
Benjamin Moser se encantou por Clarice Lispector na primeira página de A hora da estrela, durante um curso de literatura brasileira da Brown University. Ficou impressionado (“Ainda estou”) e, desde então, a escritora se tornou uma paixão. Ao saber que ela seria a homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2005, pegou o primeiro avião para o Brasil.
Norte-americano nascido em Houston, em 1976, crítico e tradutor, Moser mergulhou fundo na cultura brasileira do século XX para tentar desvendar a enigmática personagem, dona de um mistério até hoje perturbador, passados mais de 30 anos de sua morte. O resultado se lê na biografia Clarice,, que tem despertado o crescente interesse internacional pela escritora. O livro revela fatos desconhecidos de sua vida e joga luz sobre recantos até agora nebulosos, que ajudam a entender melhor seu principal interesse: a origem das coisas, inclusive a dela própria.
O biógrafo fala, a seguir, sobre como aprendeu o português – idioma que domina com perfeição – e das pessoas que conheceu pelo mundo ao longo das pesquisas para o livro, além de esclarecer o lugar da questão judaica neste trabalho.
"Pão fresco engorda": o aprendizado do português
Aprendi o idioma acidentalmente, na faculdade, depois de descobrir que não prestava para o chinês. Logo adorei. Um mundo inteiro se abriu para mim. Tivemos um excelente departamento de português na Brown University, localizada numa região com muitos imigrantes portugueses. Depois de três semestres, estávamos lendo Clarice Lispector. "Pão fresco engorda" foi a primeira frase que aprendi. Agora me pergunto: pão velho engorda menos?
Dentre minhas preferências da língua, está o verbo “ficar”, por não ter equivalente em outras línguas latinas, e de certas heranças do latim, como a diferenciação entre "dois" e "duas". Gosto do infinitivo pessoal e da maneira enfática de poder falar com duplas negativas: "Não vou, não", que não deixa lugar a dúvidas, não.
Clarice pela primeira vez
Nunca tinha ouvido falar de Clarice. Quando li A hora da estrela no curso de literatura brasileira, fiquei impressionadíssimo. Ainda estou. Logo na primeira página, pensei: essa é uma grande escritora. Depois viajei pela América do Sul de ônibus, do Rio de Janeiro a Buenos Aires, voltando pelo Paraguai. Diante de mim, o tango, Iguaçu, o Pão de Açúcar e tudo mais, e realmente a única coisa de que me lembro foi A paixão segundo G. H., que comprei em Florianópolis. Perto daquele livro, nada mais podia me impressionar.
Anos atrás, tentei traduzir o livro, apenas como exercício. Fracassei totalmente. Porque o drama de Clarice está muitas vezes ao nível da frase, ou até da palavra, algo muito delicado de se captar em outra língua. Mas quando você escreve um livro como o meu, tem que encontrar uma maneira, e acho que inventei uma Clarice anglófona que soa muito bem.
A tradução para o português ficou excelente; o José Geraldo Couto fez um trabalho maravilhoso. Foi um prazer ver que ele conseguiu preservar meu ritmo e estilo, que são muito norte-americanos, sem que o livro tenha “sotaque”.
Rumo ao Brasil
Deixei meu trabalho de editor em Londres e me mudei para a Holanda. Estava escrevendo muitas coisas curtas, pois não achava que tinha descoberto um assunto de suficiente importância para dedicar vários anos somente a ele. Agora que não tinha que ler mais “profissionalmente”, como é o caso quando se está numa editora, reli vários autores queridos, entre eles Clarice. Falava muito sobre ela, ainda com essa sensação missionária. Afinal, como é possível que, fora do Brasil, ninguém soubesse quem é essa mulher? Então um amigo me telefonou de Nova York e disse: “sabe aquela autora brasileira de que você gosta? Ela será a homenageada de um festival no Brasil [FLIP 2005], que começa amanhã”. Sabia que tinha que ir e, na manhã seguinte, peguei um avião até São Paulo e mais uma condução para Paraty. Não parei mais.
O mistério Clarice
Ela ainda permanece um mistério sob muitos aspectos, ainda que fatos inéditos sobre sua vida tenham sido revelados na biografia. O fato fundamental, desconhecido até agora, são os episódios vividos pelos Lispector na Ucrânia. Isto costumava ser visto como uma história de imigrantes, sem grande drama, um mero prólogo. Mas, na verdade, esta é uma história de refugiados de uma guerra civil e racial, que condenou a mãe de Clarice a uma morte terrível, assim como centenas de milhares de outras pessoas, judias e não. Este episódio é, sobretudo, a razão que a traz ao mundo, com o objetivo de salvar sua mãe. E ela fracassa. Carregou esta culpa até o fim.
A universalidade clariciana
"Por mais feminina que fosse a mulher, esta não era uma escritora, e sim um escritor. Escritor não tem sexo, ou melhor, tem os dois, em dosagem bem diversa, é claro. Que eu me considerava apenas um escritor e não tipicamente escritor brasileiro. Argumentou: nem Guimarães Rosa que escreve tão brasileiro? Respondi que nem Guimarães Rosa: este era exatamente um escritor para qualquer país", disse a própria Clarice em A descoberta do mundo. Por brasileira que fosse, Clarice também é uma escritora para qualquer país. Os grandes artistas são universais.
