Anna Kariênina










Lançado em: novembro/2005
entrevista: Rubens Figueiredo


Rubens Figueiredo comenta sua tradução de Anna Kariênina


Por Julia Bussius

O clássico da literatura universal Anna Kariênina, de Liév Tolstói, foi traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo para a Cosac Naify. Além do apuro no tratamento linguístico, com aproximações à prosódia do russo, o volume traz apresentação e notas de rodapé assinados pelo tradutor, uma árvore genealógica dos principais núcleos familiares e ainda uma lista completa de personagens, que muito enriquecem a leitura do monumental romance.

Considerado um dos principais tradutores da língua russa para o português, Rubens Figueiredo é também contista e romancista - seu livro Barco a seco [Companhia das Letras, 2001], recebeu o prêmio Jabuti em 2002 -, professor de português e teoria literária e editor da revista de prosa Ficções. Em parceria com esta editora, já elaborou traduções de Tchekhov e Turguêniev e possui novos projetos em andamento. Na entrevista a seguir, ele nos conta sobre o trabalho gigantesco e cuidadoso que realizou para este livro.



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Qual a peculiaridade dessa nova edição de Anna Kariênina?
Além de apresentar o texto integral do romance, representa um esforço de transpor para o português os traços de linguagem mais marcantes do original russo.

De que maneira foi possível transpor as minúcias do russo para o português? As edições brasileiras anteriores falharam em algum sentido?
Dois pontos podem ser ressaltados. A repetição de palavras e de expressões e as frases longas e, por vezes, dispersivas do original. As traduções existentes (e não só para o português) primam por empregar sinônimos a fim de evitar repetições, e também por subdividir em frases menores os períodos longos e muito armados de Tolstói. Tenho a convicção de que o leitor pode ter uma ideia bem mais coesa do significado geral de um livro tão abrangente com a ajuda de uma tradução que preserve traços como esses do original.

Sob quais aspectos o suposto moralismo de Tolstói (segundo alguns críticos literários) aparece no romance? 
Na época em que escreveu Anna Kariênina, entre 1873 e 1877, Tolstói ainda não havia sofrido a sua célebre crise religiosa e moral. Ela veio logo a seguir. Vale a pena observar que o personagem Liévin (tão importante quanto Anna Kariênina, ou mais, e que representa em larga medida o próprio Tolstói) passa o livro inteiro às voltas com uma crise. Ele se interroga acerca de tudo - desde assuntos agrícolas até questões cósmicas. E chega ao fim sem encontrar resposta. O referido moralismo de Tolstói não afeta a abrangência do romance. Primeiro porque, no caso, ele se apresenta em forma de uma crise contínua, como vimos. Em segundo lugar, porque mesmo após a transformação moral de Tolstói, suas posições sempre foram ambíguas e oscilantes demais para configurarem um sistema de ideias ou uma doutrina coerente.

Como é construída a personagem de Anna? O modo como Tolstói vê a mulher inaugura algo novo na literatura russa?
Há um grande número e uma grande variedade de personagens femininas em Anna Kariênina. Desde camponesas até nobres. Anna é apresentada como uma pessoa dotada das melhores virtudes. Seu desastre -- isso fica bem claro -- decorre de um choque entre sentimentos naturais e generosos contra leis e costumes tacanhos, esmiuçados no romance até a exaustão. Impressionou-me, na parte VII, o retrato da desagregação mental em que a vida de Anna se desfaz. A meu ver, são páginas sem paralelo na literatura.

Em breves linhas, qual é a Rússia vista por Tolstói em Anna Kariênina? Como ele retrata as diferentes classes existentes na sociedade czarista?
É um país em que parte da elite se esforça em dar curso a um processo de modernização, à luz dos modelos oferecidos pelos países da Europa ocidental. Essa modernização, porém, não consegue alcançar as massas miseráveis das vastas zonas rurais, que continuam a viver como na Idade Média. A massa de camponeses, em sua inadaptação ao mundo moderno, projeta uma imagem de estagnação, o que por vezes, em Anna Kariênina, sugere um forma enigmática de resistência, a qual intriga Tolstói visivelmente. A elite se divide entre o mundanismo, a predação da riqueza do Estado e algum esforço empreendedor. A par disso, percebe-se a ascensão de banqueiros e industriais e a decadência dos tradicionais senhores de terra.

Quais as principais diferenças de seu trabalho neste livro em relação às suas traduções de outros escritores russos para a Cosac Naify, as obras Pais e filhos, de Ivan Turguêniev, e O assassinato e outras histórias e A gaivota, de Anton Tchekhov?
Creio que o esforço principal é sempre o de preservar o sentido das preocupações linguísticas do original. Cada autor tem tipos diversos de preocupação, dirigem seu trabalho para um sentido ou outro. Eu tento compreender esse sentido e acompanhá-lo.   
 

De que modo o trabalho como ficcionista influi em suas traduções?
Tenho dificuldade para avaliar. Os livros que traduzo, e isso é bem claro, deixam marcas em mim e, provavelmente, também no que eu escrevo. No geral, a impressão que tenho é a de que escrever um texto de minha autoria e traduzir um livro de outro idioma para o português terminam por ser uma única atividade. A partir de pontos diferentes, as duas modalidades de trabalho convergem e se encontram - não apenas no ato concreto de pôr as letras e as palavras em sequência, mas ainda um pouco antes disso. Quero dizer, parece haver um campo, ou um intervalo, em que traduzir é escrever e escrever é traduzir.

Seus próximos projetos na Cosac Naify são adaptações para o português de duas obras de Górki: Infância e Minhas universidades. Poderia comentar um pouco sobre esses títulos e a experiência de traduzi-los?
Estou terminando agora a tradução de Infância, o primeiro volume da trilogia autobiográfica de Górki, que se completa com Ganhando meu pão e Minhas universidades. Essas obras, escritas num intervalo de aproximadamente dez anos, relatam a infância, a adolescência e a juventude de Górki, nas décadas de 1870 e 1880. Embora, em vida, Górki tenha ganhado celebridade pelas peças de teatro e pelos contos e romances, o tempo parece ter mostrado que são as suas obras autobiográficas que lhe garantem um lugar de destaque na literatura mundial. Embora eu já conhecesse o livro Infância, a experiência de traduzi-lo me trouxe surpresas tão grandes que não creio exagerar ao dizer que foi como descobrir um livro novo. E mesmo no trabalho prático de tradução, me surpreendi com a impressão muito rara de ter conseguido ajustar a língua da tradução à linguagem rápida, seca, saltada da narração de Górki, e também à fala ríspida, precária e engenhosa de muitos personagens.