Em Era uma vez uma capa, mais de 400 livros são comentados. Como e em quanto tempo a pesquisa foi desenvolvida? Quais as principais fontes que consultou?Poderíamos dizer que foi a experiência de toda uma vida reunida em livros infantis. Tive a sorte de ser criado em uma família que, nas décadas de 50 e 60, possuía uma boa coleção de livros, novos e antigos. Já estudante, organizei uma exposição sobre o trabalho de Quentin Blake, e assim redescobri os livros infantis. Mais tarde tive dois filhos, e isso foi uma oportunidade para descobrir e coletar uma outra geração de títulos. Organizei uma nova exposição, chamada Houses in Children´s Book ("As casas nos livros infantis"), em 1998, o que me levou a explorar a literatura crítica sobre o assunto.
A quantidade de títulos apresentada é impressionante. Você contou com a colaboração de outras pessoas para chegar a este número?Tivemos a sorte de poder desenhar, em uma única coleção, cerca de 70% do conteúdo do livro. Isso envolveu uma sessão de fotos na casa de um grande colecionador, que se manteve bem humorado diante do incômodo gerado pela minha busca. Ao mesmo tempo, aprendi muito com ele.
Além disso, usamos algumas imagens da Osborne Collection of Children's Books, guardada pela Toronto Public Library [Biblioteca Pública de Toronto, Canadá]. Também por sorte, fui convidado a dar uma conferência em Toronto, durante o período da pesquisa.
Os livreiros foram outra fonte para minhas pesquisas. Estávamos trabalhando no livro quando eles começaram a negociar,
online, seus estoques, e puderam nos enviar scaners dos títulos que queríamos. Houve uma ótima pesquisadora de fotografias trabalhando no projeto, Emma O'Neill.
Quanto às imagens, quais as maiores dificuldades que enfrentou para consegui-las? Afinal, o senhor deve ter se deparado com livros em estado de pouquíssima conservação.Felizmente, fotografias de capas podem mascarar defeitos nas encadernações dos livros, que é o problema mais comum. O difícil foi encontrar cópias com capas em boas condições de conservação, já que as bibliotecas públicas normalmente as jogam fora. Mas trabalhando com colecionadores e livreiros, não tivemos muitas dificuldades nessa área.
O senhor recupera informações biográficas de autores, ilustradores e editores, detalhes que ajudam a entender o contexto da produção dos livros infantis em cada época. Como foi esta empreitada? Há uma fonte impressa utilíssima chamada
Gale's Contemporary Authors, que consultei na British Library, e que possui detalhes de milhares de autores e ilustradores. Tentei ler o maior número possível de livros. Às vezes os textos são curtos, o que ajuda. A história da publicação é mais difícil de desvendar, mas para isso me vali de uma profícua coleção de anuários. Meu trabalho se deu antes do crescimento do Wikipédia, então tendo a confiar mais em fontes manuscritas.
Em diversas ocasiões, o senhor lamenta a perda das sobrecapas, descartadas propositalmente, ou simplesmente perdidas. Qual era a função deste elemento e como nota a função dele hoje?A função da capa tem sido a mesma por muitos anos. Com exceção dos livros de capa do tipo brochura e algumas poucas edições especiais, com encadernações luxuosas, as capas continuam sendo a primeira ponte para o leitor, fornecendo uma visão instantânea do gênero e do conteúdo do livro. Desde que escrevi
By two books on book covers, entre 2001 e 2003, parece ter havido um crescimento constante do interesse pelo assunto, então imagino que as pessoas estão mais conscientes agora de sua importância.
A historicidade é, nitidamente, uma de suas preocupações neste estudo, com a recuperação de fatos políticos e econômicos que influenciaram as condições de produção editorial. O que estes dados revelaram? Houve dois ou três momentos distintos em que a publicação de livros infantis refletia condições políticas e econômicas. O primeiro foi na década de 1890, quando a reprodução mecânica de fotografia em cores tornou-se possível, permitindo que as aquarelas de Beatrix Potter pudessem ser reproduzidas a partir dos originais.
O segundo momento - na década de 1930 - houve a moda da autolitografia, que teve conotações políticas de esquerda, parcialmente em função do modo como foi usada na Revolução Russa para a produção de livros baratos, distribuídos gratuitamente nas ruas. Eu sinto por não ter tratado sobre esse assunto em meu livro, mas nenhuma crítica apontou essa omissão até agora.
Finalmente, na década de 1960, temos a chegada da fotolitografia em cores, o que continua sendo a forma dominante de impressão. Isso torna a vida mais fácil para o artista, mas o resultado fica mais à mercê da maquinaria, o que causa, por exemplo, erro na impressão das cores. Desta maneira, há menos controle por parte do artista.
A xilogravura, técnica usada nos chapbooks, depois em decadência na virada do século XX, foi mais tarde retomada, e ainda hoje vigora. O senhor tem acompanhado as produções atuais e as inovações nelas utilizadas? Há algo que lhe chame a atenção?Para os livros infantis, o restabelecimento da xilogravura tem sido sempre uma área um tanto especializada de ilustração. Nos anos recentes, dois artistas que costumam usar essa técnica são Jonathan Heale e Chris Brown, ambos na Inglaterra. Chris fez dois livros encantadores, de edições limitadas, com o autor Holly Skeet, um deles é
Circus Minimus, publicados por Hánd & Eye Press em 2007, uma história escrita sobre as ilustrações.
Um dos recentes lançamentos da Cosac Naify, Na noite escura, do designer italiano Bruno Munari, teve sua primeira edição em 1956 e até hoje é citado como inovador na forma de "experimentar" um livro. Quais as principais qualidades que fazem um livro infantil manter vivo o interesse ao longo do tempo?Esta é uma pergunta interessante. Acredito que alguns livros consagram-se como clássicos por meio da combinação entre postura crítica e conteúdo atrativo (fatores que raramente coincidem).
No entanto, os editores têm um papel, e eles podem ter várias estratégias, não necessariamente comerciais. Eles podem ter uma afeição pessoal por um autor e por um ilustrador, e acreditar que eles acrescentam diferença e identidade ao seu rol de obras. Os livros ganham um grande "reforço" quando permanecem no mercado, e a década de 1950 possui um design elegante. Então por que não aplicar isso também nos livros infantis? Tenho visto reaparecerem alguns dos livros que tive quando criança, como as séries de Miroslav Sasek.