“A articulação texto-imagem-suporte é o que fundamenta o livro ilustrado”
Em Para ler o livro ilustrado, a escritora Sophie Van der Linden discute a ideia de livro ilustrado a partir da relação entre a página branca, o texto e a imagem. Com mais de 300 títulos e quase 600 imagens, exemplifica e classifica os tipos de livro ditos "para crianças", faz um breve histórico e traz depoimentos de profissionais da área. Este é o terceiro título da seção de teoria e história da literatura infantojuvenil da Cosac Naify.
A seguir, confira entrevista exclusiva com a autora para o Portal Cosac Naify.
Sophie Van der Linden estará no Brasil em junho para palestras e sessão de autógrafos.
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De que forma e por que você começou a se interessar pelo livro ilustrado?Desde a adolescência, eu era apaixonada pela relação texto-imagem na pintura, nas histórias em quadrinhos, no cinema. Eu também me interessava pelos livros ilustrados, e ao longo da minha formação descobri que poderia estudá-los sob um ponto de vista acadêmico. Orientei meus estudos nesse sentido, embora efetivamente eu nunca tivesse feito um curso de literatura infantil. A semiótica, e particularmente a semiótica aplicada aos quadrinhos, foi o cerne do meu aprendizado.
A questão de o livro ilustrado ser um gênero varia de estudioso para estudioso. No seu livro, você não deixa essa questão muito clara, mas aponta a pluralidade de olhares sobre ela. Por que é tão difícil definir isso?Eu apresento diferentes opiniões, mas a minha é extremamente clara: o livro ilustrado é uma forma de expressão completamente distinta e não só um gênero!
Um de seus primeiros pontos é explicitar o que o livro ilustrado não é, ao invés de defini-lo. Por que considera o livro-imagem um tipo de livro ilustrado, e não algo diverso, já que a relação texto-imagem não existe nele?Para mim, a articulação texto-imagem-suporte é o que fundamenta o livro ilustrado. E, frequentemente, a questão do suporte é negligenciada (pelos estudos de ilustrações, estudos de narrativa). O livro-imagem realiza a articulação imagem-suporte de modo mais específico. Mas, fato é que obedece a regras e impõe um modelo que o diferencia de modo bastante preciso do livro ilustrado, o que faz com que o livro-imagem em si mesmo constitua uma forma de expressão completamente distinta.
Sobre a abordagem, por que partir “da imagem e do texto para alcançar uma visão global do livro”, e não o contrário? Como a visão do detalhe estrutural ajuda a entender aspectos mais gerais do livro ilustrado?É um método para exprimir minha proposta. Mas é verdade que nossa leitura do livro ilustrado muitas vezes funciona assim. Lemos o texto, observamos imagens, depois prestamos mais atenção às imagens, e, por fim, juntamos tudo. Raros são os leitores que, na primeira leitura, prestam atenção à evolução das cenas nas páginas de
Onde vivem os monstros. As releituras incitam este exame mais completo do livro ilustrado.
Um dos pontos sobre os quais se debruça mais detalhadamente é a produção de pequenas editoras francesas na década de 1990, que diz ser revolucionária, como a Rouergue de Olivier Douzou. Que papel estas editoras tiveram na França? Houve repercussões no mundo?Não sendo necessariamente revolucionárias, da Delpire, nos anos 1950, à MeMo, hoje, as editoras fizeram com que o livro ilustrado avançasse consideravelmente em dois pontos fundamentais: os leitores e o lugar da imagem. Nesse sentido, é verdade que temos na França uma produção bastante visual e que transcende a cultura do público infantil.
Qual a importância de acrescentar a seus argumentos depoimentos de autores, ilustradores, editores e designers? De que forma eles enriquecem seu livro?Eu sempre concebi meu trabalho crítico no diálogo com outros autores, é um enriquecimento mútuo. Quando falo de modo aprofundado com Anne Brouillard ou com Béatrice Poncelet sobre o trabalho delas, chego a uma compreensão de suas obras que não seria possível somente pela análise dos livros.
Como foi o processo de definição dos títulos a serem analisados? E a criação das categorias: partiu da análise dos livros ou os exemplos se encaixaram em categorias predefinidas?O que permitiu a criação dessas categorias foi uma observação geral da produção. Eu também atentei para o conjunto dos livros ilustrados publicados durante um ano (em 2002 foram lançados por volta de 3000 títulos). Depois, para a redação, pesquisei os exemplos que me pareciam mais significativos.
