Salas e abismos


Foto: Paulo Rodrigues

Ilustração


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Série Maçãs falsas (2008)


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Lançado em: fevereiro/2010
entrevista: Waltercio Caldas


O canto da sala


Waltercio Caldas fala à jornalista Daniela Name sobre seu novo livro, Salas e abismos, que reúne 25 instalações, ou “salas”, como ele prefere chamá-las. O artista comenta os conceitos aparentemente paradoxos que dão nome à edição, descreve obras até agora inéditas no Brasil, como Quarto amarelo (1999), e reflete sobre a unidade poética presente em seu trabalho: “minha intenção sempre foi fazer com que os lugares surjam, cantem e celebrem sua capacidade inicial de aparecer”.

Caldas é considerado um dos artistas de maior renome do país, com exposições feitas em diversos lugares do mundo. Representou o Brasil na Bienal de Veneza, em 1997, e suas criações estão nos acervos dos principais museus internacionais. Sobre sua obra, a Cosac Naify publicou a monografia Waltercio Caldas (2000) e Manual da ciência popular (2008).

Entrevista para Daniela Name


Qual a relação entre a exposição Salas e abismos, em cartaz no Museu Vale (Vila Velha-ES), e a edição em livro?
A exposição apresenta onze ambientes e tem mais de mil metros quadrados de área, o que me deu a possibilidade de montar trabalhos grandes e criar um percurso de visitação. O espectador visita uma sequência predeterminada de salas. Seguir este percurso é esclarecedor, pois cada uma destas salas tem sua própria poética, mas também interfere na seguinte. Sendo assim, a exposição complementa os próprios trabalhos.  Já no livro, foram reproduzidos 25 ambientes, alguns montados no Brasil pela primeira vez. Tentamos criar um novo espaço, um espaço impresso, digamos, e também aí há a intenção de que uma obra pode e deve interferir na experiência de outra.

O título parece fazer uma síntese de seu trabalho. Como se dá a relação entre ideias aparentemente tão díspares, as salas, ambientes fechados e conclusos, e os abismos?
 Fiquei muito contente ao ver a reunião destes trabalhos e me surpreendeu a evidência deste fio invisível que une todas as imagens. Em um dos textos, a [crítica de arte] Sonia Salzstein diz que as obras são sempre contemporâneas, “no sentido forte do termo”, talvez porque não estejam submetidos apenas às questões da época.  Ao longo de todos estes anos, minha intenção foi fazer com que os lugares surjam, cantem, e celebrem sua capacidade inicial de aparecer. O “lugar” é a questão fundamental. Meus esforços são no sentido de criar objetos que se assemelhem ao lugar que ocupam, formando um conjunto que só ganha sentido a partir da relação entre eles. Estas salas desvelam novas situações ambientais.  A partir daí, em suspensão, o visitante encontra sua própria visão antecipada na vertigem, no abismo.

Paulo Venâncio Filho escreve sobre a capacidade de seu trabalho “aparecer”, isto é, a maneira como o ambiente é montado e aparece aos olhos do público, com a exposição se confundindo com a própria obra. Ele cita como as antigas caixas, que você fazia na virada dos anos 1960 para os anos 1970, foram se transformando nas salas. Como se deu este processo?
Trato os ambientes como esculturas.  No início estas relações de aproximação e contradição se davam dentro de caixas [caso de Condutores de Percepção, de 1969]. Aos poucos, a escultura foi se confundindo com o espaço.  Nas grutas de Lascaux, pesquisas revelaram que não havia vestígios de fuligem no teto das cavernas onde foram feitas as pinturas. Se aquelas figuras foram pintadas no escuro, vejo aí uma tentativa inequívoca de expandir o mundo, representando-o; aquela sala, aquela gruta queria ser mais ampla do que o espaço físico que a limitava. Tento algo semelhante: criar novos limites para os objetos a partir do espaço que os constrange ou, quem sabe, um objeto tal qual a pele de sua presença.

Voltando ao livro: ele também é uma visita à sua carreira ao longo dos anos. Como questões que te acompanham há tempos foram percebidas agora?
Creio haver um núcleo invisível que percorre todas estas obras, um núcleo que é a interseção dos meus desejos inconfessáveis. Mesmo em salas realizadas em épocas distintas, este núcleo está lá, esclarecendo diferenças e semelhanças. Mas há questões de cada período que aparecem com mais clareza. Em Ping ping [1980], ironia e jogo são protagonistas deste trabalho que fala da cegueira. O livro estabelece uma relação interessante entre ele e O silêncio do mundo [2009]. Outro trabalho que fala muito de sua época e até mesmo antecipa as questões de um período é A Velocidade, que apresentei na Bienal de São Paulo, em 1983. As paredes eram forradas por embalagens de chiclete Adam´s alteradas especialmente para a ocasião, sem a logomarca e com apenas as cores correspondentes a cada sabor...

E também se relacionavam diretamente com a escala monumental da pintura deste período, não é? Além de lembrar do pontilhismo do Seurat... 
Havia uma relação com a pintura e como esta era tratada em eventos como as bienais, mas também com as questões industriais e de mercado que foram marcantes na arte desta época. Uma vertigem bem humorada – e critica – sobre a “indústria cultural”.

O livro dá oportunidade aos brasileiros de verem trabalhos como Quarto amarelo (1999), nunca apresentados no Brasil. Este ambiente mostra como você se utiliza coisas muito simples, não?
No texto de apresentação, Paulo Venâncio menciona o fato de minhas operações estéticas não usarem tecnologia. E é exatamente isso: não adultero a natureza de nenhum dos materiais. O aço continua aço, mantém suas características originais, o mesmo acontece com as tintas, as pedras, os fios e os vidros. Em Quarto amarelo, enfatizei a arquitetura do Centro Galego de Arte Contemporánea, em Santiago de Compostella. O vão da sala formava um ângulo e pintei as duas paredes com o mesmo tom. De frente uma para outra, as paredes eram duas imensas regiões, irradiando a cor para o chão e as outras paredes. Os fios de lã que pendiam do teto, também amarelos, prosseguiam no reflexo do chão, mudando a percepção do ambiente arquitetônico.

Paulo Venâncio também relaciona os fios de lã e hastes de aço que sempre fizeram parte de seu léxico visual com os sinais de parênteses. Os parênteses são, ao mesmo tempo, limite e suspensão?
Os parênteses sugerem um lugar além da linguagem e retiram do texto o seu lugar de origem. Tenho uma confiança ilimitada no desconhecido, afinal sempre existirão outras salas e outros abismos.

Os livros sempre foram importantes em seu trabalho. Você criou livros-objeto, trabalhou com palavras e fez obras em torno deles. Qual é a intenção?
Livros também podem ser salas... ou abismos. São maiores por dentro que por fora, mas que se abrem para a suspensão e a vertigem.  Livros são objetos da família dos espelhos e dos relógios. Este livro foi pensado como um espaço gráfico de visitação irrestrita. Um passeio através de palavras impressas.