Recados da bola



Ilustração






Lançado em: junho/2010
entrevista: Jorge Vasconcellos


Mestres da bola abrem o jogo


A história do futebol brasileiro não seria a mesma sem a atuação de craques como Barbosa, Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Zizinho, Ademir Menezes, Djalma Santos, Zito, Didi, Rivellino e Sócrates. Reunidos em Recados da bola, doze dos maiores jogadores de todos os tempos revelam preciosas passagens de suas carreiras, a relação com os colegas, detalhes de partidas decisivas e curiosidades que formam o rico painel do melhor futebol do mundo. Também está ali o retrato dos ídolos humanizados, com suas vaidades, medos, vitórias e derrotas pessoais.

Os depoimentos são, ainda, acompanhados por uma seleção de imagens raras: a foto de Domingos da Guia que ilustrou a capa da revista argentina El Gráfico; o trio Formiga, Zizinho e Djalma Santos, em 1957; Ademir Menezes em partida contra a Suécia, em 1950; Nilton Santos em família; a cena de Bellini erguendo a taça sobre a cabeça, em 1958, ato que inaugurou esta tradição no mundo.

Em entrevista ao Portal da Cosac Naify, o jornalista - e flamenguista - Jorge Vasconcellos, organizador do volume, comenta a edição do livro, relembra os encontros com os jogadores e dá pitacos na escalação de Dunga: “Na minha seleção haveria espaço para os três: Ganso, Neymar e Ronaldinho Gaúcho”.



A edição

Recados da bola é resultado de uma série de dez programas de rádio feitos por mim e pelo jornalista Claudiney Ferreira para a BBC de Londres, em 1994, para comemorar o centenário da chegada do futebol ao Brasil. As fitas foram distribuídas para rádios do país. As entrevistas foram feitas aqui – na casa dos jogadores –, mas a edição do material foi feita em Londres, onde passamos 20 dias. Chegávamos muito cedo ao estúdio e só saíamos de lá tarde da noite.

Quando vi o livro pronto, chorei de emoção. Digo sempre: este é um livro da Cosac Naify. Com exceção dos depoimentos, nada do que está ali foi pensado antes, são todas ideias dos editores: a apresentação do Luiz Fernando Verissimo, as fotos – que são um espetáculo à parte –, os trechos de grandes nomes comentando jogadas e craques, como Ruy Castro e Nelson Rodrigues. Também por sugestão da editora, foram feitas quatro novas entrevistas, que estão apenas no livro: Zito, Djalma Santos, Sócrates e Nilton Santos.

Recados da bola é indicado a todos os públicos, porque o texto flui, você lê como se estivesse num bate-papo. Além disso, aborda vários aspectos e por isso pode ser considerado um livro de fotografia, jornalismo, futebol, tudo isso ao mesmo tempo. Os depoimentos carregam um grau de generosidade e uma quantidade de informação inacreditáveis. Era maravilhoso ver o prazer que tinham os entrevistados em contar, em detalhar os fatos.

Personalidades em campo

Eu me lembro perfeitamente do jeito dos jogadores falarem, se expressarem. Essas características, de certa forma, estavam representadas no modo como jogavam. São gerações de homens de personalidade forte, que decidiam em campo e fora dele. Naqueles tempos, a figura do treinador tinha um papel diferente – muitos acatavam as opiniões dos jogadores.

Os códigos de ética e de compromisso também eram outros. O Didi [1928-2001] contou que quando lançava uma bola e o companheiro não partia atrás dela, era quase como uma traição.

Este espírito de liderança é o mesmo encontrado no Sócrates [1954-], outro craque presente no livro. O “doutor”, como era chamado, fazia questão de saber como viviam os companheiros de time, visitava a casa dos jogadores do Botafogo de Ribeirão Preto, sobretudo os mais humildes. Neste aspecto, se parecia com o Zito [1932-], que cuidava inclusive de assuntos particulares dos colegas, ajudava a pedir empréstimo ao clube, representava-os diante dos dirigentes.

No livro, todos falaram, sem medo, sobre as brigas e os enfrentamentos com os técnicos, e esta coragem não tem a ver com o fato de o tempo ter passado, pois naqueles anos eles já se posicionavam, sem o batalhão de assessores e mediações que vemos hoje.

