AVENTUREIRA IRRECUPERÁVEL A senhora já contou que foi ainda menina que descobriu a vontade de trabalhar com livros. Como foram suas primeiras poesias e histórias? Quais temáticas mais lhe interessavam?Vou aproveitar sua pergunta para dar um testemunho. Depois de tantos livros publicados, devo contar aos pais, aos professores, e às crianças com dificuldades, que também tive as minhas. Não diferenciava alguns sons de letras como "f" e "v", por exemplo. Meus pais valorizavam muito a formação intelectual. E aos sete anos eu percebi que a expectativa deles era que eu teria dificuldades de leitura.
Para compensar essa situação, assim que me alfabetizei, tratei de escrever e ilustrar poemas, com a seguinte assinatura: "uma criança prodígio". Tratei de negar o medo de decepcionar aos meus e a mim mesma.
Minha mãe guardou esses poemas dedicados a ela e a meu pai. Nos versos falo do meu amor por eles e pela natureza. São legíveis, apesar das trocas de letras. Encontrei esses papéis na caixa de recordação da minha mãe, quando ela morreu.
No início da carreira, a senhora estudou design na Escócia. Além disso, viveu por algum tempo na Venezuela. Como foi ter estas experiências em uma época em que as mulheres, de forma geral, ainda eram educadas para não ter tanta liberdade?Sabe que tenho a impressão de que a minha geração talvez tenha sido mais livre do que as que vieram depois? Tenho 64 anos. Fui jovem durante a revolução da pílula. Na universidade, participei da luta da esquerda, depois do movimento pela anistia política e pelos direitos femininos.
Minha família era ateia e seus principais valores eram a coragem e a necessidade de buscar um sentido para a vida que fosse além de questões pessoais. Apesar de terem uma posição política diferente da minha, me deram a chave da porta da casa, literalmente, quando era ainda quase uma menina.
Em 1970 escapei de um Brasil paralisado pela ditadura e pelo medo. Durante um bom tempo perambulei: estudei em Denver, no Colorado, trabalhei em Puerto Ordaz, na Venezuela. De Caracas viajei para o México e desci vagarosamente a América Latina até o Peru. Depois Londres e, finalmente, Edimburgo, onde estudei e trabalhei. Percorri a pé parte da Escócia.
Voltei ao Brasil para ingressar no movimento da anistia política. Deste grupo saiu o MM, um dos movimentos feministas de Minas Gerais. Nós, mulheres da minha geração, somos umas idealistas aventureiras, amorosas irrecuperáveis, e continuamos acreditando que podemos modificar o mundo.
A TEMÁTICA DO INAPREENSÍVELNa apresentação de um de seus livros, Sete histórias para sacudir o esqueleto, a senhora instrui o leitor da seguinte forma: “Essas histórias você pode levar, que o meu pai era o contador. Agora elas são suas. Aumente um ponto. Ou dois. Ou três!”. A tarefa de recontar é bastante forte em sua obra. Por que se interessa em voltar a histórias centenárias?Embora tenha nascido em Belo Horizonte, venho, por parte de pai, de uma família de fazendeiros de Bom Despacho, uma região de quilombos. Meu avô materno imigrou aos 11 anos para o Brasil, e aqui ficou sozinho. Seus pais permaneceram em um vilarejo no sul da Itália. Preciso desse meu passado recente e também do meu passado ancestral para compreender o que sou hoje. A gente se alimenta na bateia do tempo. Recolho das histórias que ficaram as que me ensinam a enfrentar a minha própria aventura.
A senhora já citou a Bíblia como inspiração para O cântico dos cânticos. Também em João Felizardo estão ali reflexões filosóficas, espiritualistas. Que espaço ocupa a espiritualidade em suas criações?Acredito em um deus que se chama Nenhum ou Nada e por isso também se chama Todos e Tudo. Além disso, já não sou jovem e tenho uma doença crônica. Preciso refletir sobre a morte e, portanto, sobre a superação do meu eu pessoal.
O que Psiquê traz de amadurecimento de todas essas referências de sua carreira? Psiquê é um mito de travessia e individuação, para usar um conceito de Jung [Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço fundador da psicologia analítica]. Como Psiquê, cada criança enfrenta o abismo diante do desconhecido. Lança-se ao amor sem conhecer o seu rosto e acende luzes proibidas. Depois aprende a tarefa das formigas para sobreviver. A maleabilidade dos juncos à beira das águas para não se quebrar. A distanciar-se como um pássaro para compreender os perigos. Muitas vezes, desce ao seu inferno pessoal, porque a vida não é fácil. Precisamos todos dessa travessia para entendermos o que carregamos em nós – na falta de outra palavra, eu chamaria de divindade.
Seus textos são, em geral, singelos e profundos ao mesmo tempo. A impressão que fica é a de que, em poucas linhas, há todo um universo de temas e referências, mas num tom minimalista, quase etéreo. Como dizer tanto com tão pouco? Isto é influência da linguagem poética?(Você me dá uma excelente oportunidade para agradecer ao poeta Augusto Massi e à editora Isabel Coelho, que trabalharam na edição de
Psiquê. As interferências e sugestões que recebi desses amigos foram muito preciosas. Quero também agradecer à querida Virgínia Mata Machado, que sempre lê e revisa meus textos).
Gostaria de ser simples em tudo. Simplicidade é a coisa mais bonita do mundo. Ser simples nos ajuda a ser inteiros. Além disso, a simplicidade permite que eu me aproxime do meu leitor predileto: a criança. Quanto ao fato de escrever poesia, sem dúvida a poesia educa. Economia, contenção vocabular é também adensamento.
Parece haver ainda outro ponto em comum entre ambos os livros: a redenção dos personagens, não sem antes percorrer um longo caminho – ou seja, o percurso do sujeito parece ter um grande peso em suas histórias. Como vê isso?Não é sempre assim?
A senhora sempre recupera a lembrança da infância do céu noturno, estrelado, que está representado em Psiquê pela capa do livro. O que esta visão representa?(Ah! A linda capa desenhada pela designer Maria Carolina Sampaio da equipe da Cosac Naify! De alguma forma já devia estar dentro dos meus desenhos, esperando uma pessoa tão criativa quanto essa moça aparecer).
O céu estrelado me lembra que faço parte de um universo sem fim. Quando criança, era uma experiência de êxtase e terror. Minha mãe tinha a mania de falar: somos pequenas pulgas na cabeça de um alfinete. Essa frase me dava a sensação de ter sido abandonada no fundo da floresta.
Psiquê é retratada por meio de sombras, pois não pode ser descrita nem pintada. As sombras poderiam significar, também, os nossos desejos ocultos que se revelam quando menos esperamos?
Eu estava proibida de desenhar Psiquê que, conforme Apuleio, o primeiro a anotar este mito, era tão linda que seria impossível descrevê-la. Também Eros, um deus, não pode ser visto por uma mortal. Desenhar os dois personagens através de sombras era meu único recurso.
Enquanto fiz os desenhos, vi a mim mesma espelhada na tela do computador e compreendi o tanto que me confundia com a história. Adorei a página prateada que foi acrescentada ao livro, porque imaginei o leitor se vendo refletido ali e fazendo o mesmo.
No último desenho decidi dar pele e humanidade aos personagens: eles mereciam, não é?
As sombras escondidas são outras: se o leitor olhar com cuidado, vai descobrir que a cama dos amantes é ora um campo de flores, ora um mar ou o céu estrelado:

