A estilista brasileira assina a tradução de Diferente como Chanel, livro infanto-juvenil que conta a trajetória da criadora francesa
Elegância, praticidade, conforto. Esses são conceitos que podem se aplicar igualmente a duas criadoras de diferentes épocas e diferentes países, mas que fizeram de seus estilos signos da mulher moderna, independente e sempre na moda. Estamos falando de um dos maiores ícones de comportamento do século XX, a francesa Coco Chanel (1883-1971), e da brasileira Clô Orozco, fundadora da marca Huis Clos, conhecida pela perfeição das linhas e pelo requinte.
É Clô quem traz ao português a história de vida da estilista francesa, contada por Elizabeth Matthews no livro Diferente como Chanel (2009), pequena biografia graciosamente ilustrada sobre aquela que segue sendo parâmetro de moda até hoje. (A Cosac Naify já publicara, em 2007, A era Chanel, uma detalhada biografia escrita por Edmonde Charles-Roux, com tradução de Paulo Neves).
Confira, abaixo, cinco perguntas respondidas pela brasileira sobre Coco Chanel.
O que mais te surpreende na personalidade e na trajetória de Chanel?
A determinação da sua personalidade, a segurança que ela tinha em si mesma e no seu estilo. Na época em que Chanel começou a costurar, revolucionar o modo de vestir feminino foi uma atitude totalmente vanguardista.
Qual a maior contribuição que Chanel deu às mulheres e que tem valor até os dias de hoje?
A liberdade de não se espelhar nos ícones fashion da época e a ousadia de criar uma roupa confortável: calças amplas com pregas (pantalonas) com camisetas coladas ao corpo, cardigãs largos, usados em cima de calças mais justas ou saia, ou ainda como vestido. Também destacaria o tailler Chanel, um clássico, assim como a ênfase que ela dava aos acessórios, que viraram ícones - nenhuma mulher que gosta de se vestir bem prescinde de assessórios.
Há alguma lição específica que tomou emprestada da estilista francesa?
Há duas lições suas que segui intuitivamente desde as minhas primeiras coleções. A primeira: não me preocupar em ser sexy. Chanel dizia "que a sensualidade está no gesto, e não na roupa". Sempre olhei pelo equilíbrio, pela proporção, preocupada com o rigor do estilo, e não com a necessidade de a roupa ter um decote para ser sensual. A outra grande lição foi criar peças que eu pessoalmente usaria, ou teria desejo de usar. Trazer meu estilo pessoal à minha marca me ajudou a criar uma personalidade, de modo que é muito fácil identificá-la. Até hoje só aprovo uma roupa frente à pergunta "eu usaria"? Mesmo quando a peça é pensada para uma outra faixa etária, por exemplo, eu me pergunto: se eu fosse jovem, gostaria de me vestir assim?
O estilo Chanel é copiado no mundo inteiro. No universo da moda, qual o lugar da originalidade? Este aspecto é o mais importante, ou revisitar os clássicos é fundamental?
O estilo Chanel se tornou um clássico, é quase como ter caído em domínio público. Atualmente, todos os estilistas, como Marc Jacobs ou Alber Elbaz, por exemplo, trazem em suas coleções uma homenagem à Chanel, sejam debruns bordados, franjados, com correntes, zíperes. Eu também já fiz isso muitas vezes, ou seja, o mesmo bordado de um vestido de festa foi usado num cardigã de tricô ou numa veste. São peças que nunca saem do meu armário.
Hoje, no mundo da moda, a originalidade se reveste dos diversos estilos usados com liberdade pelas mulheres, com escolhas que refletem sua personalidade. Mesmo que o excesso de conceito não esteja tão na moda como no final dos 1980, começo dos 1990, há aquelas que não abrem mão disso; do contrário estilistas como Yojhi Yamamoto ou Rei Kawakubo não teriam mais espaço. Por falar em Yojhi, ele mesmo já fez uma coleção interpretando lindamente Chanel. E é preciso dizer que a moda sempre voltará aos clássicos, não há outra alternativa. A diferença é que tudo será renovado, com uma cara contemporânea, adaptada a novos gestos, necessidades e desejos.
Acredita que nos dias de hoje ainda há espaço para uma revolução na moda como a empreendida por Chanel?
Não. Se fosse possível, já teria acontecido. A liberdade que se conquistou se tornou o resultado dessa revolução.