A princesinha medrosa










Lançado em: janeiro/2009
entrevista: Odilon Moraes


Entre o texto e a ilustração, um autor completo


Por Livia Deorsola

Premiado por seus trabalhos como ilustrador, Odilon Moraes encontrou o mesmo reconhecimento na autoria de texto. Dos muitos livros que guarda na gaveta, dois deles se concretizaram: Pedro e Lua (Melhor Livro pela FNLIJ 2005) e A princesinha medrosa, que a Cosac Naify lançou em renovada edição, em 2009. Completamente reformulada, a obra tem dimensões maiores e ganhou nova capa, além de uma sequência de imagens nas primeiras páginas, onde se inicia a descoberta de que “compartilhar o medo é compartilhar a vida”, como nos conta o autor nesta entrevista realizada em seu ateliê, em meio a aquarelas, tintas e muitos livros.

Odilon também fala de seu processo criativo em que não cabem “destinatários pré-estabelecidos”, da coordenação da coleção Dedinho de Prosa e da literatura infantil como lugar que acolheu experiências poéticas extraídas da relação da palavra com a imagem.


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A princesinha medrosa trata, entre outras coisas, dos diversos temores infantis. Mas o medo é um sentimento presente em todas as idades. O que te inspirou a falar sobre o assunto?
Este é um livro que foi escrito aos poucos, com uma frase aqui, outra ali, mas cujo parto foi instantâneo. A história trata de um medo de estar vivo e a única coisa que se pode fazer com esse sentimento é compartilhá-lo. Compartilhar o medo é compartilhar a vida. É isso que se passa com a personagem. Tudo na princesa é uma tentativa de se agarrar a alguma coisa – a coroa é uma delas, e isto está explícito apenas na imagem. Ela busca um lugar onde possa simplesmente estar. E quando se depara com o novo amigo, consegue então entrar no lago, que é a representação do desconhecido, da profundidade das coisas. E nesse momento, pensei: “tudo bem que ela tenha medo do fundo do lago, porque eu também tenho, todo mundo tem”.



Este foi seu primeiro livro como autor de texto e de imagens. Para a elaboração de um e de outro, são necessários procedimentos criativos muito diversos?
A ilustração de livros é como um gênero à parte, porque é uma espécie de escrita, já que possui incrível força narrativa. Neste sentido, me vejo como escritor na medida em que se considera a capacidade da ilustração de criar uma história. Isso coloca o ilustrador inteiramente no universo da literatura. Como autor de desenhos e palavras, posso exercitar e estender minha própria escrita. Chegar a esta conclusão me deu uma segurança muito grande, e acredito que A princesinha medrosa tenha brotado daí.

Qual a diferença em ilustrar uma história escrita por você e a escrita por outros autores? A liberdade de criação é, de fato, maior?
Para escrever e ilustrar seu próprio livro, a imersão que se faz é em si mesmo. Não tem saída. A princesinha medrosa surgiu de situações e anseios pelos quais estava passando e, naquele momento, faziam todo sentido para mim. Mas só depois é que fui perceber a correspondência que havia com minha vida.

Já quando o texto é de outro autor, há certas indicações que me orientam. Há aqueles escritos para serem entendidos apenas como tal, e não como parte de algo que será completado por um desenho. É ótimo quando você descobre, na narrativa, uma abertura para a ilustração. Mas, na maioria das vezes, o autor escreve de forma a resolver o texto somente com o uso das palavras, mesmo quando ele tem sensibilidade para a criação de imagens literárias. Há escritores muito generosos em convidar o leitor para imagens – não sei se voluntariamente ou não –, e suas criações permitem que a ilustração interfira de maneira radical, a ponto de ser possível propor uma narrativa paralela.

A capa e o formato da nova edição estão completamente diferentes da primeira. É difícil alterar um trabalho já finalizado?
O processo de eliminação de possibilidades pode ser muito doloroso para o ilustrador. Por isso alterar a capa não foi fácil. A cor vermelha da primeira edição me remetia a algo como um objeto mágico. Na conversa com os editores, surgiu a ideia da capa cor areia – eu já havia pensado na solução que afinal foi a eleita: a personagem se escondendo atrás de uma janelinha. Nas primeiras páginas, acrescentamos uma aparição que representa o próprio medo da personagem. Agora, na primeira página aparece um pedacinho da princesinha, depois a mãozinha dela, e então, na terceira página, a ponta do manto que ela carrega. É como se fossem os bastidores da história. Então o livro, que começava depois do fronte, se esticou um pouco mais em direção ao início. E assim ele começa na capa e termina na quarta capa.

