Rafael Moneo responde a 10 perguntas de arquitetos brasileiros
Por Livia Deorsola
Preocupado em discutir a cena atual da arquitetura, o espanhol Rafael Moneo, 71, ganhador do Prêmio Pritzker de 1996, reuniu ensaios sobre oito indispensáveis arquitetos contemporâneos no livro Inquietação teórica e estratégia projetual. Trata-se de uma compilação de aulas ministradas no início dos anos 1990 na Harvard Graduate School of Design – daí o tom coloquial e acessível a diversos tipos de leitores.
Moneo transita com enorme prestígio no meio universitário enquanto desenvolve projetos de vulto como o Museu de Arte Romana de Mérida (1986), o Museu de Arte e Arquitetura de Estocolmo (1995), a Estação de trem de Atocha de Madri (1992) e a ampliação do Museu do Prado (2007), também na capital espanhola. Admirador de Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, o espanhol aceitou responder a uma entrevista coletiva em que arquitetos brasileiros perguntam sobre suas análises contidas no livro e sua visão atual de alguns autores, além de sua idéia de arquitetura como arte, desde que nela haja “uma condição tal de autonomia e de vida própria”.
Andrade Morettin Arquitetos
1. Vinícius de Andrade: No início do livro o senhor afirma a importância de se prestar atenção aos arquitetos no cenário contemporâneo. Destacaria algum brasileiro? Como avalia a contribuição deste(s) no panorama atual?
Rafael Moneo: Lamentavelmente nunca estive no Brasil e não posso formar uma opinião sobre a arquitetura do país. Cada vez mais tem importância para mim o conhecimento direto da obra arquitetônica. Não gosto de julgá-la apenas partindo de fotografias. Naturalmente sei algo sobre os arquitetos brasileiros do século passado. Lucio Costa [1902-1998], Afonso Reidy [1909-1964], Lina Bo Bardi [1914-1992], Oscar Niemeyer etc. são arquitetos que sempre admirei.
Dos contemporâneos, conheço bem a obra de Paulo Mendes da Rocha e valorizo – e muito – sua coragem e independência. Isto é tudo que posso dizer. Lamento que seja uma resposta escassa. Talvez um dia, depois de conhecer o Brasil, possa estendê-la.
2. Marcelo Morettin: Ao apresentar o projeto de Aldo Rossi para o Centro Direzionale di Torino, o senhor o descreve como um projeto “radical”, que traduz certa devoção por sociedades com ideais solidários e comunitários. Diria que a vontade arquitetônica afastou-se do interesse “heróico” de contribuir para a formação de sociedades mais democráticas?
O primeiro Rossi foi, de fato, um arquiteto “radical”. Não poderia ser de outro modo: a influência do marxismo dos anos 1960, na Itália, foi imensa. A devoção pela arquitetura dos primeiros anos da Revolução Russa está presente nos primeiros anos de Rossi. Uma consulta ao que era a Casabella [revista de arquitetura, editada por Rossi no início dos anos 1960] de então confirmaria isso.
As coisas mudaram e, no fim de sua vida, a arquitetura de Rossi já não tinha nada a ver com aqueles primeiros projetos heróicos. Não acredito que, hoje, fazer da arquitetura a expressão de uma nova sociedade, revolucionária, esteja na agenda dos arquitetos que se consideram radicais. Infelizmente acredito que a arquitetura tenha perdido valor; valoriza-se menos o que com ela se pode fazer, ou o que pode chegar a expressar e ser. “Compram-se” as arquiteturas que se julgam de última moda, interessantes. Mas a sociedade contemporânea não valoriza a qualidade – no sentido mais amplo da palavra – do que se constrói, nem acredita que um novo mundo seria expresso por uma nova arquitetura.
Una Arquitetos
3. Cristiane Muniz: O senhor elege a produção de oito escritórios, com posturas projetuais que indicam muitos caminhos. Passados quase quinze anos dessa seleção, a produção arquitetônica, inclusive de alguns desses arquitetos, tomou rumos diferentes. Poderia citar exemplos de estratégias projetuais que se revelam hoje com o mesmo interesse?
