Coleção Moda Brasileira I

Lançado em: janeiro/2007


Título do Livro

saiu na imprensa

Organização: João Rodolfo Queiroz Reinaldo Botelho

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  • 12/11/2007
    O Estado de S. Paulo | Caderno 2
    Cinco passos na pista de estilistas brasileiros
    Antonio Gonçalves Filho

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  • O tom geral dos cinco volumes da Coleção Moda Brasileira (Cosac Naify, 160 páginas cada título) é triunfalista. Finalmente o Brasil tirou os pés da lama e colocou-os nas passarelas internacionais com talentos que não ficariam devendo nada a Galiano, Gaultier, Kenzo, Lacroix e Miyake. De fato, os cinco estilistas escolhidos para abrir a coleção são talentosos -- Alexandre Herchcovitch, Glória Coelho, Lino Villaventura, Ronaldo Fraga e Walter Rodrigues --, mas é difícil imaginar que, na maratona do mundo fashion internacional, eles figurassem entre os favoritos ou que, ao menos, convencessem os executivos de grandes grifes estrangeiras a investir em seus produtos. Afinal, trata-se de um mercado de tubarões. A Dior, que gastava US$ 40 milhões para lançar um perfume há 20 anos, hoje investe US$ 100 milhões na operação. As estratégias de comunicação destinadas a promover ou construir imagens obrigaram essas mesmas grifes internacionais a triplicar as despesas com publicidade nesses últimos 20 anos, num mercado em que a Calvin Klein renova sua linha de lingeries a cada dois meses. É possível competir com eles?

    Dificilmente alguém em sã consciência responderia de forma positiva. Seria o equivalente a afirmar que o Brasil, por ter bons artistas, reconhecidos como mestres no mercado brasileiro, pudesse fazer frente ao elenco internacional disputado nos leilões da Christie's. Infelizmente, mestres como Volpi não têm cotação internacional ou liquidez fora do Brasil. Mais uma vez, não se trata de qualidade. Ninguém discute a pintura de Volpi ou a escultura de Amilcar de Castro, mas, num mundo dominado pelo imperativo da inovação e pelo delírio da renovação, os cinco estilistas brasileiros são aprendizes de feiticeiro.

    Os textos da Coleção Moda Brasileira, coordenada por João Rodolfo Queiroz e Reinaldo Botelho, são irregulares. Ou pecam por excesso de adjetivos ou pela falta de informações. O objetivo da coleção seria o de traçar um panorama da moda contemporânea nacional por meio da trajetória desses estilistas, como anuncia o press book do MorumbiShopping, parceiro da editora na empreitada. No entanto, o que se lê é uma revivescência do espírito contracultural que fez de Herchcovitch um ídolo dos clubbers, de Ronaldo Fraga um herdeiro extemporâneo da estética tropicalista, de Lino Villaventura um fiel da seita decadentista inglesa, de Gloria Coelho uma discípula bem comportada de Marie Ricki e de Walter Rodrigues um nostálgico garoto de Herculândia, deslumbrado por Gaultier, que hoje desenha corseletes de tafetá inspirados em roupas japonesas. Reduzidos a estereótipos pelos próprios autores, sobra pouco dos homens e da mulher estilista que, ex-riponga em 1978, como diz o texto sobre Glória Coelho, hoje produz bolsinhas para celulares da Motorola.

    A iniciativa editorial de publicar uma coleção como essa, que vai ganhar brevemente mais cinco títulos, merece elogios. Infelizmente, ela sofre da mesma síndrome que acomete as monografias sobre artistas visuais no Brasil, das quais a Cosac Naify também é pioneira: são textos cifrados, dirigidos a leitores do meio. Não que sejam ininteligíveis, mas, de modo geral, falta contextualizar a obra desses criadores e relacionar suas biografias com o papel que exercem no mundo da moda. A carreira de Chanel teria sido a mesma se ela não tivesse conhecido o milionário inglês Arthur Boyle, que bancou sua primeira loja? A evolução de Herchcovitch seria possível sem o crédito do mecenas Charles Cosac, que apostou desde o começo em seu talento, publicando a stravaganza editorial que foi seu primeiro livro (lançado em 2002 pela mesma Cosac Naify)? Pode ser, mas há cinco anos Herchcovitch ainda não havia criado os uniformes do McDonald's nem aberto uma loja em Tóquio. Não merecia um livro gigantesco como aquela biografia precoce, viagem narcísica e infantil.

