O que a levou a contar uma história sem palavras sobre a descoberta do mar por uma menina?
Sempre que visito o mar, em qualquer lugar do mundo, vejo adultos e crianças se divertindo enquanto brincam com as ondas, sem distinção entre eles. Sempre tive o desejo de fazer um livro sobre este prazer universal, e quis mostrar tal encantamento através de imagens poderosas, que dizem mais que palavras.
No decorrer da história, as gaivotas são fiéis companheiras e vivenciam de perto cada movimento da menina. Em que medida esses personagens ajudaram a compor o cenário que você imaginou?
Ao considerar Onda como um livro-imagem, precisei de uma espécie de ajudante para mostrar a variação das emoções vivenciadas pela garotinha. As gaivotas funcionam como um coro grego, ou um insight, um resumo das informações para ajudar o leitor a seguir a performance, o que seria análogo a uma peça grega. As aves são, portanto, um extra, mas elas fazem a história ser mais divertida porque celebram a camaradagem.
A divisão física do livro destaca dois planos narrativos: de um lado da página, a segurança da terra firme; de outro, o mar e seus mistérios. Como chegou a esta solução?
Duas páginas distintas representam também mundos de realidades e fantasias diferentes. Quando a menina cruza a divisão do livro, ela é absorvida para o centro físico do objeto e então emerge dele como uma Alice quando sai do espelho (em Alice no país do espelho). A dobra entre as duas páginas do livro é um dos temas que me interessam. Além disso, Onda é um tipo de sequência do meu livro anterior, Espelho [Edizioni Coraini, 2003], no qual abordei o mesmo assunto: nele, a menina acha seu amigo refletido na página dupla.
As cores também são indicadoras da mudança de momentos narrativos – justamente após o “banho” inesperado que a menininha leva da onda, o azul inunda a outra página e imprime seu tom celeste inclusive em seu vestido. Poderia comentar esta opção por trabalhar com poucas e intensas cores?
Apenas com um tom de azul, além do cinza e do branco, acredito que os leitores podem entender que a história de Onda acontece em um dia claro e ensolarado de praia, de um azul vibrante. Não acredito que uma imagem realista precise de muitas “cores realistas”. A cena real está dentro da mente dos leitores, e o uso de poucas cores pode fazer com que sua memória seja reavivada.
Em Onda você utilizou carvão. Com quais técnicas costuma trabalhar? Poderia comentar um pouco sobre seus recursos e preferências como artista plástica?
O material artístico que escolho segue o tema. O que será desenhado define qual material vou usar. Para Onda, precisava de algo com que eu pudesse expressar a dinâmica de movimentos da menina. Eu adoro usar carvão porque ele oferece duas qualidades contrárias – linhas volumosas e acentuadas, além de firmes e dinâmicas.
Onda ainda ilustra as diversas etapas da relação que se estabelece, aos poucos, com o mar: curiosidade, desconfiança, enfrentamento, desapontamento, susto, desdém, contentamento, confiança. Essas foram sensações que influenciaram seu trabalho?
Todas estas percepções são aspectos dos quais precisamos para seguir adiante na conquista de um amigo. Aqui, a menina experimenta e se diverte a cada passo, sem hesitação ou medo. Por esta razão ela se diverte completamente e obtém uma recompensa: a amizade com a natureza.
Como foi sua primeira experiência com o mar? Recorreu a lembranças de sua infância para criar Onda? Costuma frequentar a praia (alguma em particular)?
Eu cresci em uma cidade longe do oceano, mas todo verão costumava ir para Manlipo, na costa oeste da Coreia do Sul, onde ficava a casa de verão dos meus avós. Quando criança, eu amava brincar no mar até ficar totalmente exausta. Com essas lembranças tão bonitas e vivas, acredito que qualquer um que já esteve em uma praia se entretém com o livro – especialmente os leitores brasileiros, que sabem bem como se divertir em uma linda praia.
O primeiro encontro com o mar parece ser uma experiência em que estão em jogo o enfrentamento e a superação do medo do desconhecido. O que isso representa para você?
Algo pode se tornar muito interessante quando não é totalmente revelado, quando guarda um mistério, porque assim você pode dar asas à sua imaginação. Curiosidade é a chave para se chegar a alguma resposta – crianças curiosas são exatamente as mais corajosas, porque querem descobrir a verdade da vida.
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