Suicídios exemplares



Ilustração






Lançado em: maio/2009
entrevista: Enrique Vila-Matas


Três perguntas para Enrique Vila-Matas



Vila-Matas nos anos 1990, época em que lançou Suicídios exemplares na Espanha


Suicídios exemplares foi publicado em 1991, antes de livros como Bartleby e companhia, O mal de Montano, Paris não tem fim. Que Vila-Matas é esse? O que o leitor brasileiro, que conhece suas obras posteriores, pode esperar deste livro?
É um Vila-Matas em estado puro, um livro respeitado até por meus inimigos. Além disso, é um claro precursor de Bartleby e companhia, já que narra histórias de pessoas que se retiram de uma atividade. Também precede Doutor Pasavento [que a Cosac Naify publicará ainda este ano] porque no conto “A arte de desaparecer” se fala, pela primeira vez em minha obra, sobre o tema de recusar-se a publicar, o medo de sofrer a exposição pública como se fosse uma ofensa; uma sensação de desnudar-se e de humilhar-se como se estivesse diante de uma comissão médica militar uniformizada. Escrevi Suicídios exemplares para me indagar sobre minhas relações com a vida e a morte, sobretudo com esta última, já que da janela do sexto andar, onde moro, a possibilidade do voo se oferecia muito facilmente. Lembro que, enquanto eu escrevia estas histórias – tendo em conta que, geralmente, me identifico com os personagens do livro que estou escrevendo –, sentia um certo temor de provar minhas asas e me matar.

Em A volta ao dia em oitenta mundos, Cortázar se pergunta: “quem nos resgatará da seriedade?” O suicídio, um tema sombrio por excelência, em seu livro é tratado com humor, uma sutil ironia.
Tinha medo que fosse um livro que conduzisse ao suicídio, e temia até mesmo ser acusado judicialmente por incitar as pessoas a tirar a vida com as próprias mãos. Mas aconteceu o contrário. Comecei a receber cartas de leitores que eram suicidas em potencial, e que adiaram a decisão de se matar depois de terem lido o livro e terem caído na risada com algumas das histórias, ou com alguns dos finais dessas histórias.

Há, no livro, um forte componente narrativo. Borges, no famoso prólogo que escreveu para A invenção de Morel recupera e tenta, a seu modo, driblar a afirmação de Ortega y Gasset: “hoje em dia, dificilmente será possível inventar uma aventura capaz de interessar a nossa sensibilidade superior”. De Suicídios exemplares a livros como Doutor Pasavento, houve mudanças no modo de encarar a trama, a narrativa, a aventura?
Não perco de vista a narração de histórias, a trama. Mas, em meus últimos livros, essas tramas foram invadidas pelo ensaio, pela reflexão. Algo como um “pensamento narrado” ou “ensaios narrados”. Tenho procurado sempre mudar. Me aborrece muito me repetir. Encaro como uma evolução. E conto com leitores fanáticos pela minha primeira fase (Suicídios exemplares, Hijos sin hijos, Extraña forma de vida), às vezes até contrários a minha vertente mais reflexiva (Montano, Pasavento). Em Exploradores del abismo, acho que consegui combinar as duas vertentes. Mas é isso: não gosto de me repetir.

Chris Shaw – há muitos anos o engenheiro de som preferido de Bob Dylan – conta que, ao fim de um show, se aproximou de Dylan e, referindo-se à interpretação de It’s Alright Ma que acabara de ouvir, quis saber se alguma vez o músico tinha voltado a tocar a versão original da música. Dylan o olhou e disse: “Bom, você sabe, um disco não é mais que o registro do que você estava fazendo naquele dia em particular. E ninguém gostaria de viver o mesmo dia outra vez, não?” A anedota não só expõe uma crença artística, mas um modo de vida. E isso me faz pensar não só na necessidade que sempre tive de modificar tudo o que se apresenta como original, mas também na angústia que sinto quando alguém me fala sobre um livro que publiquei há muito tempo. Volta e meia isso acontece quando um romance é lançado em um outro país e preciso aparecer em público, como se tivesse acabado de escrevê-lo e, além disso, assinar em baixo de tudo que foi dito ali, há tanto tempo. A gente escreve precisamente pelo motivo contrário, para modificar os originais. São situações muito incômodas e, em certas ocasiões, beiram o pesadelo quando se vê que o outro se fortalece na crença de que se é o mesmo do que quando, horas ou anos atrás, escreveu aquilo. Escrevo para não viver o mesmo dia outras vezes. Como Dylan é sábio.

[Tradução: Livia Deorsola]

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