Qual sua relação com a poesia de Pablo Neruda? O fato de apreciar um poeta facilita a tradução de seus poemas?É algo conflituoso, principalmente porque é uma relação viva. É como um pai que amamos apesar de todos os seus defeitos. Sei que o amo e ao mesmo tempo vejo nele enormes problemas. Às vezes acho até que é mais saudável uma relação assim do que uma admiração “congelada” e limitadora. Quando ele escreve versos como “a luz faz a cama debaixo de tuas pálpebras” eu não só sinto uma vontade grande de ser feliz e de viver, que é o que a poesia sempre me deu, desde criança, como acho até que aprendo a olhar melhor para as faces ao redor. Há momentos, contudo, em que o ideólogo Neruda toma o lugar do poeta e o discurso toma o lugar da poesia. Aí realmente eu me irrito. Como é que um sujeito tão superlativamente dotado para a poesia, que é toda uma viagem ao desconhecido, como disse o Maiakovski, prefere às vezes girar ao redor do conhecido, do batido, do repetido? Os grandes livros de Neruda para mim são
Residência na terra, as Odes, e o
Livro das perguntas, e há mais alguns poemas esparsos ao longo da obra que me tocam profundamente.
E nem posso responder se o fato de apreciar um poeta facilita a tradução de seus poemas porque simplesmente é, para mim, impensável traduzir um poeta que eu não aprecie, que eu não ame. Do Chile, que é uma terra de poetas incríveis, eu já tive a oportunidade de traduzir Neruda e Nicanor Parra, dois poetas quase opostos, com estéticas muito diferentes, mas que se admiravam e se respeitavam.
Para o poeta Robert Frost, a poesia “é tudo o que se perde na tradução”. Em que medida a poesia é algo traduzível? Há limites? Eu não gosto dessa frase, aliás não gosto nem do Robert Frost. Ele parte de uma visão da poesia como algo “sagrado”, “intocável”, como um cristalzinho que qualquer pressão quebraria. O que é óbvio é que há maus tradutores e ótimos tradutores, e tradutores iluminados. Particularmente acho impossível que um sujeito que leia o original da
Balada dos enforcados, de François Villon, e depois leia a tradução que lhe preparou Augusto de Campos, diga que a poesia se perdeu ali. Só se ela se perdeu de amores. Não me lembro agora quem foi o escritor que, quando lhe perguntaram se as traduções de suas obras eram fiéis ao original, respondeu que tinha muita dificuldade de ver sua obra como um “original”, pois o próprio fato de passar para as palavras aquilo que ele tinha imaginado já era uma tradução, e talvez a mais infiel de todas. Quer dizer, o assunto é rico e inesgotável.
Depois de traduzir Jacques Prévert, Antonio Cisneros, entre outros, há algum poeta que você jamais se atreveria a traduzir? Por quê?Jamais me atreveria a traduzir um poeta que eu não admirasse. Porque se trata de um ato de amor.
Qual a maior alegria em ser poeta? E a maior tristeza?A maior alegria, em qualquer circunstância, é amar. E a maior tristeza é não amar. Este é meu único lema, meu único radar. Tornar-me cada vez mais poroso a esse êxtase permanente do viver é toda a orientação de que necessito daqui até o fim da vida.
Ode a uma estrela fala sobre a impossibilidade de esconder ou guardar para si aquilo que existe para ser livre. Acredita que a poesia é um exercício de desprendimento? O que é melhor na poesia é a liberdade de leituras. Poesia está em sentir fantasiosamente vontade de roubar uma estrela ou em efetivamente realizar o gesto ousado de roubá-la? Ou será que poesia está em devolver a estrela roubada? Ou poesia é a estrela que se deixa roubar por um poeta até arrasar sua vida de luz? Ou poesia se dá quando a estrela troca de elemento, troca o ar pela água e deixa de ser um astro no céu para ser um peixe no rio, como um insolúvel reflexo de diamante? Poesia é um exercício de perguntar sem a limitação da resposta única.
Neruda criou odes ao vinho, à cebola, ao tomate e a outras coisas das quais o poeta extrai simplicidade e graça. Para você, como as coisas do cotidiano se transformam em matéria poética?Uma das funções da poesia talvez seja a de desautomatizar nosso olhar para as coisas. Penso agora no “ovo de galinha”, de João Cabral e de
Clarice Lispector. Eles conseguiram fazer com que essa coisa tão comum se tornasse novamente algo estranho, não é? Não há receita pronta para se preparar esse ovo, essa cebola, ou esse tomate. Ou, como dizia Eliot, a única receita é ter muito talento.
Você acaba de lançar Monodrama, após oito anos sem publicar. O que representa esse livro no conjunto dos seus escritos?
Uma mudança. Acho que acertou o ensaísta Eduardo Guerreiro quando, num texto sobre o livro, fala que esses longos anos de silêncio separam duas fases distintas de minha poesia.
Além de poeta e tradutor, você também edita poesia [Carlito é coeditor da revista literária Inimigo Rumor e coordenador da coleção de poesia Ás de Colete, ambas publicadas pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras.]. De maneira geral, quais são as peculiaridades no tratamento da poesia nesses três registros?Monodrama me fez recordar que eu gosto mesmo é de escrever. Traduzir e editar são ótimas atividades para esse tempo morto que é o tempo de não-escrever. Mas só me sinto vivo mesmo quando escrevo. Tradução e edição são atividades com as quais gosto de me nutrir de poesia, com as quais gosto de nutrir os outros de poesia. “Nutrição do impulso”, como dizia o Haroldo de Campos. Mas bom mesmo é o voo depois do impulso.
[Trecho de
Ode a uma estrela (2010), de Pablo Neruda. Tradução de Carlito Azevedo. Ilustrações de Elena Odriozola]
Asomando a la noche
en la terraza
de un rascacielos altísimo y amargo
pude tocar la bóveda nocturna
y en un acto de amor extraordinario
me apoderé de una celeste estrella.
Ao subir à noite
no terraço
de um arranha-céu altísimo e aflitivo
pude tocar a abóboda noturna
e em um ato de amor extraordinário
apoderei-me de uma estrela celeste.