O Jair Rosa Pinto era dono de uma das personalidades mais fortes. O próprio Pelé, que reconhece o Zizinho como seu grande mestre, admite o peso das orientações que recebeu do Jair. A principal lição que o veterano passou àquele que viria a ser o rei do futebol foi a de, em campo, não apanhar.  Na época, era comum que um jogador quebrasse a perna do outro. Lembro do episódio em que, numa partida entre Brasil e Peru, o Gérson quebrou a perna do adversário sem nenhum disfarce. O Valdemar Carabina, ex-zagueiro do Palmeiras, brincava com o Pelé antes dos jogos: “Vou quebrar a perna deste crioulo”. E o Pelé rebatia: “Quebra uma minha que eu quebro duas suas”.

Marcado pela derrota

O Barbosa [1921-2000], goleiro da Seleção em 1950, nunca superou o trauma que foi aquela Copa. Fizemos a entrevista com ele, na Praia Grande [litoral sul de São Paulo], onde morava. Tinha uma vida humilde, era um sujeito simples, um cara agradabilíssimo para conversar. Mas, emocionalmente, parecia estar abaixo da linha da miséria. Era um homem destruído. Dava para perceber que havia algo que ficou pelo caminho. Quando aconteceu o segundo gol do Uruguai contra o Brasil, na final, a vida daquele homem parou. Os anos passaram e o Barbosa foi sobrevivendo. Fico me perguntando a razão de esse homem ter sido “escalado” pela história para assumir tanta culpa.

Política e preconceito

Um dos assuntos ainda pouco tratados pela imprensa e pelos meios esportivos é o preconceito no futebol. No Recados da bola, o tema ganhou relevância nos depoimentos do Djalma Santos [1929-] e do Didi, que conta que chegou a passar talco no rosto antes de entrar em campo para jogar pelo Fluminense.

Em termos políticos, o depoimento do Sócrates é o mais contundente. Conversamos em Ribeirão Preto, no Pinguim [o tradicional bar da cidade], acompanhados de chope e uma boa feijoada. O Sócrates se esforçou para ser um militante político no meio futebolístico, o que é um fato único. Ele inventou a Democracia Corintiana, fez os companheiros votarem em qualquer decisão. Diante disso, a imprensa ficou em pandarecos, sem saber como cobrir o fato.

Quando o Sócrates viu o Recados da bola finalizado, escreveu à Cosac Naify agradecendo por ter podido expressar livremente suas ideias.

Dunga e a Seleção

A maior crítica que faço ao Dunga é o que me parece ser um desconhecimento da parte dele em relação à história do futebol brasileiro. Pode ser que isso não se confirme, mas tudo indica que o Ganso [atacante do Santos, que não foi convocado para a Seleção de 2010] faz parte de uma linhagem que vem do Didi, por exemplo. Aquele jeito de jogar... São raríssimos os jogadores que tem a capacidade, a ousadia e a petulância de fazer o que ele fez contra o Grêmio de Porto Alegre [no primeiro jogo da final da Copa do Brasil de 2010]. O Didi diz: “procurei passar o bastão para o Gérson. Este, por sua vez, passou para o Rivellino, que foi o último dos moicanos do meio-campo”. Este tipo de movimento é barrado por um cara como o Dunga, que age pautado por aspectos burocráticos.

Para a Copa da África, na minha seleção haveria espaço para os três: Ganso, Neymar e Ronaldinho Gaúcho.

Outros tempos

Não sei dizer se antes as coisas eram melhores do que agora, mas eu gostava mais de como eram. A nostalgia que se sente está relacionada com a memória infantil, com as lembranças de menino, quando você está tentando entender o mundo. Lembro do meu deslumbramento ao entrar no Maracanã pela primeira vez – sou capaz de descrever em detalhes a partida. Era um amistoso entre Brasil e Alemanha, em 1965, quando ganhamos por 2 x 0, gols de Pelé e Flávio.

Para mim, o maior gol de todos os tempos foi feito pelo do Almir, o Pernambuquinho, na final do primeiro turno do campeonato carioca, em 1966, entre Flamengo e Bangu. Almir era o centroavante, o camisa 9 do Flamengo. A bola parou perto da linha do gol, num ponto enlameado, e ele botou a cara no chão e empurrou com a cabeça. Achei a cena absolutamente fantástica.