Alice no País das Maravilhas



Ilustração


Ilustração


Ilustração

Lançado em: outubro/2009
entrevista: Nicolau Sevcenko


Alice, nossa heroína e inspiradora


Por Livia Deorsola


Alice no País das Maravilhas
é “a melhor lição de ética, de irreverência e de inconformismo, tanto para crianças quanto para adultos.” A definição é de Nicolau Sevcenko (1952-), que, além de apaixonado pela obra-prima de Lewis Carroll, é um de seus melhores tradutores. Historiador e professor da Universidade de Harvard e da USP, ele volta ao texto do autor inglês na nova edição da Cosac Naify, uma versão completa do original de 1865, agora com a tradução inédita dos poemas.

Sevcenko - de quem a Cosac Naify lançará, em 2010, A revolta da vacina (1993) - assina também um posfácio exclusivo, contextualizando o período vitoriano em que o livro foi escrito e a crítica à sociedade implícita na narrativa de Carroll. Centra-se, sobretudo, na submissão das crianças à disciplina puritana que tolhia a liberdade lúdica.

Na entrevista a seguir, o tradutor fala, ainda, sobre a visita que fez aos locais onde viveram Carroll e a família de Alice, e ressalta seu deslumbramento diante da “poesia visual ao mesmo tempo delicada, onírica e estranhamente desconcertante” criada pelas ilustrações do artista plástico Luiz Zerbini.

*

O que o levou a traduzir Alice no País das Maravilhas?
Sempre fui apaixonado pelo livro. Sabendo disso, a Cristina Carletti, então editora da Scipione, me convidou para traduzi-lo (no final dos anos 80 ou início dos 90, não lembro bem). Eu disse que gostaria de fazer o texto na íntegra, e não apenas uma adaptação. Na época, estava bastante ocupado – com aulas, pesquisa, artigos, livros –, por isso o processo da tradução foi bastante árduo e lento, e levou cerca de um ano.

O resultado acabou se tornando até mesmo parte de pesquisas de mestrado e doutorado, no Brasil e no exterior, que comparavam diferentes traduções da Alice, o que me deixou muito contente. Minha tradução foi também escolhida para ser transcrita em braile pelo Instituto dos Cegos do Brasil, o que  me deixou mais feliz. 

Para esta nova edição, o senhor retraduziu os poemas originais de Lewis Carroll. O que mudou?
Na ocasião em que fiz o trabalho pela primeira vez, decidimos usar parte dos poemas traduzidos pelo Geir Campos, para não atrasarmos o cronograma. Então aproveitamos algumas das poesias mais longas e complicadas. Agora, eu mesmo traduzi todos os poemas. Encarar os jogos gramaticais, semânticos, contextuais, poéticos, filosóficos, estéticos e éticos das poesias e canções do livro foi um desafio enorme. Mas quanto maior a complexidade e amplitude do desafio, maior é o prazer de enfrentar e se divertir com o jogo. É uma espécie de toque-emboque de palavras e imagens que temos de encarar com coragem, porque se a gente vacila, por trás ecoa a voz ameaçadora da Rainha gritando: – Cortem a cabeça dele!

O senhor visitou os lugares onde viveu e trabalhou Lewis Carroll, em Oxford. Como foi a experiência?
Só pude visitar Oxford no fim dos anos 90, quando fui convidado para participar de um evento acadêmico no Saint Anthony's College da Universidade de Oxford. Fiquei excitadíssimo com a possibilidade de conhecer de perto o cenário da vida de Lewis Carroll e das irmãs Liddell [sobrenome da família de Alice]. Fiz uma pesquisa básica sobre os lugares por onde eles andavam e pelas circunstâncias e contextos que foram incorporados no livro, e me diverti muito fazendo o roteiro. Lá, naturalmente, tanto o pessoal da Universidade quanto os habitantes são fãs incondicionais da Alice, e quase todo mundo tem uma anedota para contar, algum fato inusitado, um lugar menos conhecido, fofocas sobre a identidade secreta dos personagens, sobre o que Carroll aprontava na Universidade, sobre a família Liddell e as meninas. Foi uma delícia e aprendi maravilhas, literalmente.

No posfácio feito para esta edição, o senhor ressalta a sátira ao mundo dos adultos, liberando as crianças para a espontaneidade e para sua vocação lúdica. Qual o sentido que esta interpretação mantém com o contexto vitoriano?
O livro apresenta um mundo atravessado de irracionalidade, de situações absurdas e de diálogos desconcertantes, e, no entanto, é movido por uma lógica política implacável. Ele representa uma ordem opressiva em que prevalecem a violência, o medo, a coação, as ameaças, que se impõem de cima para baixo, numa estrutura hierárquica em que os mais fracos e vulneráveis são os mais expostos a atos arbitrários. É exatamente como se sentem as crianças e os jovens, num mundo dominado por gente grande, arrogante, autoritária e brutal. É como se sentem também as pessoas pobres, os deficientes, as minorias, os estrangeiros, os imigrantes e as criaturas da natureza. Alice, não nos esqueçamos, é uma estrangeira no País das Maravilhas.
O outro lado da história, ainda mais fascinante, é que, sendo uma criança, Alice não incorporou ainda a norma e o hábito da subserviência. Nesse sentido, onde quer que ela detecte alguma situação de prepotência ou desrespeito, imediatamente reage e encara o ser truculento de igual para igual, sem medo e sem dobrar a espinha. Ela implode a lógica do autoritarismo vitoriano. É nesse sentido que ela é a nossa heroína e inspiradora. Só uma criança pode ter esse desprendimento de ignorar as regras que sustentam um sistema opressivo. Tal como o menino que um dia gritou que “O rei está nu!”. Portanto, Alice ainda é e sempre será a melhor lição de ética, de irreverência e de inconformismo, tanto para crianças quanto para adultos.

Um dos trechos mais conhecidos da obra é o momento em que aparece a Rainha de Copas e seu particular senso de justiça – a sentença antes do veredicto. Qual a leitura política que se pode fazer desta passagem?
O livro todo é uma alegoria sobre os mecanismos que sustentam sistemas de poder e como desarmá-los. Eu sei que dizer isso soa como uma aberração e parece extrapolar o universo de um livro infanto-juvenil. Mas esse é o verdadeiro mistério pelo qual essa obra é das mais lidas, traduzidas e admiradas da cultura ocidental: ela comporta imensas ambivalências e cria uma realidade limiar, que tanto pode ser entendida como uma fábula para jovens, quanto como uma das mais percucientes alegorias políticas.

Além de historiador, o senhor é interessado por diversas áreas, como literatura e cinema. Dentro desta perspectiva múltipla, quais são as aberturas que Alice no País das Maravilhas oferece ao leitor?
A Alice é uma história com uma esplêndida força visual. É por isso que as ilustrações e os ilustradores sempre foram parte integrante e decisiva do livro. Essa é a razão também porque essa obra pode ser vertida fácil e admiravelmente para qualquer linguagem: teatro, cinema, desenho animado, quadrinhos, dança, música, ópera (acho que até hoje ninguém ainda teve a ideia genial de montar uma ópera sobre a Alice, mas fica aqui a sugestão para quem tiver a coragem e o bom-gosto!).

Para a edição da Cosac Naify, o Augusto Massi e a Isabel Coelho convidaram o artista Luiz Zerbini, que fez um trabalho de uma poesia visual ao mesmo tempo delicada, onírica, cheia de sugestões lúdicas e estranhamente desconcertante. É sem dúvida um trabalho à altura da energia alucinante e hipnótica do livro.