O menino que mordeu Picasso










Lançado em: março/2011
entrevista: Antony Penrose


"Vida e trabalho eram inseparáveis para Picasso"


Em O menino que mordeu Picasso (Cosac Naify, 2011), Antony Penrose revisita a infância para resgatar os momentos vividos ao lado de um grande amigo: Pablo Picasso. Seus pais – a fotógrafa Lee Miller e o pintor Roland Penrose – conheciam o artista de longa data e o recebiam frequentemente em casa, na Fazenda Farley, em Sussex (Inglaterra), mesmo endereço onde “Tony” – hoje com 63 anos – ainda mora. É de lá que ele responde, por e-mail, a esta entrevista exclusiva para o Portal Cosac Naify.

©Lee Miller Archives, Inglaterra 2010
Picasso e Tony na Fazenda Farley, em 1960


Como e quando seus pais conheceram Picasso? Como era a amizade deles?
Meus pais conheceram Picasso entre o final dos anos 1920 e início da década seguinte, provavelmente circulando entre vários grupos de artistas que viviam juntos. Para meu pai, a amizade realmente teve início no verão de 1936, quando passaram juntos férias na praia, no sul da França, com mais alguns amigos. No ano seguinte, retornou à região com minha mãe – foi quando Picasso pintou seis retratos dela e um de meu pai.

Como você se deu conta de quem era Picasso e o que ele representava para a Arte?
Entendi que Picasso era uma pessoa extraordinária desde o começo de minha convivência com ele. Mas passei a compreender o quão importante ele era para as demais pessoas somente depois de ver a surpresa dos meus amigos do colégio quando contei que acabara de visitá-lo durante as férias. Ainda não tinha 14 anos nesta época.

Você conta no livro que Picasso adorava brincar e deixava as crianças se divertirem com suas coisas. Você se recorda se Picasso ficava inspirado para criar nestas ocasiões?
Picasso estava constantemente inspirado para criar – vida e trabalho eram inseparáveis para ele e, mesmo quando não estava fazendo nada, as ideias para os projetos seguintes surgiam e evoluíam.

©Succession Picasso/ DACS 2010


Em 1960, Picasso soube que você havia sido transferido de escola e que estava triste vivendo longe de seus pais. Fez, então, uma ilustração para te presentear. Como você entendeu este desenho na época?
Para mim, esta imagem era uma festa acontecendo ao redor do touro. As flautas parecem distraí-lo – tínhamos um touro na fazenda, que às vezes aparentava estar triste, então esta me parecia uma grande ideia para animá-lo. Sempre enxerguei o centauro ao lado com um grande buquê de flores, que imaginava ser uma oferta para o touro. De certa forma, o touro se tornou um símbolo para mim, porque naquele momento em que o ganhei eu me sentia sozinho, triste com a escola, e Picasso o desenhou para que me sentisse feliz. Funcionou!

Você presenciou a realização de alguma obra?
Picasso não costumava trabalhar na presença de outras pessoas, embora tivesse prazer em mostrar suas telas ou esculturas recentes, hábito que às vezes rendia bons momentos de brincadeira e palhaçada. Costumava autografar livros e fazer pequenos desenhos para os amigos, e em raras ocasiões decorava cerâmicas na olaria de Madoura [localizada na região de Vallauris, ao sul da França]. No entanto, suas telas e trabalhos sobre papel ele costumava fazer sozinho, sempre tarde da noite.

Quando foi a última vez que viu Picasso?
Foi em 1961, quando ele foi viver em Notre Dame de Vie, em Mougins. Eu tinha 14 anos e me lembro que o fotografei com minha câmera, bastante amadora, enquanto ele olhava para o quebra-cabeça que meu tio havia montado. Eu também fotografei alguns rascunhos que havia produzido e pequenos modelos que fizera para suas grandes esculturas. Gostaria de ter tirado várias fotos, mas sempre me falavam de como os rolos de filmes eram caros e que por isso não deveria gastá-los!