Você, que já ilustrou dezenas de livros, levou bastante tempo para produzir seu primeiro livro-imagem. Por quê?Gosto muito da palavra e tenho um prazer muito grande de tentar fazer uma imbricação com a imagem. Eu adoro livros-imagem, mas os meus trabalhos não saem como projetos pré-definidos, não consigo parar e pensar “agora eu vou fazer algo deste ou daquele jeito”. Se pensar assim, aí é que o projeto não sai mesmo. Talvez
O presente tenha saído naturalmente, porque acho que o livro-imagem acontece quando, em algum momento, o autor percebe: “Ih, fiz tudo com desenho, esqueci da palavra”. Este processo tem o mesmo movimento da escrita. Aliás, é preciso lembrar a todo momento o caráter de escrita que existe na ilustração.
Como você desenvolve esse potencial da escrita na ilustração?Às vezes a gente acha que imagem e palavra são dois universos opostos, mas se pensarmos que a origem da escrita remonta à caverna, e que o mesmo ocorre com a história da pintura, então vemos que a escrita e o desenho não são oposições, na verdade são primos. Em sua evolução, a escrita foi abandonando o caráter ideográfico do desenho. Para falar “touro”, desenhava-se um touro. O modelo foi se abrindo para poder construir coisas mais abstratas, que não representassem a realidade, mas um verbo, ou qualquer coisa nova. Então, chegou-se à representação fonética: um símbolo que não quer dizer nada, não é um ideograma, é apenas símbolo.
Quando você aprende a escrever, a tendência é esquecer que aquilo que se chama letra é um desenho e, por mais que não represente nada, não deixa de ser um desenho. Eu acho que os poetas concretos, e mesmo artistas como
Mira Schendel, abordam a letra como desenho, ou seja, pode ser usada visualmente. Com o ilustrador, pode ocorrer o inverso: você redescobre que o desenho é também uma escrita.
Como ocorreu a construção da história do livro? Pensei em datas que marcam as pessoas. Por exemplo, em todo Natal você se lembra no do ano passado, e pensa em como será o próximo... E com a Copa do Mundo ocorre algo semelhante. Há mais ou menos dois anos, quando comecei a fazer o livro, me vi refletindo sobre isso, e pensei no meu filho João, que hoje tem quatro anos. Talvez a próxima Copa seja a primeira que o meu filho irá lembrar.
A partir disso, me veio à cabeça a primeira Copa que assisti com atenção. Foi a de 1974, eu morava no interior e meu pai me levou pra ver uma partida na casa de um amigo, o primeiro cara que tinha televisão em cores na cidade. O que mais me lembro é que ninguém conseguia assistir direito ao jogo porque a TV era mal regulada e só víamos uma coisinha amarela passando para lá e para cá, uma mancha amarela que eram as camisas da seleção.
Isso influenciou sua forma de ilustrar o livro? Essa cena faz parte do livro, mas isso não foi planejado. Eu fiz os desenhos primeiro a lápis, e só coloquei cor porque achei que, no primeiro momento, o leitor não fosse entender que lá estava uma camisa da seleção. E isso era importante para a história, por causa da identidade com as Copas.
Tempos mais tarde, me lembrei do desenho que fiz de uma amiga com sua filha durante uma visita ao meu estúdio. Era um desenho azul. Foi um estalo, pois inicialmente eu tinha pensado no livro todo colorido de aquarela. Foi um fluxo de ideias, pensei: Azul e amarelo misturados viram verde, então posso usar duas cores, mas na verdade ter um livro com três cores. Isso tem uma simplicidade que me agrada. Então, em conversa com a editora, pensamos em como passar todos os traços do lápis para o azul. Foi um trabalhão.
Por tudo isso, digo que
O presente nasceu numa tarde, fruto da distração. Produzo muito mais a partir de distrações do que concentrações. Exatamente quando estou travado e vou tomar um café, ou andar, é que me surgem as ideias. É como se eu me abrisse de propósito e pensasse: é melhor deixar alguma coisa entrar. Mas o livro não é sobre futebol, de forma alguma, e nem sobre a minha história com o Wilson Vicentini, amigo a quem dedico o livro. É uma mistura dessas distrações.
Ele também tem a ver com tantos acasos?Havia uma série de eventos que pairavam no ar. A partir da Copa de 74, em que o Brasil inteiro se frustrou, me lembrei de outro evento frustrante, com a Copa de 82. Tive uma recordação nítida na cabeça: eu sentado, muito triste, quando o Wilson passou em casa e me levou. Queria que nos distraíssemos.
Fomos jogar vôlei, o esporte que ele havia me ensinado na adolescência, em São Carlos [interior de São Paulo]. Foi um momento em que tudo o que eu havia segurado dentro de mim, toda minha torcida e frustração, tudo foi liberado no jogo – e foi muito bom. Aliás, eu não sou um grande torcedor, na verdade sempre me realizei jogando. Acompanho os campeonatos apenas nesses momentos de comunhão – nas finais, copas e ocasiões deste tipo.
Lembrei desse amigo na tarde em que fiz o livro. Ele havia falecido um mês antes e seu velório reuniu os amigos da época – eu, Dedé, Nando, outros mais. Acho que esse momento estava muito latente na minha cabeça e, de alguma maneira, quando pensei na Copa do Mundo perdida, me veio à memória o Wilson. Eu poderia tê-lo dedicado a qualquer outro amigo da turma, mas ele era o nosso cara do esporte, foi ele que me tirou de um grande momento de tristeza. Embora ele fosse um jogador de vôlei, digo que ele me botou diversas vezes na boca da área, na cara do gol.