Ilustração
Desenho de Pierre Étaix para o romance Meu tio, inspirado no filme de Jacques Tati






Lançado em: fevereiro/2010
entrevista: Jean-Claude Carrière


A palavra e o tempo de Jean-Claude Carrière


Por Livia Deorsola

“Quando nós dois saíamos a passeio eu me espantava o tempo todo com o comportamento do meu tio, o desapego que ele tinha com as coisas mais sérias, ou que parecem assim, e a atenção que às vezes ele dedicava a um tijolo caído de um muro em ruínas; um tijolo desgastado pelas águas e pelo tempo.” Escrita por Jean-Claude Carrière, a cena sintetiza uma das principais características de tio Hulot, personagem criado por Jacques Tati (1907-1982) para as telas de cinema: um tipo gauche, doce e raro, deslocado de um mundo que, aparentemente, se modernizava.
 
No mesmo ano em que Meu tio foi lançado, em 1958, Carrière recriou a história no romance de mesmo nome, com ilustrações de Pierre Étaix. A intimidade com o processo criativo do amigo cineasta garantiu ao roteirista francês a capacidade de capturar com maestria as sutilezas do personagem, também protagonista de Na garupa do Meu tio, livro-imagem de David Merveille.

Indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado por A insustentável leveza do ser (direção de Philip Kaufman, 1988), Carrière trabalhou com os mais importantes criadores do cinema europeu. Com Luis Buñuel, para quem fez O discreto charme da burguesia (1972), a proximidade foi tamanha que o espanhol confiou a ele o trabalho de escrever sua biografia Meu último suspiro (1982).

Carrière conversou por e-mail com o Portal Cosac Naify sobre suas experiências cinematográficas, as amizades e a atual “parafernália tecnológica”, que o ajudou a se livrar da máquina de escrever. “O erro é pensar que a tecnologia irá nos dar ideias.”

*

Geralmente, filmes nascem de livros. Como foi a experiência de fazer o caminho inverso – transformar em livros os filmes de Jacques Tati?
Não foi uma escolha minha adaptar Meu tio. Um editor me propôs o trabalho, assim como aconteceu com As férias do sr. Hulot, que eu havia escrito antes. Eu era, então, um jovem autor de 25 anos e experimentei uma tentativa de “novelização”, com o uso da primeira pessoa nos dois casos. A proposta, de fato, não era fazer uma descrição dos filmes, uma mera transposição.

No filme, o humor decorre muitas vezes da ação pantomímica da interpretação de Tati. Como se pôde preservar a graça do filme no livro?  
O humor continua sendo garantido pelo personagem principal, mas, no livro, fica mais claro o olhar de outro personagem – a criança – e seu recuo no tempo, já que o livro foi escrito bem mais tarde do que o período retratado. Ou seja, o romance se passa quando o menino já é um adulto e se recorda dos tempos de infância.

Como o senhor vê a obra tantos anos depois? Que frescor ela ainda guarda?
Eu revi o filme recentemente, e faço isso sempre com prazer. De fato, o que parecia futurista antes, hoje beira o cotidiano. Mas a mensagem permanece.

Com Pierre Étaix, o senhor publicou Meu tio e As Férias do Sr. Hulot, além de projetos como do premiado curta-metragem Hereux Anniversaire. Poderia comentar sobre esta parceria?
Foi com Pierre Étaix – meu amigo até hoje – que eu comecei minha incursão pelo cinema. Ele era assistente de Jacques Tati, que não me encorajou a escrever roteiros, mas me abriu as portas para o cinema. Graças a ele e a Pierre, eu pude me familiarizar com as técnicas cinematográficas. Pierre Étaix é meu parceiro, diretor e amigo há cinquenta anos. O amor pela verdade cômica foi o que nos uniu imediatamente.

Em seus anos de convivência com dois dos mais importantes cineastas do século XX – Jacques Tati e Luis Buñuel –, o que aprendeu com cada um deles?
Recebi de Tati um apurado senso de observação. Com ele, tudo nasce da vida real. Buñuel foi um homem de imaginação, sem limites e sem pecados. Sempre inocente. Era como um músculo que se exercitava e se desenvolvia.

“Na sociedade moderna, há um lugar para cada homem, e cada homem no seu lugar!”, diz o pai de Gérard em determinada passagem do livro. Que sentido político ganha esta frase hoje em dia?
Essas são palavras pronunciadas por um homem de comando. Por sorte, os anos não lhe dão razão. Cada vez há mais e mais homens que não possuem seus lugares no mundo. Por isso o senhor Hulot é um herói ainda possível, mais do que nunca.

Vive-se, atualmente, um período de acentuadas mudanças, semelhante ao retratado em Meu tio. Há até mesmo quem anuncie o fim dos livros, que seriam substituídos pelos modernos leitores digitais. Você se sente confortável com a tecnologia e as novas mídias?
Eu não acredito que o e-book seja uma ameaça ao livro impresso. Pelo menos não da forma como estão propagando. Esta é uma tecnologia nova, que encontrará seu lugar em nosso acervo pessoal. Mas nada é mais efêmero que um uma tecnologia, sobretudo quando ela se afirma duradoura. Ainda podemos ler um livro do século XV, mas não podemos consultar um software antigo, de 125 anos atrás.

Quanto à parafernália tecnológica, ela não me incomoda nem um pouco. Faço muito uso dela (sofri muito na época da máquina de escrever portátil). O erro é pensar que a tecnologia irá nos dar ideias, embora a tecnologia em si já seja uma ideia.