Pedro e Lua foi seu segundo trabalho autoral e foi considerado o Melhor Livro Criança pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2005). O que há de especial nele?
Para escrever Pedro e Lua, reuni vários pedacinhos de pensamentos que foram sendo guardados, assim como ocorreu com A princesinha medrosa. Havia uma frase que me perseguia: “você tem a cabeça na lua”, muitas pessoas me diziam. E certa noite, em Bauru [interior de São Paulo], a lua cheia me chamou especial atenção, porque no interior ela aparece de forma diferente do que na capital. Essa relação lunar faz parte de várias coisas da minha vida, e isso se comprova também em Ismália. A presença da lua mostra a dimensão da distância das coisas, e não da proximidade. Este foi o fio da meada, e o livro, como é, foi feito em uma noite. Se em A princesinha medrosa a personagem aprende a viver a realidade, Pedro percebe que a realidade é uma remissão aos afetos. E ambos tratam com carinho a questão da amizade.

Você coordena a coleção Dedinho de Prosa, ao lado de Augusto Massi. Como poderia defini-la? O que ela oferece ao leitor?
Os livros que fazem parte da coleção não foram criados originalmente para crianças. Eu, como ilustrador, também não trabalhei pensando num público infantil. Mas é curioso pensar que no momento em que esses textos ganham desenhos, são vistos imediatamente como feitos para crianças. É equivocado pensar que a ilustração tem a função de “mastigar” o texto escrito para o leitor.

Como os livros da Dedinho de Prosa levam ilustrações em todas as páginas, é possível realmente transformar um conto escrito em outro gênero. É mais ou menos o que os ingleses chamam de picture book, uma obra ilustrada em que o peso das imagens e o peso das palavras se equilibram na construção da narrativa. A Cosac Naify desempenha um papel muito importante por trazer títulos que não tenham um público idealizado e, por isso, se amplificam. Ou seja, há aqueles considerados para crianças que despertam enorme interesse em adultos. Essa inversão quebra uma série de paradigmas que costumam limitar o que as crianças gostam. A coleção tem este espírito, e assim consegue fazer com que um leitor jovem leia Machado de Assis, Lima Barreto etc., e que o leitor adulto possa admirar um livro ilustrado.



Dentro desta perspectiva, como acredita que a literatura dita infantil consegue extrapolar certos limites, muitas vezes impostos?
A literatura infantil foi o lugar que acolheu um grande número de experiências poéticas extraídas da relação da palavra com a imagem. E não só do ponto de vista formal, mas o universo infantil tem a potência das descobertas da linguagem. Nem é preciso recorrer a Guimarães Rosa para compreender a potência da palavra que nasce junto das coisas. A fala da criança está impregnada de licenças sábias, como “o avestruz é a girafa dos passarinhos”. Alguém consegue melhor definição? Por isso vejo o universo infantil como uma tentativa de compreensão das coisas, e que dá lugar à construção do imaginário. Este é um campo onde as coisas não estão tão delimitadas.

Editorialmente, é importante que o âmbito da literatura infantil não seja visto através de um olhar limitador, que tenta especificar deliberadamente o que uma criança gosta ou não. Esta divisão em áreas – “literatura para crianças” – é, em parte, responsável por algumas simplificações e estereótipos. Não gosto de pensar numa escrita com destinatários pré-estabelecidos.

A princesinha medrosa não é um livro para meninas, como o título pode dar a entender. Isso me faz lembrar Fernando Pessoa, quando diz “não tenho preconceitos geográficos nem temporais”. Acrescentaria a esta idéia “preconceitos de gênero”. Acho bonito quando o livro extrapola esses limites e abrange vários públicos. Como a boa arte, não é?

Com A princesinha medrosa, grande parte de sua obra é feita pela Cosac Naify. Por que a escolha pela editora?
Até hoje, o diálogo com a editora só ajudou no resultado de meu trabalho. Claro a autoria permanece, mas, por outro lado, o editor é também um leitor. Em momentos de impasse, o Augusto [Massi] já teve essa coisa bacana de falar: “Se você realmente acha que essa conotação que estamos sugerindo é errada, então a gente deixa como você preferir”. Isso me possibilita pensar melhor. Acho que o editor tem um quê de psicanalista: ele não tem que dizer como ele faria, mas sim como eu posso fazer melhor. O editor me ajuda a ser eu mesmo.