    Essa iconografia disneyana, aliás, é uma das razões do sucesso de Herchcovitch junto aos japoneses, submissos às leis frenéticas da indústria cultural e do consumo --para não falar da paixão patológica dos asiáticos pelo kitsch. Herchcovitch, nascido há 36 anos, é fruto da economia da hipermercadoria, para usar uma expressão de Lipovetsky. Obedece de bom grado à desenfreada lógica do perecível e da morte acelerada de produtos, trocados com a velocidade com que muda de uma paródia de Chanel para uma coleção de verão com ursinhos carinhosos (as duas em 2002). Nessa mesma temporada, um mercado que lançava 34 perfumes por ano passou a fabricar 300. Herchcovitch acompanhou a febre de renovação, mas faltou explicar no livro como ele fez a passagem da estética sadomasoquista para a Disneylândia, sucumbindo ao imperativo pop do simulacro. A obsolescência do chicotinho de couro dos primeiros anos tem tudo a ver com sua legitimação pelo mercado (menos de 15 anos) e a entrada de Herchcovitch no mundo dos adultos, ou, para ser mais preciso, no universo burguês das roupas da Cori e suburbano das sandálias Melissa.

    Tanto como o livro de Herchcovitch, que tenta identificar os traços da tradição judaica em suas criações, o livro dedicado ao paraense Lino Villaventura trata da especificidade de sua formação cultural, valorizada pelo biógrafo Jackson Araújo. De família burguesa, ele não é do tipo que se aventura a afirmar a brasilidade ou usar, de forma paródica, simulacros de retirantes e bóias-frias, como faz Herchcovitch. Lembra seu biógrafo que ele assume sua paixão pelo decadentismo inglês de Wilde, pelos figurinos teatrais do histórico Léon Bakst e os turbantes da tirana Diana Vreeland.

    Não é o caso do mineiro Ronaldo Fraga, um pós-tropicalista que canibaliza grifes estrangeiras (trocando Prada por Fraga) e brinca com o poder diretivo desses modelos impostos verticalmente, expondo a caipirice do consumidor brasileiro. Mas é assumidamente o caso do nostálgico Walter Rodrigues, que vai buscar inspiração nos vestidos que Edith Head desenhava para Barbara Stanwyck. Essa relação cinema e moda, aliás, é bem explorada no texto introdutório do livro de Glória Coelho. Até por ser a veterana, a estilista ousa menos que seus pupilos ao entrar nesse mundo virtual. Está mais para Audrey Hepburn que para Angelina Jolie.

    Alexandre Herchcovitch

    GÓTICO: O estilista paulista, aos 36 anos, dirige pessoalmente o estilo da Zoomp, mas começou vestindo drag queens há 20 anos e reciclando as colchas de piquê da avó. O visual de suas roupas, quando não desenha para grifes burguesas, é andrógino. Sua marca registrada é uma caveira com orelhas de Mickey, que fala muito da agonia da sociedade de consumo. Herchcovitch criou também os uniformes do McDonald's.

    Walter Rodrigues

    CINÉFILO: Começou com coleções inspiradas nos vestidos das estrelas dos anos 1930, mas cansou de brincar de Balenciaga. Investiu há sete anos no prêt-à-porter. Desde 2002 tem demonstrado vocação camaleônica, inspirando-se tanto nos artistas construtivistas como no vestuário japonês, passando por comentários ecológicos (usou cores que reproduzem uma floresta queimada). Felizmente, desistiu do ambientalismo.

    Glória Coelho

    CLASSE: A mineira fez o curso de Marie Rucki, do Studio Berçot, e passou a usar há sete anos a letra G para ser facilmente identificada no mercado internacional. Já tentou tanto a retromania medieval (inverno de 1998) como o visual futurista (verão de 2001), mas, mineiramente, viu que a terceira via é a melhor quando se trata de conquistar o consumidor estrangeiro: prova disso é o visual neo-romântico da sua coleção de inverno 2007.

    Lino Villaventura

    TEATRAL: Ele passou a juventude vendo filmes de Visconti em Belém, o que explica seu fascínio pelo decadentismo e por Paul Poiret. Como diz seu biógrafo Jackson Araújo, as mulheres de Villaventura são "heroínas sobreviventes do luxo". Não sem razão, resgatou do limbo turbantes de Diana Vreeland (no inverno de 2001) e não teve pudor em tirar do armário os vestidos da musa de Klimt, Emilie Flöge (verão de 2004).

    Ronaldo Fraga

    TROPICALISTA: Ele é tão mineiro como pão de queijo. Há 15 anos, respondendo a um concurso da Santista Têxtil, ganhou uma bolsa para Nova York mas não voltou americanizado. Ao contrário. Usou as lições dos modernistas e canibalizou o que viu. Brinca com a sofisticação caipira, com o universo de Bispo do Rosário e, bem-humorado, não dispensa vestidos em tule e blusas de musselina.

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