As vozes do sótão



Ilustração






Lançado em: outubro/2009
entrevista: Paulo Rodrigues


Quando o real e o imponderável andam juntos



Paulo Rodrigues em foto de Rodrigo Rosenthal


Por Livia Deorsola

Na formatura da escola primária, Damiano não tinha calças compridas para usar. Pediu, então, ao irmão mais velho, que lhe negou o empréstimo.  “Não foi só a recusa que me machucou, foi também o gozo antecipado que vi no olhar sádico do meu irmão”. A mãe não amenizava: “estrume” é como se dirige ao filho, mais tarde um homem torturado pelo passado e por uma intermitente voz que o acompanha, incitando-o ao ódio. “A verdade, estrume, é de certo modo pura, mas nunca é isenta”.

Isenção e verdade pouco interessam a Paulo Rodrigues (1948) em seu terceiro livro, As vozes do sótão, inspirado em anotações feitas por seu padrasto, há 52 anos. Esta imprecisão proposital e anunciada – “só posso contar essa história de modo bordejado, com idas e vindas, subidas e descidas...”, diz o narrador – oferece uma apetitosa abertura ao leitor, que pisará terreno pouco seguro e marcado por simbolismos. Que atos de violência Damiano cometeu de fato? O que o faz assumir uma nova identidade, agora como Guido, em outro país?

Na entrevista a seguir, o autor de À margem da linha (prêmio APCA 2001, como escritor revelação), e Redemoinhos (2004; contos), fala sobre os deslocamentos interiores desse personagem, que narra sua história em busca de redenção.

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As vozes do sótão está baseado no diário de um homem que de fato existiu, Guido. Quem foi ele? Como surgiu o livro a partir dessas anotações?

Paulo Rodrigues: Esta é uma história antiga, que escrevi originalmente em terceira pessoa, de forma linear, mas me desfiz desta primeira versão, e ela acabou virando uma narrativa em primeira pessoa, contada de maneira oblíqua. É inspirada nos registros pessoais do meu padrasto. Mas tudo o que está escrito a seu respeito foi invenção minha, já que ele era uma pessoa muito fechada. Não sabíamos quase nada sobre ele. Me alimentei de uma caderneta na qual escrevia impressões do dia-a-dia. O projeto gráfico do livro, inclusive, foi criado a partir dessa caderneta. 

Com tão poucas informações sobre o Guido real, qual foi o caminho escolhido para  criar o personagem?

Ele foi um homem de muitos acidentes, interiores e exteriores. Embora tivesse um temperamento ensimesmado, notava-se que tinha uma vida interior muito intensa, o que fazia com que anotasse fatos aparentemente insignificantes, mas que deveriam ter uma outra dimensão para ele. Quis criar um personagem assim.  Meu protagonista também sofre muitos tombos, muitas quedas, e não estou dizendo isso apenas metaforicamente. Ambos caem mesmo, na rua, andando. Num contexto mais amplo, isso me fez pensar numa frase da canção O circo místico, do Chico Buarque e do Edu Lobo: “o grito do homem voador ao cair em si”. É mais doloroso do que se cair no chão. Acho que isso une bastante esses dois homens, o real e o que foi criado por mim.

A única coisa verdadeira que levei para o livro é sua viagem para Montevidéu, onde morou por um tempo. Depois que ele morreu, um de meus filhos achou seu diário, com uma porção de registros. Fui montando um quebra-cabeça, imaginando desdobramentos.

Guido chega a cometer atos de violência um tanto obscuros. Mesmo assim, desperta pena e até mesmo a ternura do leitor. Poderia comentar esta dualidade? 

Este é um personagem muito humano. Quem de nós nunca teve vontade de matar alguém? Como não chegamos a isso, cometemos o ato simbolicamente. Por isso os mortos do narrador vão sendo colocados no baú que ele guarda no sótão, uma espécie de caixa de ossos; o mesmo baú onde antes ele havia encontrado objetos da mãe, que indicavam o tipo de vida que ela levava no passado. Desta forma, trabalhei sobretudo com a violência que alimentamos intimamente, sem necessariamente levar à prática. O personagem é um vulcão.

Essa personalidade nos faz recordar Alfredo, do conto “Catedral”, de Redemoinhos: o caráter reprimido, desejos encobertos, mas também com capacidade para o afeto. De onde surgem tais semelhanças?

Não havia pensando nisso, mas é verdade. Meus personagens são pessoas contidas, estão sempre em ebulição, mas sempre de forma represada, deixando à mostra apenas suas impossibilidades e incapacidades, porque possuem uma riqueza interior, mas não conseguem expor. Não sei bem de onde vem isso, mas é algo que ocupa minhas reflexões.

