Sinais do mar



Ilustração






Lançado em: maio/2009
entrevista: Ana Maria Machado


Ana Maria Machado expande-se na poesia em estreia pela Cosac Naify


Por Livia Deorsola

"Nunca pensei que fosse publicar poesia", escreve Ana Maria Machado no texto que encerra Sinais do mar, primeiro livro do gênero publicado por ela, em quarenta anos de carreira. A palavra "nunca" chega a causar estranheza quando pronunciada por uma das escritoras mais premiadas do país, ex-aluna de Roland Barthes, jornalista, ensaísta, romancista e com contribuição decisiva no panorama da literatura infanto-juvenil no Brasil.

As palavras "alegria" e "entusiasmo" foram usadas por Ana Maria, na entrevista a seguir, para descrever as sensações que permeiam seu processo de criação. Já "curiosidade" foi a escolhida quando o assunto é a série de novidades da estreia: um novo gênero, uma nova editora, um projeto gráfico inovador.

Para falar sobre seus poetas favoritos, o primeiro nome a aparecer é o de Carlos Drummond de Andrade, que escreveu que a luta com as palavras é a luta mais vã. Irremediavelmente ligada a elas, Ana Maria Machado dá a conhecer, em Sinais do mar, mais uma faceta de sua bela luta de todo dia.



Por que levou tanto tempo para publicar seus poemas?

Sempre levei muito tempo para publicar meus primeiros livros - o primeiro ensaio, o primeiro infantil, a primeira peça de teatro, o primeiro romance, etc. E, para falar a verdade, de vez em quando eu escrevia um poema e guardava, mas só muito recentemente me dei conta de que tinha um livro pronto.

Antes de decidir pela publicação, como você encarava a feitura dos versos? Era apenas uma espécie de exercício?

Eu escrevo quase todos os dias, há quarenta anos. Pode ser em prosa ou verso. Pode ser diário ou artigo para jornal. Romance ou livro infantil. Texto juvenil ou palestra. Graças a Deus, nunca me passou pela cabeça que eu precisava encarar de alguma forma específica as coisas que escrevo. Vou escrevendo como passarinho canta.
     
De que forma sua prosa contribuiu com os exercícios poéticos, e vice-versa? Você identifica um diálogo entre os trabalhos?

Muito provavelmente tudo deve se comunicar, uma coisa contribuindo para a outra, porque sou a mesma pessoa. Então sei que esse diálogo entre os diferentes lados deve existir - também entre o que escrevo e o que pinto, ou entre o que converso e o que penso. Mas não sei definir como.

Em que medida a poesia está presente em sua obra? Poderia citar seus poetas favoritos e possíveis ensinamentos que deles tomou emprestados?

A poesia está em toda parte, feito dizem que Deus está. Ela tem a ver com um olhar novo sobre as coisas. Isso faz parte da vida; a humanidade é contínua e os seres os humanos se renovam. Então, com certeza, aflora na minha obra e na minha vida. Sempre li muita poesia, os poetas balizam meu caminho e sei seus versos de cor. Em primeiro lugar, Drummond. Mas também Bandeira, João Cabral, Vinícius, Jorge de Lima, Cecília Meireles. Dos contemporâneos, Gullar e Alberto da Costa e Silva me tocam especialmente. Fernando Pessoa, na cabeceira. Fui formada na leitura dos espanhóis: Garcia Lorca, Rafael Alberti, Pedro Salinas, Jorge Guillen, Juan Ramón Jiménez, Antonio Machado, Vicente Alexandre. É uma geração maravilhosa. E há três clássicos irresistíveis, a cuja música e profundidade eu volto sempre: Shakespeare, Dante e Camões. Mas não tenho consciência de ter tomado nada emprestado deles.

O mar nunca transborda (Nova Fronteira, 1995) narra a história de um vilarejo do litoral do Espírito Santo. O mar é uma presença forte para você?

Sempre, muito. Forte na minha vida, forte no que escrevo. A [pesquisadora e professora] Marisa Lajolo já apontou certa vez que talvez seja uma das presenças mais fortes na minha escrita. Acho que ela tem razão.

Sinais do mar reúne tipos específicos de poemas, embora tenham sido escritos esparsamente ao longo dos anos. Como foi estruturada a unidade da obra?

Identifico três vertentes que permeiam o livro: concreta, sensorial e narrativa. Na primeira, estão poemas como, por exemplo, "Revoada" [voam as gaivotas / em revoadas vogais] e "Siri" [Siri não ri em serviço / se troca a casca / vira ouriço]. A segunda é marcada por sinestesias ligadas ao mar, como em "Terral" [brrr / arrepio / vento frio / vem do rio] e "Maresia" [Nariz abre a asa / narina é casa / é o lar que inspira / é o mar que respira]. Já a terceira traz poemas como "Primeiro mar" [Cabeça de palavras povoada/ Conversas de amplidão imaginada / Mas que leitura tanto poderia?] e "Naus e Nós" [Naus / saem de Sagres / e deixam infantes, / partem de portos / e deixam mortos], com certa linha narrativa.

Nos cenários marinhos que figuram em Sinais do mar, o eu-lírico parece estar afastado, observando à distância. A contemplação foi o ponto de onde você partiu para se inspirar?

Não sei se exatamente a contemplação. Mas a admiração e o deslumbramento, com certeza. E a memória. Mas é bom ter uma distância, e nisso sigo a lição de Drummond : "o que pensas e sentes/ isso ainda não é poesia."

Ao comentar a sensação que teve ao publicar os seus primeiros poemas, Adélia Prado disse que o fizera com entusiasmo e felicidade, "emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas do sofrimento". A criação, para você, suscita que sentimentos?


Não suscita sofrimento. Alegria, sim. E entusiasmo - com direito a pausa. Para procurar melhor.

Décio Pignatari, mesmo já consagrado, experimentou uma nova forma de expressão com Bili com limão verde na mão (Cosac Naify, 2009). É preciso coragem para se reinventar depois de já ter alcançado reconhecimento em outras vertentes?

Não sei se precisa coragem. Mas precisa uma certa sensibilidade ao tédio de todo dia fazer tudo sempre igual. Agora lembro Cecília Meireles: "A vida só é possível reinventada".

As ilustrações são parte importante de seus livros para crianças. Para Sinais do mar, a Cosac Naify apresentou uma proposta gráfica diferente, um trabalho figurativo, com grafismos. Esta também é uma mudança importante?

Eu quis fazer esse livro com a editora. Me apresentei do nada, muito oferecida. Por que? Porque acho que a editora atualmente faz os livros mais bonitos do mercado. Então tinha de confiar nela. Quando me propuseram não usar ilustração, mas trabalhar com grafismos, eu tinha era de ir junto e arriscar. Por mais que a proposta tenha sido totalmente inesperada e tenha me deixado com alguma dúvida. Mas seria incoerente e arrogante eu escolher uma editora porque ela sabe fazer bem seus livros, e já chegar lá determinando como eu queria que fizesse. Tinha que aceitar. E achei o resultado interessante.