A primeira edição de Crítica, teoria e literatura infantil é de 1991. Como foi a experiência de reeditar e atualizar a obra com uma editora estrangeira? Quais foram as principais mudanças?Este foi um processo muito interessante. O livro foi escrito numa época na qual tínhamos que lutar arduamente para que as pessoas compreendessem quão importante são os livros infantis. Além disso, desde 1991, muita coisa foi escrita na área da teoria e da crítica, e percebo que a teoria tem se tornado menos relevante do que costumava ser. Consequentemente, fiz um balanço do que sei agora com o que sabia na época. De qualquer forma, a luta pela literatura infantil está longe de acabar e, em alguns países (e algumas universidades do Reino Unido) ainda temos que defender esta causa. Assim, a primeira metade do livro mantém todos os argumentos; já a segunda foi alterada levando em consideração os desenvolvimentos recentes, especialmente na poesia e nas novas mídias.
O que foi preciso ser repensado para esta nova edição, tendo em vista o público brasileiro? O ponto principal – este foi um grande aprendizado para mim – foi perceber como a primeira edição estava estruturada na crítica literária inglesa e em livros infantis ingleses e norte-americanos. Muitos dos exemplos foram retirados de obras que caíram na obscuridade, então busquei novos exemplos, incluindo títulos mais conhecidos. O livro original tinha por objetivo apenas a academia. A nova versão tem um público mais amplo em mente.
No capítulo final “Literatura e as novas mídias”, escrito especialmente para a edição brasileira, você trata da mudança da ideia de narrativa, ou melhor, da desconstrução de sua linearidade. Acredita que a análise teórica desta nova forma de expressão literária será possível ainda nesta geração de críticos? Apenas se houver uma mudança de mentalidade. Parece-me que a crítica funciona como um terceiro elemento entre o livro e o leitor, e, em certa extensão, isto requer um texto “estático” ou “fixo”. Igualmente, os críticos se valem de padrões estabelecidos e aceitos aos quais relacionam seus julgamentos e interpretações. Está colocado o problema para a crítica tradicional: no mundo de hoje, os textos se alteram; podem ser reescritos pelos leitores ou por múltiplos autores; perpassam diferentes mídias. O que fazer quando a audiência (especialmente se forem crianças) não partilha destes valores comuns? Eis a questão.
Por tudo isso acho que estamos no ponto mais excitante do desenvolvimento da comunicação e da literatura dos últimos quinhentos anos (desde a invenção dos “caracteres móveis”) e a literatura infantil está liderando a trajetória. Os críticos terão ainda um importante papel a cumprir, mas será necessário aprender novas habilidades e técnicas.
No livro, você comenta rapidamente sobre como incentivou suas quatro filhas a lerem. Como era o cotidiano familiar de leitura?Não tínhamos televisão – na Inglaterra de 20 anos atrás, esta era a única alternativa à mídia impressa – e nossas crianças liam um bocado. Eu e minha mulher líamos diariamente para elas desde quando eram bebês e assim os livros se tornaram uma parte natural da casa. Até mesmo durante as férias a família se reunia para ler. Claro, tínhamos a vantagem dos livros infantis serem objeto do meu trabalho, o que facilitou as coisas. Ainda temos cerca de 4 mil exemplares em casa.
Hoje todas elas são boas leitoras, além de cinéfilas. A mais velha adora
chick-lit [literatura voltada ao público feminino] e romances; a segunda lê vorazmente clássicos e filosofia e, aos 25 anos, é de longe melhor leitora que eu.
Você aponta as muitas mediações até que um livro chegue às mãos de uma criança, passando pelos pais, professores, bibliotecários, editoras e livreiros. Quais os caminhos mais saudáveis para que o encontro leitor-livro aconteça?Penso que o caminho mais saudável é fazer com que o livro seja um objeto corriqueiro na sociedade e na vida familiar. Em alguns países, está se tornando marginalizado pelas novas mídias: no lugar de livros, as crianças têm um computador ou uma TV em seus quartos. Se uma casa é cheia de livros, então o encontro se torna natural. Os pais deveriam ler
para as crianças e
com elas.