Podemos dizer que a voz que acompanha Damiano e alimenta seu rancor também o encaminha a um tipo de redenção, um meio de purificar seus ressentimentos?

Esse recurso tem a ver com o universo de onde ele vem, em que está muito presente a conotação religiosa não apenas vinculada ao catolicismo, mas com influências de seitas pagãs, crenças em forças ocultas. Também tem aí um pouco de uma imagem que vi muito quando era menino, de gente falando sozinha, delírios que supõem a voz de um outro. Mas no caso de Guido, a voz que o instiga a cometer ou não atos terríveis não é algo à parte; ao contrário, faz parte dessa personalidade. Tanto que ela se altera conforme ele muda de comportamento.

A história é contada a partir de dois pontos de vista: o do protagonista e o de um narrador em terceira pessoa, que acompanha tudo com proximidade. Qual o papel deste segundo narrador? O que procurou ao criá-lo?

Os narradores são a mesma pessoa, só que em determinado momento ele está contando o que se passou em primeira pessoa, e num momento anterior, perdido no passado, ele registrou tudo num diário, como se fosse um outro a explicitar os acontecimentos. Era como meu padrasto escrevia: “Hoje Guido caiu no rio Tietê”, por exemplo. Quando se escreve em terceira pessoa, já se está escrevendo uma versão do fato, e é isso o que importa. Não fica claro, portanto, para quem ele está contando a história. Ou se ele é um louco, um presidiário se dirigindo aos seus inquisidores, que comparam o que ouvem ao que lêem num caderno encontrado, ou se é simplesmente um doente. Eu já não tenho controle sobre essas hipóteses.

Se em À margem da linha a figura totalizante era o pai, em As vozes do sótão é a mãe que ganha espaço. Quem é essa mãe?

Ela é uma presença muito forte, e há ali uma relação edipiana. Damiano tem um ciúme doentio do irmão, porque acha que a mãe o privilegia, enquanto ele é tratado como “estrume”, o que não importa muito, já que assim, pelo menos, ela dispensava um pouco de atenção a ele, nem que fosse para maltratá-lo.

A maior parte de seus narradores é composta de homens. Como lida com a composição de uma figura feminina? Quais as dificuldades que encontra?  

Nunca criei um personagem feminino em primeira pessoa, embora eu transite bem neste universo. Minha literatura é, de certa forma, confessional. Claro que não falo exatamente de mim, não fico contando a minha história. A maior parte do que é narrado eu não vivi, mas são coisas que existem dentro de mim. Quem é o Guido? Sou eu. Quem é o Damiano? Quem é a Nena? Sou eu.

A experiência familiar é algo marcante em seus livros. É, aliás, por causa deste traço, somado aos aspectos sociais, que você já foi comparado aos neo-realistas italianos. Como trabalha a conjugação das duas faces?

Quase todos os meus escritos trazem como tema as relações familiares porque falo do que conheço, do que vejo ao meu redor, e volto sobretudo às passagens da infância, período que mais marca a vida, positiva ou negativamente.

Foi na infância que descobriu a literatura?

Cresci em Itaquera, e meu contato com a literatura se deu por volta dos dez anos, lendo obras que minha madrinha ganhou da família para quem ela trabalhava como babá. Nas férias, eu passava boa parte do dia no barracão onde os livros eram guardados, lendo. Havia, inclusive, histórias impróprias para a minha idade – aliás, era dessas que eu mais gostava, além das infanto-juvenis. Já adulto, quando lia um título, reconhecia os trechos que havia visto quando criança: Os miseráveis [Victor Hugo], Iaiá Garcia e Helena, do Machado, Boêmios errantes, do John Steinbeck...

Você foi o vencedor de um concurso literário promovido pela Telesp, em 1977, com o aval e a admiração do Raduan Nassar, que fazia parte do corpo de jurados. Esta foi sua primeira incursão pela escrita?

Antes eu já escrevia, mas sem compromisso. Sempre tive mania de registrar as coisas que me aconteciam, mas sem nenhuma preocupação literária, claro. E continuei escrevendo. Quando voltei a estudar, aos vinte anos, passei a prestar mais atenção no que colocava no papel. Houve uma professora de redação que me incentivou, porque por trás dos meus erros de gramática, ela percebeu que talvez eu tivesse uma boa imaginação.

Também mostrava o que escrevia aos amigos. No [livro de contos] Redemoinho, a dedicatória é para aqueles que liam as minhas coisas, que ouviam com paciência as minhas histórias. Porque eu sempre tive o hábito de contar história. Acho um bom exercício. E atualmente mostro o que escrevo para os meus filhos.