Cartazes musicais



Ilustração
Detalhe de cartaz de Kiko Farkas






Lançado em: março/2010
entrevista: Kiko Farkas


Cinco perguntas para Kiko Farkas


O premiado designer brasileiro Kiko Farkas criou quase 300 cartazes, entre 2003 e 2007, para os concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Boa parte deles está agora reunida no livro Cartazes musicais. Nestas cinco perguntas, Kiko fala sobre sua carreira e fontes de inspiração.


Por Daniel Trench


O que pode ser percebido como denominador comum em seus projetos?

Em qualquer trabalho que eu tenha realizado, sempre busquei a harmonia, o humor e a beleza, como nos trabalhos do (grande e inatingível mestre) Saul Steinberg, por exemplo. De maneira às vezes sistemática, às vezes lírica, com doses variáveis de humor e, na maioria das vezes, colorida. Mas nem sempre: o preto-e-branco muitas vezes serviu de porto seguro ao qual voltava depois de incursões arriscadas. Costumo deixar que o cotidiano invada o meu trabalho. Não tenho preconceitos nem obedeço a dogmas estéticos, teóricos. Tudo que cruza meu caminho é alimento, deglutido, digerido e depois expelido. É sempre um movimento sensível no início, seguido de experiências de linguagem e sistematização.

Na ideia de projeto há uma vontade de controle total sobre o método criativo e produtivo. Nesse sentido, qual é o espaço para o erro no seu processo de criação?

Dois dos meus grandes ídolos fizeram do "erro" sua virtude estética. Thelonious Monk e Van Gogh se apropriaram da realidade e a recriaram de forma absolutamente particular. A arte que produziram nos obrigou a rever nossos critérios de beleza. Não é o erro de derrubar o pote de tinta sem querer ou de incluir uma nota ao acaso, mas de procurar novas e estranhas combinações de cores ou sons. Foram pessoas "erradas" que construíram universos absolutamente coerentes e complexos, combinando controle absoluto e ao mesmo tempo abertura. As descrições de arranjos cromáticos que Van Gogh faz nas cartas a seu irmão Théo são de um rigor e complexidade inacreditáveis.

Em um intervalo entre 2003 e 2007 foram projetados quase 300 cartazes. Como foi essa dinâmica? De que maneira seus assistentes contribuíram?

Os cartazes foram criados num ritmo muito intenso, então eram como aspiradores de tudo que ocorria na minha vida e na do estúdio. O mais interessante foi a migração das ideias, ou mesmo de imagens, de um cartaz para outro. Nesse processo, a participação dos assistentes foi muito importante. Alguns cartazes foram criados por eles sob minha direção, como acontece frequentemente aqui no estúdio. Tenho muito prazer em dirigir meus assistentes. Há neles muita qualidade e informação, mas existe algo (experiência talvez) com que posso contribuir bastante. Talvez eu tenha uma visão mais completa de todo o processo pelo qual um projeto passa, enquanto eles se concentram mais naquilo que está na tela. De qualquer modo a participação dos assistentes é muito importante, tanto que os trabalhos são sempre creditados.

A grande maioria dos projetos que produziu é voltada ao universo cultural. Foi uma escolha?

Não foi algo deliberado, apenas foi acontecendo. Acho que, de certa forma, acabamos sendo escolhidos. Talvez a maneira como montei minha estrutura de trabalho, um estúdio pequeno, tenha influenciado nisso. Acredito que no campo cultural há mais espaço para expressão pessoal e, como meu trabalho é mais autoral, essa talvez tenha sido a principal razão.

O João de Souza Leite, em texto publicado no livro, além de buscar nos cartazes referências históricas ao design, os aproxima do universo das artes plásticas.

Sempre me considerei um técnico, daí o nome do estúdio, Máquina, que se apoia em uma visão funcionalista do design. Nunca me identifiquei com aqueles designers que se consideram artistas geniais. Ao montar minhas palestras e workshops, e também depois de ver a palestra que a Paula Scher fez no TED [associação norte-americana que organiza discussões em torno dos temas Tecnologia, Entretenimento e Design], comecei a olhar para as coisas importantes que fiz e notei que existe nelas um viés marcadamente "artístico". É uma surpresa que me deixa confuso. Não que isso tenha se tornado uma preocupação, mas as minhas convicções foram abaladas. Ainda não sei bem o que fazer com isso.