O santo sujo - a vida de Jayme Ovalle

Lançado em: junho/2008


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Humberto Werneck

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  • 09/08/2008
    Revista Veja | Arte e Espetáculos
    A mais silenciosa presença
    Jerônimo Teixeira

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  • Jayme Ovalle foi poeta, mas nunca publicou um livro. Compositor, deixou uma obra enxuta, com apenas 33 músicas, número que ele dizia ser perfeito - era a idade de Jesus. Também foi um místico cristão, com eventuais incursões pela umbanda, mas não fez escola como guru ou teólogo. Com realizações tão limitadas, esse aplicado funcionário dos serviços de alfândega do Rio de Janeiro não pareceria uma figura merecedora de uma biografia. No entanto, está aí O Santo Sujo (Cosac Naify; 400 páginas), saborosa reconstituição da vida de Ovalle realizada pelo jornalista mineiro Humberto Werneck. A riqueza do personagem encontra-se exatamente na desproporção entre sua obra discreta e o impacto indelével que ele imprimiu sobre várias gerações de músicos, artistas, escritores do modernismo brasileiro - gente como Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino.

    Nascido em Belém, no Pará, em 1894, e radicado no Rio na adolescência, Jayme Ovalle logo se firmou como uma "presença silenciosa" da cultura brasileira, na expressão do cronista Otto Lara Resende. Nunca freqüentou faculdade nem estudou música a fundo. Lia jornais, mas não era lá muito amigo dos livros. Era um grande intuitivo. Compôs belas músicas que, como a singela Azulão (com letra de Manuel Bandeira), incorporavam formas populares sem incorrer em nenhum populismo. Também redigiu, com ajuda de uma amiga inglesa e de sua mulher, a escritora americana Virginia Peckham, uma série de poemas em inglês, língua que não dominava, apesar de ter vivido anos em Londres e Nova York. Mas sua lenda vai além dessas poucas canções e poemas. Com suas inúmeras esquisitices, Ovalle era ele mesmo sua maior obra.

    Werneck cotejou documentos e depoimentos diversos para depurar exageros e invenções que fizeram o folclore de Ovalle. Mesmo assim, a coleção de excentricidades parece inesgotável. O músico paraense era uma combinação improvável de extravagância e timidez. Foi um boêmio inveterado, que consumia litros de uísque e se encantava platonicamente com moços travestidos nos bailes de Carnaval. Nos anos 20, quando morou ao lado de pensões mal-afamadas na Lapa, recebia prostitutas em sua casa - mas nunca se valeu dos serviços das moças. Desembarcou em Londres, em 1933, com um macaco no ombro. Fantasiava improváveis ancestrais judaicos, e várias testemunhas dizem tê-lo visto esbofetear o próprio rosto, em transe, dizendo "apanha, judeu!". Apaixonou-se por um manequim de vitrine e por uma pomba. Nas conversas sobre temas candentes, às vezes se botava a chorar como criança na tentativa de demover um amigo de um ponto de vista que considerasse equivocado. Usava um desconfortável e anacrônico monóculo.

    É claro que Ovalle não exerceu tamanha influência apenas por suas bizarrias. Ele também foi, digamos, um pensador popular. Não tinha nenhum rigor filosófico, mas era uma usina de tiradas magníficas e achados originais. Criou, com o poeta Augusto Frederico Schmidt, uma esdrúxula divisão da humanidade em cinco categorias, chamada de Nova Gnomonia - boutade de mesa de bar que gerou discussões seriís-simas nos meios intelectuais nos anos 30 e 40. Mas a melhor amostra de sua verve talvez esteja na entrevista que concedeu a Vinicius de Moraes e Otto Lara Resende, em 1953, dois anos antes de sua morte por infarto. Ovalle pratica ali toda a sua absurda metafísica, em definições como "o suicídio é a publicidade do desespero" ou "o hipopótamo é um rascunho de Deus".

    No tempo de Ovalle, os meios que ditavam a cultura eram bem mais restritos, dominados por uns poucos medalhões como Bandeira e Mário de Andrade. No Brasil contemporâneo, menos provinciano, talvez Ovalle tivesse dificuldade para alcançar sua imensa fama - e, de fato, hoje não se conhece figura equivalente ao autor de Azulão. Não deixa de ser uma pena. Diletantes de gênio como Ovalle podem não deixar grande obra - mas certamente dão mais graça à vida cultural.

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