Apreensões










Lançado em: setembro/2010
entrevista: Bob Wolfenson


Por trás das apreensões


Por Livia Deorsola

Há algumas semanas, por onde passava Bob Wolfenson recebia felicitações pelo ensaio fotográfico da atriz Cleo Pires para a nova edição da revista Playboy, a mais vendida de 2010. Dias depois, no lançamento de seu novo livro Apreensões, na SP-Arte/Foto, ele respondia a perguntas sobre como foi fotografar, Brasil afora, objetos e animais destinados ao contrabando e apreendidos pela polícia. “Transitar entre diferentes mundos é o que me norteia”, explica o paulistano nascido em 1954 no bairro Bom Retiro, antigo reduto judaico da cidade.

Não é a primeira vez que o renomado fotógrafo de moda e de belas mulheres se arrisca a registrar universos tão distintos, como se buscasse a beleza onde a maioria não vê nada além de caos e feiúra: em 2004, lançou pela Cosac Naify o livro Antifachada, com fotografias de edifícios de São Paulo.

Em Apreensões, o resultado gráfico é tão surpreendente quanto o impacto das próprias imagens: as folhas em papel jornal levam impressão ultra-violeta, cuja principal característica é a secagem instantânea, deixando as imagens mais nítidas, vivas e contrastadas.

Ao fotografar, Bob utilizou a técnica de varredura digital para alcançar uma alta definição, podendo assim prescindir de pesados aparatos analógicos. De posse deste armamento leve, viveu uma aventura entre juizes, policiais e delegados de polícia para chegar aos locais em que um outro país se revela. Wolfenson esclarece que seu objetivo não é a denúncia e conta, na entrevista abaixo, os bastidores deste trabalho. Também fala sobre como, após a morte do pai, trabalhou por dez anos com fotografia sem gostar do que fazia até encontrar Bill King, em Nova York.


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Dentre as muitas tragédias nacionais, por que você se interessou pelo contrabando de produtos e animais?
Meu interesse maior era pelo aspecto plástico que as imagens proporcionam, mais do que pelo conteúdo, porque não queria atuar no lugar comum do denuncismo barato. A fagulha foi dada por algumas fotos de produtos contrabandeados que vi nos jornais. Aquilo me pareceu uma instalação de arte contemporânea, mas com algo diferente: há diversas histórias por trás de cada um dos objetos, o que faz com que os significados das imagens se multiplique. Isso ganha ainda mais força ao colocá-las num livro, o que dá uma unidade para o conjunto, pois ele ganha uma narrativa e vira o retrato de uma época, de um país.

Como as fotografias foram feitas? Você contou com a ajuda de quem para ter acesso aos locais das apreensões?
Embora não fosse este o meu objetivo, trabalhei de perto com questões políticas e jurídicas. Sem poder evitar o tema, tive que lidar com o medo das autoridades em me abrir as portas dos locais para que eu pudesse fotografar. Afinal, se por um lado as imagens revelam a eficácia estatal em apreender este materiais, também demonstram a inoperância deste mesmo Estado. 

Não foi fácil conseguir o acesso necessário. O projeto existia desde 2009, mas no fim do ano, depois de tanto tentar uma forma de chegar até o que queria, pensei em desistir. Foi então que recebi a ajuda do meu professor de ginástica. Ele dava aulas para um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo que me colocou em contato com Alex Tadeu Monteiro Zilenovski, juiz do Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária do Estado. Foi o Dr. Alex Tadeu quem me ajudou. As fotos feitas em São Paulo abriram o caminho em outros estados do país e houve muitas vezes em que meu nome era reconhecido pelos policiais e delegados, por causa dos meus trabalhos na Playboy.  Este fato também contribuiu. Estando nos locais, em geral, os policiais me deixavam fotografar em paz.

Não pensou em fotografar o momento das apreensões?
A primeira foto que fiz foi aquela em que aparece um carrinho de supermercado carregado de armas. Esta imagem me deu a certeza do que eu queria dali para frente. Tive a mesma sensação quando fotografei o edifício Copan para o Antifachada.

Antes disso eu cheguei a pensar em registrar o momento em que a polícia atuava, mas desisti da ideia, porque não queria fazer um trabalho jornalístico. Quero é que as pessoas se detenham diante das imagens e, para isso, era necessário um viés altamente plástico, o oposto do fotojornalismo.



Mesmo sabendo o que encontraria pela frente, houve ocasiões em que você se chocou com o que viu?
Tudo é muito chocante. Mas ao longo do trabalho fui me acostumando e este é o problema: a gente se acostuma com o que vê. As cenas mais tristes que vi foram as apreensões dos animais. A foto dos chamados “objetos contundentes” – facas, machados, barras de ferro, porretes – também é tenebrosa, porque os crimes cometidos com elas são muito mais cruéis do que os cometidos com armas de fogo.

Uma das coisas que mais me impressionaram é a destinação dada a estas apreensões. Em geral, é muito difícil que elas tenham um destino útil. Um exemplo é a doação de armas para o exército, um processo tão demorado que, quando é concluído, as armas já se tornaram obsoletas. Ou ainda o problema da madeira ilegal, que apodrece nos depósitos: vi quantidade suficiente para construir uma pequena cidade.

