: Nossa Senhora de Fátima, a cantora de fados Amália Rodrigues, e Teófilo Cubillas, o craque peruano que jogou no Porto e, por algumas temporadas, chegou a superar Pelé. Outro símbolo português que surge, e serve como uma espécie de fio condutor da narrativa, é o poeta Fernando Pessoa. Um dos velhos do asilo, esteves, diz ser o personagem homônimo dos últimos versos do poema “Tabacaria”, de Pessoa. 

Tanto para silva como para o leitor, o livro torna-se um exercício de imaginação sobre o envelhecer. O autor, numa nota final, explica que o pai sempre disse que morreria de câncer antes da velhice, o que acabou acontecendo onze anos atrás. “Acreditei que aquilo era para nós dois. Que eu também morreria antes do esperado”, diz. O livro, segundo valter hugo, foi uma forma de inventar uma terceira idade que nunca testemunhou. 

Quantos já não ouviram falar de alguém que depois de um longo casamento, diante da falta do companheiro, sucumbe e não consegue encontrar forças para seguir adiante? De maneira nem sempre fácil, é obrigado a investigar novas formas de conduzir seus dias. Sem sucumbir ao pessimismo, acontece a descoberta de que, além do amor, existe a amizade. E fica ainda mais evidente a importância, até o último suspiro, de quem está vivo.

*Alexandre Rodrigues é jornalista e escritor, autor do livro de contos
Veja se você responde essa pergunta (Não Editora, 2010).