O casal de ilustradores russos Olga Dugina e Andrej Dugin conversa com o Portal Cosac Naify sobre as simbologias presentes em seu trabalho
Por Érica GeorginoLogo no primeiro contato com a obra dos ilustradores
Olga Dugina e
Andrej Dugin, o leitor é fisgado pela percepção de que a fidelidade ao real e o onírico se unem para contar uma mesma história. Ele se vê diante de múltiplas possibilidades, uma festa para o olhar: primeiro, é imediatamente atraído pelas ilustrações; depois, passa para a leitura efetiva do texto.
Então, o retorno aos desenhos é inevitável, e a atenção concentra-se em todos os detalhes. Não será difícil o leitor se interessar, ainda, por ver o livro do início ao final, ou de trás para frente, repetidas vezes. Por fim, resta-lhe a certeza de que "descobriu" uma nova história - embora ela seja tão antiga quanto um conto da tradição oral alemã ou remonte à milenar cultura árabe, desvelada nas narrativas de Sherazade em suas mil e uma noites.
Nascidos em Moscou, mas há mais de vinte anos na Alemanha, onde vivem e trabalham, Olga e Andrej formam um casal com apreço pelos detalhes. Consagrados internacionalmente após ilustrarem um livro de Madonna (
The Adventures of Abdi; Callaway, 2004) e trabalharem na concepção artística do filme
Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (2004), Olga e Andrej repousaram lápis e pinceis para explicar nesta entrevista as simbologias presentes em
As penas do dragão, novo título da coleção
Os Mais Belos Contos. A obra retoma a tradição oral alemã e narra os desafios enfrentados por um pobre lenhador que, para se casar com a filha de um rico taberneiro, deve conseguir três penas de ouro do terrível dragão que habita a floresta.
*
Ao ler os livros ilustrados por vocês, percebe-se que as imagens formam uma história paralela à narrativa. Poderiam comentar este recurso? Andrej: Em geral, trabalho com a proposta de que os leitores possam "ler" a história sem necessariamente ler o texto. Quero que consigam acompanhar a narrativa apenas olhando as ilustrações.
Olga: Recebemos muitas cartas de crianças e adolescentes que tentavam explicar as figuras e símbolos presentes nas ilustrações. O mais interessante era que, a partir dessas reflexões, esses jovens criavam suas próprias histórias.
Andrej: Isso foi incrível: era exatamente o objetivo que queríamos alcançar. Em geral, as crianças não precisam de tantas explicações quanto os adultos. Por isso mesmo elas são capazes de interpretar com mais liberdade, o que é muito importante para seu desenvolvimento social e educacional.
As penas do dragão é um livro povoado por letras, castiçais, flautas, gnomos, além de figuras que misturam animais e objetos. Qual o papel destes símbolos nas ilustrações? Como eles interferem na narração da história? Andrej: Esporadicamente uso métodos de estilo empregados por artistas como o alemão Lucas Kranach (1472-1553), o pintor flamengo Pieter Bruegel (1525-1569) e outros do mesmo período. Na verdade, presto uma homenagem a eles quando adiciono suas iniciais aos meus desenhos, pois, ao estudar suas obras, adaptei algumas de suas técnicas e acabei desenvolvendo meu próprio estilo de ilustração.
Nas histórias mais antigas, o dragão representa os quatro elementos: fogo, água, ar e terra. Eu os inseri em várias passagens do livro porque eles simbolizam o ciclo da vida, que permeia toda a história de
As penas do dragão. Os quatro elementos estão no trecho em que o lenhador atravessa o rio para chegar ao castelo do dragão [água], no vento que move as árvores próximas ao rio [ar e terra], entre outras passagens.
Os castiçais não tem significado algum, assim como as flautas também não. Bom, mas você deve ter reparado, na última página, a figura de um homem carregando velas em seu chapéu. No passado os artistas faziam isso, para que conseguissem trabalhar quando estava escuro.
A casa do dragão é um trecho bastante importante do livro. O dragão é associado ao submundo; é conhecido por ser um cientista, ou algo como um alquimista. Por isso, ilustrei sua casa com certos detalhes que representam desordem e excentricidade, como a janela sobre o corrimão das escadas, ou como seus "instrumentos" de trabalho espalhados pela sala.
Pretendi que a "normalidade" fosse anulada no mundo tratado na história (de certa forma, poderíamos comparar esse recurso ao universo expresso em
Alice no País das Maravilhas). Costumo adicionar pequenos "detalhes" às ilustrações, com o intuito de que prendam a atenção do leitor.
Observando os três livros publicados pela Cosac Naify (O alfaiate valente, As mais belas histórias das Mil e uma Noites e As penas do dragão), é curioso notar que o traço de Olga muda bastante quando assina um trabalho sozinha. Olga, qual a diferença de trabalhar só e com Andrej? Como é o processo de ilustração quando feito em parceria? Olga: Quando fiz meus primeiros trabalhos com Andrej, ainda era estudante universitária. A experiência funcionou como um importante estágio de aprendizagem. Andrej trabalhou como meu professor - aliás, um professor muito severo. No início eu tinha permissão para fazer apenas pequenas intervenções, como ilustrar alguns detalhes ou colorir imagens. E assim aprendi um bocado.
Quando mais tarde fiz
As mais belas histórias das Mil e uma Noites, minha "obra-prima", trabalhei de forma completamente independente. Estava livre para concretizar o meu próprio estilo. Hoje, somos parceiros equivalentes e Andrej me pede conselhos quando trabalhamos juntos.
Por falar em As mais belas histórias das Mil e uma Noites, neste livro Sherazade assume a feição de um pássaro. O que isso revela sobre a personagem? Olga: Quando comecei minhas pesquisas para essa obra, estudei intensamente a mitologia árabe e mongol - culturas que predominavam na Pérsia quando essas histórias provavelmente surgiram. Então descobri que na mitologia árabe existe de uma criatura mítica caracterizada por ter o corpo de um pássaro e uma cabeça de ser humano. Reza a lenda que esta figura fica sentada em uma árvore e, quando alguém se senta debaixo dela e ouve o pássaro, descobre os mistérios da vida e do universo. Como Sherarazade é conhecida por sua sabedoria, achei que esta figura seria o símbolo perfeito para me servir como modelo no desenvolvimento da personagem.
+ GALERIA DE IMAGENS COM LUPAObserve em detalhes ilustrações da coleção Os Mais Belos Contos
+ SITE OFICIALConheça o
site oficial de Olga Dugina e Andrej Dugin