Em que medida o acaso influenciou a produção dessas imagens? Há grandes diferenças no controle dos aspectos como luz, foco etc., dentro e fora de um estúdio fotográfico?
O encontro fotográfico é igual à natureza de todos os outros encontros, é fortuito. Mesmo no estúdio não se tem total controle. De um lado, existem os fatores constantes e uma pretensão de controle, e do outro lado existe o outro. E mesmo quando este outro é um objeto inanimado, existe o caminho até ele. Não houve um plano perfeito para fazer as imagens do livro – tive que lidar sempre com o imponderável, ainda que fosse um trabalho muito controlado, mais pelos outros do que por mim mesmo.

Para dar um exemplo de como um roteiro pode ser inútil, uma das surpresas que tive foi no Mato Grosso, onde achei que encontraria toneladas de madeira ilegal, mas não foi nada disso. No lugar, encontrei caminhões apreendidos, que resultou numa imagem muito boa.




O que você não pôde fotografar?
Havia regras que impediram que eu fotografasse exatamente aquilo que queria. Por exemplo: em Belo Horizonte, houve uma apreensão de drogas em que os pacotes de cocaína já estavam prontos paras serem incinerados, não podiam ser abertos. Eu gostaria de ter fotografado o pó bruto, mas não consegui. Também vi nos jornais uma apreensão de caça-níqueis em Goiânia e pensei: “Não acredito que perdi esta foto!”.

Mas se você não coloca um ponto final no trabalho, ele fica martelando na cabeça, porque as possibilidades são inesgotáveis. Uma exposição e um livro ajudam a finalizar um projeto e te libera para outras ideias. 



Quando se pensa em seu trabalho autoral, fala-se dos livros Antifachada e A caminho do mar [fotografias do parque industrial de Cubatão]. Quais as aproximações que podem ser feitas entre esta vertente e seu trabalho na moda?
Transitar entre diferentes mundos é o que me norteia e, no caso da fotografia, um trabalho não existiria sem o outro. Pragmaticamente, meu trabalho na moda me dá uma espécie de salvoconduto para fazer coisas novas e ser o meu próprio cliente, colocar em prática projetos muito particulares, que nascem unicamente do meu desejo.

Além disso, na fotografia de moda também é possível exercer a autoria; do contrário, todos estariam numa vala comum. O que me interessa neste tipo de trabalho é o teatro, a crônica, a ficção. Como não sou um fotógrafo puramente técnico, gosto de unir direção, ideia, história, um pouco de tudo.


Você cursou ciências sociais na USP, teve uma educação politicamente ativa e entrou em contato com a militância estudantil. Qual é a sua relação com a política hoje? Como você vê a relação entre arte e política na contemporaneidade?
Gosto de uma frase do Antonio Dias, algo como “Quanto mais arte, melhor. Quanto mais política, pior”. Unir política e arte é tudo do que quero distância. Mas claro que tratar de sentimentos, emoções, do vazio, da tristeza, da alegria também é adotar uma postura política. De qualquer forma, a minha formação me ajuda a não cair no deslumbramento, algo tão comum na minha profissão.

Seus pais tiveram alguma influência sobre sua profissão? Como sua trajetória familiar te formou?
Meu pai morreu de câncer de pulmão quando eu tinha 15 anos e logo quis começar a trabalhar. Então fui parar num estúdio fotográfico, mas aquilo não me dizia nada. Não era uma convicção ou uma vocação. Fui quase arremessado nisso e demorei dez anos para gostar da coisa.

Qual foi o ponto de virada? Como você se desenvolveu desde então?
Quando eu já tinha uma carreira, tive um assistente mais novo do que eu que depois foi morar em Nova York e voltou uma fera de lá, sabendo mais do que eu. Pensei: “Como vou ficar para trás deste moleque?”. Fiz as malas e fui para lá também. E então me apaixonei pela fotografia.
 
De lá para cá, minha linguagem mudou muito. Ontem fui rever uma foto que fiz do Wesley Duke Lee [artista plástico paulistano morto em 13/9/2010], em 1988, e não gostei do que vi. É estranho olhar os trabalhos antigos. Os mais pretensiosos sempre parecem mais datados; gosto mais dos mais ingênuos, daqueles feitos quando eu tinha meus 15 anos.

Em Nova York você trabalhou como assistente do Bill King. O que aprendeu com ele?
Ele era um dos cinco maiores fotógrafos de moda na época, ou seja, estava em contato com a máxima excelência da fotografia, além de poder conviver com a grande dimensão humana que ele tinha. E, como bom judeu, eu o observava e aprendi rapidamente a dirigir um negócio – Bill era um grande businessman.

Mas para formar um repertório, é preciso andar muito. Tenho uma amiga que perguntou ao meu assistente, que trabalha comigo há pouco tempo: “Você ainda acha que seu chefe é bom?”. Ele respondeu “sim, claro”, e ela replicou: “Daqui a seis meses a gente volta a conversar sobre isso.”.  Vamos ver o que ele vai responder.


Edifício Copan, 2004, do livro Antifachada, de Bob Wolfenson