Efetivamente, os quinze anos transcorridos desde que essas aulas foram dadas faz com que este possa ser considerado mais um livro de história da arquitetura contemporânea do que outra coisa. A escolha de nomes foi condicionada pela importância que os arquitetos incluídos tiveram nas escolas no último quarto de século. Nem todos cuja obra se comenta no livro proporcionam estratégias (o que entendemos por estratégias) para projetos hoje em dia. Sem dúvida, a arquitetura de Siza está ainda vigente e Eisenman segue atraindo estudantes, mas talvez somente Herzog & De Meuron e Rem Koolhaas sirvam ainda de modelo. Isso não quer dizer que o trabalho dos outros nomes citados não esteja presente de algum modo na arquitetura atual, e, na minha opinião, o reconhecimento das correntes encobertas que contribuem para a configuração de nosso trabalho sempre desperta interesse.
Mas não há dúvidas de que um livro que se proponha a repassar as orientações da arquitetura atual deveria incluir outros nomes e outras tendências. Para citar apenas dois exemplos, uma nova edição poderia incluir Kazuyo Sejima e Steven Holl.
4. Fábio Valentim: Jacques Herzog e Pierre de Meuron aparecem como jovens arquitetos promissores, uma aposta anos depois confirmada. Sua análise aponta a casa Rudin como um momento de inflexão da dupla: haveria um esgotamento da pesquisa da matéria, e uma aproximação de uma linguagem mais iconográfica, análise que parece bastante precisa, culminando talvez no estádio de Pequim. Mas a pesquisa matérica continua rendendo frutos – vide o vidro na loja Prada, entre outros exemplos. Como o senhor vê a produção recente de H&DM?
Um exame da obra antiga de Herzog & De Meuron permite, com efeito, entender bem o que fazem agora. Eles ainda perseguem – e com obstinação – uma contundência iconográfica. Por outro lado, suas plantas são mostras de uma sutileza pouco comum. Caberia, portanto, dizer que são dos poucos arquitetos que ainda trabalham servindo-se de instrumentos – plantas, secções – tradicionais. Fazem com que o computador não entre no processo de desenho desde o princípio do projeto. Para eles, o computador é a chance de explorar de que modo os sistemas de construção podem ser alterados e, portanto, incluídos no projeto. Seu interesse pelos materiais atualmente tem se deslocado ao estudo dos modos que podem ser manipulados com a ajuda do computador. Bastaria examinar todos seus últimos projetos para comprovar isso.
5. Fernanda Barbara: Ao falar de Álvaro Siza, no paralelo traçado com a poesia de Fernando Pessoa, o senhor associa a produção por heterônimos do poeta à recusa da “originalidade” como premissa de projeto na obra do arquiteto, ou a recusa dessa originalidade à recusa da marca autoral. Passada mais de uma década de sua análise e de uma enorme produção do arquiteto, chegou a questionar a idéia da “renuncia da expressão pessoal” ou de algo que “pode-se chegar a pensar que foi produzido sem arquiteto”?
Como está dito, a enorme produção do arquiteto só se explica a partir da confiança que se tem em uma linguagem universal, que, como se sabe, pode ser de utilidade em qualquer que seja o programa. E, desta maneira, haveria que considerar como valiosa contribuição de Siza o desenvolvimento de tal linguagem, cujas fontes se conhecem – o movimento moderno –, mas ao que Siza deu um viés próprio. A linguagem, portanto, seria a “marca de autor”. A originalidade está no manejo que o arquiteto faz de tal linguagem. Manejo que lhe permite reconhecer a singularidade tanto de programas como de lugares, nos oferecendo sempre inesperadas respostas aos problemas que uns e outros apresentam.
Núcleo de Arquitetura
6. Luciano Margotto: A questão da obra de arte é recorrente em suas leituras de cada um dos oito arquitetos. Por exemplo, Gehry aspiraria a uma arquitetura que pode ser considerada obra de arte. Sobre Siza, conclui ser ele um arquiteto que pretende mostrar a presença da poesia na construção. A seu ver, o quê confere a uma obra de arquitetura o estatuto de obra de arte?
