A casa azul



Ilustração






Lançado em: julho/2010
entrevista: Anne Herbauts


Entre as palavras, a imagem



Por Érica Georgino


A autora belga Anne Herbauts é reconhecida como um dos nomes mais importantes da nova geração da literatura infantojuvenil – prova disso são as duas menções honrosas na Feira do Livro de Bolonha, conquistadas em 1999 (Que fait la lune, la nuit?) e em 2010 (Ici Londres!). Aos 34 anos, já publicou mais de 20 títulos – traduzidos para idiomas como espanhol, italiano, holandês, alemão, coreano e japonês – cujo eixo central é o casamento das imagens com as palavras: Anne tece prosas como se fossem versos e oferece ao leitor um texto conciso, repleto de significados que dialogam com suas ilustrações.

A casa azul, sua estreia no Brasil, é exemplar deste estilo. No livro, Anne conta a história de Modesto, personagem que constrói uma casa entre o azul do céu e do mar. O sonho, a simplicidade, a busca por um lugar no mundo – eis alguns dos valores que permeiam as narrativas da autora. Mais que palavras, formas e cores, Anne burila sentimentos. “Tenho obstinação pelo vazio, o tempo e o branco”, diz nesta entrevista exclusiva ao Portal Cosac Naify.


*



Você se define como uma autora-ilustradora, artista que realiza uma colisão entre o texto e a imagem. Como ocorre este processo?
Desde o início de cada projeto, trabalho sempre o texto e a imagem juntos. Eles são indissociáveis – indissociáveis igualmente do livro visto como objeto. Não são apenas duas escritas que se correspondem, mas uma única escrita: o livro. Tudo faz sentido: as palavras, as imagens, as páginas, o formato.

Você abre A casa azul indicando que tudo é “uma questão de ponto de vista...”. Quais são os seus pontos de vista quando inicia um livro? O que te leva a escrever e ilustrar?
Acho que não se trata somente de desenrolar uma história que me interessa, mas, sobretudo, uma matéria, um pensamento. Por exemplo, Lundi [Segunda-feira] é uma história sobre o tempo, o tempo da vida, o tempo do livro, ou seja, a leitura. Conto o desaparecimento da personagem Lundi [representado pela perda da própria matéria do livro, pois as folhas diminuem de gramatura ao longo da narrativa] e, ao mesmo tempo em que fazem parte das minhas preocupações o cálculo do orçamento e até o tipo de papel empregado na obra. Tudo está ligado. Meu ponto de vista é, portanto, o livro, “do” livro. Tento escrever “no” livro e não apenas desenvolver a história em suas páginas. Tento traçar coisas indizíveis: entre as palavras, a imagem.

Você já disse que, a cada obra, refaz sempre o mesmo livro. Por quê?
Na verdade, não recomeço, eu persigo, para sempre tentar dar forma ao indizível. Entre um trabalho e outro escrevo outras coisas, pois o processo de escrita se passa entre as leituras. É uma obstinação em direção a um ponto que às vezes se retrai, e ao mesmo tempo se abre cada vez que nós nos aproximamos dele. Cada livro me permite avançar sobre minha questão do tempo, que retorna sem cessar, subjacente ou não, em meu trabalho de criação.

Quais são as suas referências literárias?
É muito difícil responder. Eu me alimento de diversos registros (romances, ensaios, discos, filmes) e dirijo as referências segundo minha sensibilidade. Não gosto de citar nomes de obras ou autores, pois isso restringe minhas leituras a algo muito fechado, concentrado em um livro ou dois. Não tenho um que seja o preferido. Com o tempo, talvez terei mais maturidade e distanciamento para dizer quais me servem de guias. Eu os deixo dispersos em minha memória, sem ordem ou classificação.

Seus textos são concisos, poéticos e cheios de significados. Como você chega a este resultado?
Gosto de textos curtos e tenho obstinação pelo vazio, o tempo e o branco. Os brancos são as palavras, a pontuação acentua o desenrolar das frases e as imagens também servem para marcar a cadência. O ritmo e a música das frases são muito importantes para mim. Adoro o jogo de sentidos. Procuro sempre ir fundo no significado de cada palavra antes de utilizá-la, o que me possibilita uma infinidade de sentidos e de extratos narrativos; fico até tonta ao pensar nisso. Meu trabalho é de empilhar, deslocar para escrever. Sempre construo meus livros com os pés firmes num caminho muito bem calculado.

Você se preocupa com os recursos utilizados em cada livro, já fez ilustrações no computador, transitou até pelo suporte audiovisual. Que peso tem esta versatilidade no seu trabalho?
Nunca abandono realmente o livro em seu formato tradicional. Mas avançar nas experiências texto-imagem é algo que me nutre bastante. Aprender uma língua estrangeira, por exemplo, nos faz olhar, escutar, entender nossa própria língua de um novo jeito, em profundidade. Ocorre mais ou menos o mesmo quando me confronto com outros suportes narrativos – eles permitem tomar distância, interrogar as “línguas” (cinematográficas, sonoras, quadrinhos...), as técnicas, dão a chance de me desestabilizar, me colocar em perigo com novas ferramentas para fugir do conforto de uma escrita muito acomodada.

Um dos temas de A casa azul é a busca por um lugar no mundo. De certa forma, isso o aproxima de Silencio [em breve lançado pela Cosac Naify], em que o personagem-título busca por um espaço, uma identidade. Como estas questões ocupam as suas reflexões? Qual foi o start para que realizasse os dois projetos?
“Fazer livros pode ser o meu jeito de ficar de pé diante do mundo.” Seria essa a minha resposta?


[Tradução: Flávia do Lago]