Que os dejetos no rio foram copiados da fotografia dos sapatos deixados ao lado dos fornos nos campos de concentração:

Que as colunas do castelo são troncos e raízes de árvores:

Também usei asas de borboleta para desenhar todo o castelo, mas não é visível. Em grego Psiquê é a palavra para borboleta. O último alento: antes de morrermos, uma borboleta nos escapa.
Podemos estabelecer algum tipo de aproximação entre Psiquê e O cântico dos cânticos?Recorrendo mais uma vez a Jung, há em ambos a questão da anima e do animus. Podemos ler as duas histórias como integradoras da personalidade humana. Os dois livros têm também um enredo em comum, o da busca amorosa.
A TECNOLOGIA NA PONTA DO LÁPISSeu primeiro livro, O fio do riso, foi ilustrado a lápis de cor, com um texto rimado contando uma viagem por um fio de telefone. Hoje, a senhora adota o computador como ferramenta de trabalho, mas já disse que desenhar com o mouse acentua sua falta de destreza de forma interessante. Qual é a sua relação com a tecnologia?Para você ver: comecei meu namoro com a tecnologia pelo telefone com fio. Mas foi-se o tempo em que o mouse acentuava a minha falta de destreza e com isso eu conseguia um traço quase tão livre quanto o de uma criança.
Hoje uso mesa e caneta digitalizadora, o tablet, que me dá mais controle do que o lápis e o papel.
O uso do computador provocou uma revisão nos seus conceitos de ilustração?Não sei. Mas o computador é um bom professor. Ao contrário do papel, que se fere rapidamente sem perdão, o computador não se incomoda com experimentações. Ensina também, entre outras coisas, a enorme diferença entre as cores-luzes e as cores de impressão. Acaba ampliando nossa possibilidade de controlar o resultado final da impressão.
Não posso esquecer o mais importante: ilustrar inclui o desenho do livro como um todo, desde a escolha do tipo, a mancha de texto, a utilização do formato. No caso de Psiquê tive o prazer de trabalhar com a designer Maria Carolina Sampaio na diagramação. Foi diferente – e melhor – do que acontece normalmente quando faço todo o livro sozinha. Na verdade, trabalho sozinha desde a época da linotipia e da fotocomposição. Mas o computador facilitou tanto! Todas as fontes à mão, todas as entrelinhas e separação entre letras para experimentar, sem custos nem esperas.
Depois do computador, a senhora retomou os lápis e pincéis profissionalmente?Sim, durante algum tempo. Sempre para fazer livros. Queria aproveitar a passagem da página e o ângulo das folhas em movimento. Para isso, o boneco de papel funciona melhor que o computador. Além disso, ainda conseguia um melhor resultado com os pincéis não virtuais. Espero ter superado esse momento com
Psiquê, cujas imagens foram desenhadas a partir de fotos e colagens. Trabalhei com o programa Photoshop, com uma resolução alta para poder fazer as distorções que queria e usar filtros sem perda de definição. Desenhei com a mesa digitalizadora todo o tempo.
A senhora mesma escreve, ilustra, e desenvolve seu site. É algo divertido? Gosta de controlar todas as etapas de produção?Sim, me diverte muito. Muito mesmo. Mas a linguagem para interatividade da nova versão do programa que uso, o Flash, é difícil. Estou aqui pensando se enfrento de uma vez por todas os manuais, ou trato de trabalhar e me divertir em grupo.