Um ilustrador brasileiro, Odilon Moraes, diz que os livros ilustrados com texto são um local de encontro entre adultos e crianças: os primeiros, mais acostumados ao universo da escrita que ao da imagem, precisam aprender com os pequenos que ainda não dominam tão bem a palavra, mas cuja leitura de imagens é mais instintiva. Assim, duas gerações se encontram e aprendem junto. Você concorda?Completamente. A leitura do livro ilustrado é antes de tudo “partilhada”. Alguns falam também do leitor “bicéfalo”! Além disso, muitos criadores integram ao seu processo de criação essa dimensão de dupla leitura. Dessa maneira, Claude Ponti, por um lado, multiplica os detalhes das imagens, por saber que a criança passa um bom tempo observando-as; por outro lado, introduz muitas referências no texto, visando o leitor adulto. O interessante disso é quando a criança mostra ao adulto coisas que ele não havia percebido, pois estava concentrado no texto. De repente, a criança se torna um leitor melhor que o adulto e isto é muito importante para ele.
Como é a experiência de ler junto com suas filhas?Apesar de todos os esforços do mundo em interferir nas minhas atividades, elas estão florescendo como pequenas críticas! Nós conversamos muito sobre os livros, elas adoram apontar esta ou aquela relação entre um livro e outro que lemos. Mas o mais interessante é a afirmação de suas próprias escolhas – às vezes contrárias às minhas. Vez ou outra, elas reinvindicam séries muito comerciais, e eu não tenho outra escolha a não ser deixá-las ler. Em contrapartida, como elas não compartilham dos meus interesses, quase sempre o aprendizado se torna muito rico. Desse modo, elas me ajudaram a diferenciar entre os livros ilustrados para serem lidos juntos e aqueles que são destinados apenas aos adultos – que oferecem uma visão da infância que corresponde as suas próprias infâncias, mas nos quais as crianças não se reconhecem plenamente.
No fim de 2010, uma matéria do The New York Times apontava que muitos pais, preocupados com avaliações escolares padronizadas e cada vez mais rigorosas, “começaram a pressionar seus filhos em idade pré-escolar e na primeira série a abrir mão dos livros ilustrados em favor de livros com mais texto e histórias divididas em pequenos capítulos”. O que acha disso? Como desconstruir a ideia de que livros ilustrados são apenas para crianças pequenas?O problema é que o estudo da
OCDE publicado no mesmo período sobre a relação entre a leitura e o resultado escolar não foi suficientemente divulgado. De fato, as conclusões da pesquisa são as seguintes: quanto mais uma criança tem prazer em ler e mais ela diversifica suas leituras, maiores são as chances de bons resultados!
Como é editar a revista Hors-Cadre(s)? Qual a ideia principal da publicação?A ideia da revista surgiu com a Universidade de verão sobre a imagem para a infância [
L’Université d’été de l’image pour la jeunesse] que eu promovi no Instituto Internacional Charles Perrault. Eu queria criar um espaço de discussão e encontro interdisciplinar entre crítica e criação. Assim, nós organizamos debates, encontros, eventos, um espaço em que a fala dos críticos pudesse encontrar a dos criadores. Houve um ano em que organizamos as jornadas [
l’université] em torno da questão das fronteiras (de público, de gênero, etc), o título era “
Hors-Cadres” [“fora do quadro”]. Eu queria continuar a aventura de um outro modo, e, assim, pedi aos críticos, aos criadores e aos editores para criar a revista.
Como você definiria a discussão futura sobre o livro ilustrado? Onde será que vai chegar? Qual sua opinião, por exemplo, sobre o livro How picturebooks work, de Maria Nikolajeva?O livro de Maria Nikolajeva é um marco fundador da pesquisa moderna sobre o livro ilustrado! Como essa discussão será desenvolvida? Será desenvolvida em função do próprio livro ilustrado! Eu mesma quis escrever
Para ler o livro ilustrado porque as teorias de Maria Nikolajeva dificilmente são aplicáveis ao livro ilustrado francês – mais visual, menos narrativo, mais global que o livro ilustrado inglês. Mas hoje, passados cinco anos, o livro ilustrado evoluiu muito, e é necessário reatualizar o ponto de vista em função dos desenvolvimentos da produção!
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Tradução: Anita Silveira