Sábado na livraria



Ilustração






Lançado em: março/2010
entrevista: Olivier Tallec


Lembranças de livrarias


Aos sábados, infalivelmente a garotinha vai à livraria. Acomoda-se numa grande poltrona e passa o dia lendo quadrinhos. À distância, observa um senhor, sempre acompanhado por um livro grosso de narrativas de guerra. A menina não consegue entender seu gosto pela história demorada e triste, e ele tampouco se interessa por seus livros ilustrados. "Não sei por que ele lê esse tipo de livro. Que prazer pode tirar disso? Eu, com meus quadrinhos, me divirto bastante. Pelo menos dou risada. Ele, às vezes, tira um lenço do bolso e enxuga o rosto."

Em Sábado na livraria, a escritora suíça Sylvie Neeman e o ilustrador francês Olivier Tallec exploram o olhar da criança neste espaço de convivência e aprendizado. Um ambiente que proporcionou diversas descobertas à infância de Sylvie – dentre elas o "senhor gentil", uma amável figura que trabalhava no setor de livros infantis de uma livraria de Lausanne –, e que a Olivier representa "um momento de relaxamento, uma pausa e a quase certeza de encontrar um presente". Em depoimento exclusivo ao Portal Cosac Naify, os autores resgatam estas e outras experiências com as livrarias.
 

Sylvie e o significado de “livraria”

Durante a minha infância, eu li com paixão os livros de Enid Blyton: as séries Le clan des sept, Le club des cinq, todas as aventuras com o personagem Oui-Oui, claro! E depois todos os Bennett e Mortimer, de Anthony Buckeridge. Eu amava os personagens que viviam nessas séries, porque sabia que nós poderíamos nos reencontrar um dia ou outro – e esperava esse dia com impaciência...

Atualmente, por causa da profissão, ainda leio muitos livros infantis, com uma admiração particular pelo trabalho de Wolf Erlbruch, Beatrice Alemagna, Anne Herbauts, Elzbieta e de tantos outros! Dentre os livros para adultos, citaria Philip Roth, Nancy Huston, Paul Auster, Henry Bauchau, Marguerite Duras e, ainda, Gustave Roud e Philippe Jaccottet, dois poetas suíços.

Não consigo me lembrar da primeira vez que entrei numa livraria, mas tenho recordações muito bonitas de uma localizada na cidade da minha infância, Lausanne. A seção "infantil" ficava lá em cima, e havia um senhor, já velho, que era o responsável pelo setor. Para mim, meu irmão e minha mãe, ele era o "senhor gentil". Se nós quiséssemos um livro, ou se tivéssemos alguma pergunta a fazer, mamãe dizia: "pergunte ao 'senhor gentil'".

Freqüentar livrarias é um hábito belíssimo, mas que hoje em dia enfrenta desafios. Aqui na Europa, a cada ano dezenas de pequenas livrarias fecham, por não aguentarem a concorrência com as grandes redes comerciais. Fui convidada a visitar algumas cidades francesas para conversar com as crianças sobre Sábado na livraria e ocorreu algo bastante curioso: as professoras me disseram que eu deveria começar minha fala com a explicação do título do livro, porque a palavra "livraria" lhes era desconhecida. Os alunos conheciam "midiateca", "biblioteca", sabiam o que era a Fnac, mas a palavra "livraria" não pertencia mais ao seu vocabulário, ou jamais havia pertencido. Isto é muito preocupante.

A minha livraria favorita agora é a que Olivier Tallec criou para o livro. Uma livraria – com certeza idealizada – em que as pessoas são atenciosas umas com as outras, onde reina a paz, mas os olhares são trocados, assim como quaisquer raras palavras... E em que haja bombons, claro.

Um lugar em que as pessoas tenham consciência de tudo o que os livros podem nos oferecer, independentemente da idade e da origem, mas que exista modéstia nisso tudo. A livraria de Olivier tem um lado sombrio, misterioso, é um lugar onde nos sentimos bem, onde queremos nos demorar e voltar sempre.


Olivier e a certeza de encontrar um presente

Acho que eu guardava todas as imagens na minha cabeça quando era criança. Tenho muitas lembranças de ilustrações, sem necessariamente lembrar dos seus autores. Recentemente, encontrei com alegria os livros da editora Flammarion que eu adorava e que hoje fazem parte da coleção Les Classiques Du Père Castor.

As ilustrações dos anos 1960 e 70 continuam a inspirar muitos desenhistas – sou capaz de escrever quatro páginas apenas sobre isso. Atualmente, há vários autores e ilustradores que admiro: aprecio o trabalho de Jean François Martin, de Taro Gomi, Wolf Erlbruch (particularmente no O pato, a morte e a tulipa), de Sempé, das animações produzidas pelos estúdios Ghibli no Japão, de Ann e Paul Rand, Sasek, Tazue Takahashi, entre tantos outros.

A visita a uma livraria representa um momento de relaxamento, uma pausa, a quase certeza de encontrar um presente – para mim ou para oferecer a alguém. Quando criança, eu visitava bibliotecas regularmente, mas não tenho lembrança de livrarias. Hoje, tenho as minhas preferidas, claro. Dentre elas está a Atelier, na Rue du Jourdain, em Paris, e a livraria Caplan, na comuna de Guimaëc, porque fica próxima à minha região de origem (Morlaix) e localiza-se de frente para o mar.

Quando visitei o Brasil, fiquei bastante surpreso porque as livrarias de vocês são bastante diferentes das que temos aqui. Em geral são grandes (o que raramente acontece na França) e com grandes estoques de livros. Lembro-me de ter procurado títulos sobre arte popular brasileira e ter encontrado obras geniais, como sobre a literatura de Cordel, que eu não conhecia. E tinham capas muito bonitas.