Mas, veja: não estou argumentando que livros são algo melhor que outras mídias, são apenas diferentes e produzem outras habilidades e prazeres.
Você assinala as dificuldades dos adultos em ler as histórias ditas infantis, ao mesmo tempo em que essas histórias nascem de uma mente adulta. Por que é tão difícil de atingir toda a potencialidade que um livro infantil oferece? Ler um livro infantil simplesmente por prazer é muito difícil para um adulto. A experiência é confundida com memórias de infância, com o desejo de ler em nome da criança, com a necessidade de fazer julgamentos sobre a adequação. Muitas vezes não se acredita que esta literatura pode oferecer o mesmo tipo de prazer intelectual que a adulta.
Por que em geral se imagina que a apreciação estética seja algo fora do espectro infantil? Por que está vinculada ao conhecimento cultural e à educação técnica, e, geralmente, a um procedimento de seleção elitista e de dominação adulta. Presume-se que, a menos que você tenha experiência cultural e possa articular seu pensamento em termos convencionalmente aceitos, você é incapaz de fazer interpretações estéticas. Obviamente, um leitor inexperiente terá uma maneira diferente de apreciar um livro, mas não significa que ele seja incapaz.
Quão prejudicial pode ser a noção de utilidade – como a preocupação em repassar ensinamentos morais através do texto, por exemplo – quando aplicada à literatura infantil? É quase impossível isto não acontecer, já que os autores de livros infantis invariavelmente têm pontos de vista ideológicos. Quando a literatura infantil é usada, por exemplo, como meio de alfabetização, o dano mais comum é que isso desestimule a criança para a leitura.
É tentador para um liberal como eu sugerir que livros escritos com um propósito moral são menos lúdicos ou menos bem escritos ou menos sutis que outros. Entretanto, basta olhar para a história para perceber que obras com as mais óbvias abordagens religiosas foram muito populares no passado. A infância muda.
Ao citar exemplos de obras livres de reducionismos e amarras literárias, Lewis Carroll é constantemente mencionado. Qual seu principal mérito?Carroll teve vários méritos, mas o maior deles é seu respeito pelo leitor infantil. Suas obras têm muitas camadas – emotiva, política, lógica, entre outras –, e tenho certeza de que ele acreditava que as crianças eram capazes de entendê-las ou ao menos ficavam instigadas a fazer indagações. Mesmo suas emoções pessoais estão presentes em seus textos, para que as crianças sentissem empatia ou as rejeitassem.
Você já escreveu ficção infantojuvenil. Por que interrompeu esta atividade? Ainda se reconhece como escritor? Sim, ainda me considero um escritor – é o que tenho feito desde os oito anos. A escrita acadêmica é algo que tive que fazer para me sustentar. Não parei de escrever para crianças, apenas parei de ser publicado. Escrevi seis livros em quatro anos e senti que isto era tudo o que tinha para dizer: acredito plenamente na ideia de que um escritor deveria escrever apenas os livros que realmente precisa. Há muito tempo tentei publicar mais livros, mas meu editor, muito acertadamente, os rejeitou.
Depois de 20 anos, voltei a escrever para crianças porque ainda queria me expressar. Mas meu novo romance não foi publicado por que os editores alegaram que está fora de moda – é gentil demais, intelectual demais. Não fiquei surpreso com a resposta, afinal não posso esperar que seja popular um livro que satiriza um outro tipo de literatura infantil.
Você tem alguma livraria ou biblioteca predileta que costuma frequentar? Sou um entusiasta das livrarias locais. Há uma cidadezinha perto de Cardiff [País de Gales, onde Hunt mora] onde existe uma que muda de dono a cada dois anos, então faço minhas compras lá sempre que posso. Para adquirir livros infantis, vou até Hay-on-Wye, a 100 quilômetros de distância: são mais de 50 livrarias para 2 mil habitantes!
Minhas bibliotecas favoritas são a
British Library em Londres e a
Bodleian Library em Oxford, mas tenho um cartão que me permite o acesso a qualquer biblioteca universitária na Grã-Bretanha; são 130, aproximadamente.