Marcelino Pedregulho



Ilustração






Lançado em: julho/2009
entrevista: Mario Sergio Conti


A sutileza e o humor de Sempé vertidos para o português


Por Livia Deorsola

O jornalista Mario Sergio Conti sempre foi um apaixonado pelo desenho e pelas histórias do cartunista francês Jean-Jacques Sempé. Quando morou em Paris, costumava levar sua filha à galeria que expõe os trabalhos do criador de Marcelino Pedregulho. Quarenta anos após o lançamento do livro na França, Mario Sergio Conti traduz esta que é uma das obras mais graciosas de Sempé: a divertida história de um garotinho que ruboriza sem motivo algum. Autor de Notícias do Planalto (1999) e diretor de redação da revista piauí, ele nos conta um pouco sobre a experiência e fala de sua admiração pelo artista.

Quando você morou em Paris, sempre ia, com sua filha, visitar a galeria que expõe os trabalhos de Sempé. Como eram esses passeios? De que maneira ela reagia aos desenhos?

Minha filha sempre gostou dos desenhos e aquarelas do Sempé. Primeiro conheceu o Petit Nicolas, que ele criou e ilustrou. Ela reconheceu de imediato a graça e a sutileza do seu traço. Daí para os cartuns foi um passo. Na galeria da Rue de L'Université ela gostava de ver as aquarelas e cartazes das exposições. De quebra, brincava com o Vírgula, o cachorro da Martine, a dona da galeria.

Uma história de ficção, para crianças (ainda que encante adultos), com humor sutil. Como foi a experiência de sair de seu mundo de trabalho habitual para traduzir o livro?

Foi ótimo fazer a tradução, já que admiro Sempé há décadas. E o trabalho tem a ver, de certa forma, com o que faço: já publiquei e traduzi cartuns do Sempé na piauí.

No original francês, o amigo de Marcelino Pedregulho (Marcellin Caillou) se chama René Râteau, que você traduziu para Renê Rocha. Râteau é uma espécie de ferramenta para varrer folhas e pedregulhos. Poderia comentar essa opção na tradução? O que ela revela sobre a relação de amizade dos meninos?

Râteau quer dizer "ancinho", um instrumento de jardinagem que às vezes pode topar com um caillou, um pedregulho. Os dois sobrenomes têm uma afinidade, que busquei preservar com "Rocha" e "Pedregulho". Além disso, "René Rateau" são palavras de duas sílabas que começam com "R". Daí a solução: Renê Rocha.

Como jornalista, qual o aspecto que mais lhe chama a atenção nos trabalhos de Sempé para jornais e revistas? Destacaria algum em especial?

No fim dos anos 60, ele fez uma série de cartuns na imprensa que comentavam a americanização da vida francesa. Ele viu antes os efeitos do que hoje se chama de "globalização". O seu ponto de vista não é passadista, de nostalgia diante da situação que muda. Sempé busca, acho, investigar a identidade e a diferença. Mais ou menos como em Marcelino Pedregulho, o menino que é diferente (porque ruboriza sem motivo), mas não deixa de ter sua identidade de menino francês de classe média. A partir dos anos 80, na revista americana New Yorker ele levou adiante essa crítica, referindo-se explicitamente às tensões entre a nova e a velha capitais do mundo, Nova York e Paris. Como ele passou longas temporadas em Nova York e adora Paris, a sua crítica é a de alguém de dentro, que compreende e aponta o que se perde com a padronização da vida nos países ricos.