Vidas novas


Foto: Cosac Naify

Ilustração
Ingo Schulze






Lançado em: dezembro/2009
entrevista: Ingo Schulze


Ingo Schulze transforma vestígios em literatura




Por trás de uma sofisticada teia narrativa – um romance epistolar, cujas cartas a três remetentes diferentes ganham, na ficção, a edição crítica e comentada de um organizador de nome Ingo Schulze – está a história de um mundo que desapareceu sem deixar rastros. A queda do muro de Berlim e tudo o que, então, submergiu foi registrado em Vidas novas (tradução e notas de Marcelo Backes), romance considerado a obra-prima do autor por ser também o depoimento impiedoso sobre a travessia de um sujeito pelo turbilhão histórico. Como o próprio Schulze.

Na trama, o personagem principal Enrico Türmer abandona seus sonhos literários para fundar um império jornalístico sob orientação do consultor Clemens von Barrista, Mefistófeles fáustico que cheira a enxofre e está “em toda parte e em lugar nenhum”.

Nascido em Dresden, em 1962, Schulze reafirma, na breve entrevista a seguir, a ideia de que a chamada Reunificação alemã não foi nada mais do que a incorporação do lado oriental pelo lado ocidental, além de comentar as relações entre realidade e literatura e como sua experiência pessoal serviu de matéria literária na criação do universo do livro.


*

Vidas novas trata de mudanças no cotidiano e na política da RDA. Passados 20 anos da queda do muro, pode-se dizer que há realmente uma unidade? Em que sentido?

Infelizmente, não houve nenhuma reunificação na Alemanha, mas apenas uma adesão da RDA à RFA. A velha República Federativa ampliou-se para o leste, sem modificar-se. Vidas novas tenta descrever a mudança de dependência que aconteceu na parte oriental da Alemanha, nos anos 1989/90. Mas a literatura dificilmente deixa-se fixar a um tema. Em última análise, isso é sempre uma tentativa de recontar as velhas histórias de amor e morte, de Fausto e do demônio, de sorte e azar, e englobar as experiências de meu próprio tempo. Naturalmente há analogias com processos do mundo todo e meu colega e tradutor Marcelo Backes chamou a atenção para as múltiplas relações. Mas quando um livro me agrada como leitor, tenho a impressão de que o discurso é meu. Espero que, aqui no Brasil, a sensação transmitida por Vidas novas seja a mesma.

O livro mostra muitas peculiaridades da vida cotidiana da RDA. Também é uma possibilidade para que os mais jovens conheçam o que já não existe mais e não se equivoquem com os acontecimentos do passado?

Nos últimos meses, nas comemorações dos 20 anos da queda do muro, notei que há uma verdadeira luta pelas memórias. Pois quem dispõe da imagem que temos do passado, dispõe também do presente. Meu problema não é o desaparecimento do oriente, mas o desaparecimento do ocidente; trata-se sempre de nossa época. A cada nova experiência, eu olho para o passado. Estou muito feliz que a RDA, da mesma forma que um dia existiu, não exista mais. Mas, muito frequentemente, a crítica ao passado é indevidamente utilizada para elevar o próprio presente. E, naturalmente, isso também é uma farsa. A sociedade alemã se polariza cada vez mais, a dívida cresce dramaticamente e a política é uma não-política; os políticos ainda querem ser apenas administradores e falar sobre crescimento, como se daí pudessem vir as respostas para nossos problemas. Eu vi como o governo da RDA era incapaz de perceber a realidade. Agora eu posso ver isso novamente, mas de outra maneira.

Quase todas as aventuras de Enrico Türmer, personagem principal de Vidas novas, são evidentemente autobiográficas. Como escritor, você acredita que se pode narrar literariamente sem se voltar para experiências pessoais ou históricas?

As fases da vida de Enrico Türmer correspondem às minhas próprias. Para mim, é importante que seja assim, porque quando escrevo sobre um determinado lugar e um determinado tempo, quero ser altamente preciso. Mas a perspectiva por meio da qual Enrico vê o mundo é completamente outra. Ele queria viver na RDA, sofrer, e então escrever sobre o sofrimento, com o objetivo de um dia ir ao lado ocidental, e lá ser um dissidente. Como o oriente começa a se tornar inseguro e sucumbe, seu plano falha. E somente com a ajuda de um homem, que cheira a enxofre, ele se reergue e se transforma em um bem sucedido homem de negócios. Precisa-se naturalmente de experiência para narrar isso, mas o mais importante é a descoberta, senão tem-se apenas a noção abstrata, mas não concreta do que se passa ao redor.


[Tradução: Carolina Domladovac Silva]



+ NO BLOG DA COSAC NAIFY
“Soterrados pelo muro”
“De que jeito o lado ocidental chegou à minha cabeça” [trecho de Vidas novas]


+ ENTREVISTA
O refinamento da simplicidade: o que há por trás da prosa de Ingo Schulze,
por Livia Deorsola [junho/ 2008]