É muito difícil responder a esta pergunta. Exacerbar o singular talvez pudesse ser um dos critérios para fazer com que uma obra de arquitetura perdesse tal condição e se convertesse em uma obra de arte. No caso de Gehry, a mudança de escala que introduziram alguns artistas “pop” – [Claes] Oldenburg, entre outros – lhe serviu de referência para reforçar a condição de objeto de suas arquiteturas, que se aproximam assim ao mundo formal sugerido por tais artistas. Preferiria, entretanto, falar de obra de arte na arquitetura associando-a à qualidade, a uma condição tal de autonomia, de vida própria, que reclamaria dos demais sua permanência, sua conservação, como ocorre com as obras de arte. A condição poética da melhor arquitetura de Siza talvez se encontre em algo distinto: em sua capacidade de explicitar uma relação entre as coisas, para não dizer entre as formas, de forma iluminadora e inesperada.
Projeto Paulista
7. Luis Mauro Freire e Maria do Carmo Vilariño: Atualmente, no Brasil, é cada vez mais comum o ensino da arquitetura ser realizado por pessoas distantes da prática profissional. Como o senhor, que tem uma atuação reconhecida e premiada nos dois campos, vê a questão?
Acredito que quem se sente atraído pela arquitetura também quer fazê-la. Entendo que dedicar a vida a isso e não construir gera frustração. Daí que, para mim, tenha sentido que prática profissional e educação não sejam vistas como opostos, como termos antagônicos de compreender a arquitetura. Inclusive campos que podem parecer tão específicos, como História da arquitetura, dão condições aos que se dedicam a eles – os historiadores – que se sintam inclinados ao exercício profissional e, quando isso não acontece, me pareceu ver neles um certo lamento.
Roberto Conduru
8. Como o senhor entende o papel das mídias eletrônicas no processo arquitetônico contemporâneo?
Sem dúvida as mídias eletrônicas já estão desempenhando um papel importantíssimo na educação do arquiteto, na prática profissional e na produção da arquitetura. Na educação do arquiteto, porque mudou muito a percepção do mundo e as técnicas para representá-lo, assim como o acesso ao conhecimento; na prática profissional, porque se alteraram completamente os critérios de projeto e o modo como este é recebido pelas pessoas. Talvez seja no terreno da produção da arquitetura onde o computador não esteja ainda tão presente como estará no futuro próximo.
9. Em que medida acredita que seu trabalho contribui para a revisão do sentido de tradição em arquitetura?
Entendo que apesar do muito que as coisas mudaram nos últimos anos é preciso reconhecer o quanto a presença do passado gravita sobre nós. Por um lado, pelo que tem sido a evolução e o desenvolvimento da arquitetura no tempo. Por outro, porque o mundo que recebemos é um mundo feito, que deve ser levado em conta. O mundo do construído tem um valor em si mesmo e reconhecê-lo é obrigatório. Gostaria que víssemos esta continuidade não como uma obrigação – uma restrição –, e sim como algo que assumimos com gosto e proveito.
Guilherme Wisnik
10. Considerando que são Frank Gehry e Rem Koolhaas os arquitetos que partem do “programa”, em que termos tal noção difere nos dois casos?
Creio que Gehry e Koolhaas partem da ideia de programa de formas muito distintas. Ambos quiseram ver-se como arquitetos “pragmáticos”, não como “acadêmicos”. Gehry queria que o víssemos como alguém que, servindo-se do sentido comum, tenha chegado a “destroçar” a ideia do edifício orgânico e estruturado, oferecendo-nos um novo modo de entender a construção, modo que não deveria nos surpreender e que tem toda a frescura, imediatez e bom sentido de quem vê as coisas sem preconceitos. O caso de Koolhaas é um pouco diferente. Sem dúvida é um intelectual, capaz de propor agudas percepções dos problemas que tem a arquitetura desde a sociologia. As soluções que procedem da “academia” – discussões linguísticas, por exemplo – não interessam a ele. Em contrapartida, ele oferece desde edifícios capazes de dar respostas com formas sintéticas – que nos levariam a falar, inclusive, em iconografia – aos complexos problemas que hoje implica a construção.
Inquietação teórica e estratégia projetual na obra de oito arquitetos contemporâneos: James Stirling, Robert Venturi & Denise Scott Brown, Aldo Rossi, Peter Eisenman, Álvaro Siza, Frank O. Gehry, Rem Koolhaas e Herzog & De Meuron.