Sobre sua brasilidade, não sei se foi ela própria ou se foram os outros que faziam questão de chamar a atenção para isso, que é algo muito constante nos escritos sobre sua personalidade: que amava o país, que era brasileira etc.. Tudo bem, é verdade, mas por outro lado, ela não nasceu no Brasil, seus pais eram de outra nacionalidade e ela teve uma formação bem diferente da maioria dos brasileiros daquela época, que a acharam muitas vezes estranha: alta, loura, com uma espécie de sotaque judaico-pernambucano. As pessoas se perguntavam: “ela vem de onde mesmo?”
A questão judaica
Sobre a presença judaica na literatura de Clarice, não diria que isso contribuiu para o meu interesse inicial por ela, ou que tenha sido o motivo de minha admiração. O que me chamou a atenção foi como a questão judaica é tão óbvia em sua obra. Quanto mais me aproximava de seus livros, mais evidente isso ficava para mim, algo que não tinha recebido a devida atenção antes. O fato de o judaísmo estar disfarçado em seus escritos só o faz ainda mais emblemático, e isso é uma característica da literatura judaica, sobretudo a que provem de épocas de perseguição e exílio, como era o caso da família Lispector. Nem Proust, nem Kafka são explicitamente judaicos, mas as obras deles são profundamente infundidas da experiência histórica. De lá, acho, vem suas deslumbrantes alegorias, sua ânsia por conhecer um Deus que ela, ao mesmo tempo, rejeitou, quando ele, a despeito de seus rogos, matou sua mãe.
Eu não tenho nenhuma vocação religiosa, nem sou crente. Clarice diz: "A ausência do Deus é um ato de religião." Talvez. Mas tenho grande fascinação pelas pessoas que se dedicam às grandes questões filosóficas e religiosas: De onde viemos? Para onde vamos? Por que nascemos, por que temos que morrer? Onde está Deus? São questões dolorosas porque não têm respostas, mas ninguém as procurou com tanta intensidade como Clarice.
O impacto íntimo
Concordo quando dizem que ler Clarice é como se auto-analisar. Sua literatura oferece acesso a regiões íntimas onde geralmente não ousamos entrar. Uma moça italiana me escreveu contando que dorme com livros de Clarice debaixo do travesseiro e que a escritora é, para ela, mais importante até do que a própria vida. Uma obra não tem este impacto sobre as pessoas se não nos fala de nossa própria alma.
A grande questão para Clarice, que inclusive serviu de título para a versão original do livro – Why this world [Por que esse mundo?] – é uma questão para todos nós. Acho que o questionamento intenso que a caracteriza, também nos marca, ainda mais na adolescência, quando escolhemos nossa própria máscara. Quando envelhecemos, temos que tocar a vida e este tipo de questão fica escondido. Mas sempre está aí, como nos contos de Clarice, como quando uma erupção mística destrói uma fachada cuidadosamente construída.
Portas abertas
De toda a experiência que tive durante a elaboração do livro, levarei para sempre as amizades que fiz. Uma biografia te obriga a bater em muitas portas totalmente desconhecidas. Você se sente como um invasor, espionando os álbuns de fotos, interrompendo essa gente enquanto tomam seu café, e falando de coisas muitas vezes íntimas. No início, não tinha muita coragem para fazer isto. Pensei: por que alguém contaria sua vida para mim? Por isso abordei as pessoas com bastante timidez, mas logo me dei conta de que elas queriam, sim, falar. Gostavam de compartilhar suas lembranças, falar sobre o passado e sobre Clarice, que foi uma figura tão impressionante. Conversamos de tudo, e eu também falei de mim. E foi a partir daí que perdi o receio e passei a ficar cheio de expectativa em relação à pessoa interessantíssima que talvez me esperasse atrás da porta.
Adorei quase todo mundo que encontrei pelo mundo inteiro, desde a bibliotecária de Tchechelnik [Ucrânia], onde Clarice nasceu, até sua cunhada em Paris [Eliane Weil Gurgel Valente], que virou minha grande amiga. Sem este livro, não teria encontrado tantas pessoas incríveis, não teria visitado lugares exóticos (como a Moldávia!), não teria tido tanto tempo para conhecer a cultura brasileira.
A paixão segundo Benjamin
A coisa mais perigosa em escrever uma biografia é passar a detestar o biografado. Conheço uma biógrafa muito proeminente nos Estados Unidos a quem isso aconteceu: no meio do caminho, ela ficou cansada daquela mulher sobre quem pesquisava, e ainda tinha que trabalhar mais três anos nisso. Porque é uma intimidade muito extensa com uma pessoa que, afinal, você não conhece, nem poderá conhecer. É como um namoro, ou uma amizade: aquela pessoa tão charmosa no restaurante pode se revelar, com o tempo, chata, mesquinha ou burra.
Felizmente, Clarice só cresceu aos meus olhos. Depois de cinco anos de estudos, pesquisas e escrita, a amo e respeito ainda mais. A proximidade só a torna mais espetacular, sobretudo agora, que entendo muito melhor os desafios humanos que ela enfrentou para se tornar uma entre os maiores escritores do século XX, não somente do Brasil, mas do mundo.