Enrique Vila-Matas é um escritor singular, tão singular quanto os personagens que habitam seus livros. E digamos que ambas as singularidades fazem parte do mesmo universo, ou melhor, são aspectos de um mesmo princípio de investigação constante, minuciosa, exaustiva e até exasperante sobre a própria possibilidade da narrativa.
O fazer literário como objeto da escrita não é, evidentemente, exclusividade de Vila-Matas, mas a maneira como as questões da literatura integram suas tramas leva o escritor para um lugar bem próximo da originalidade. Em Vila-Matas, qualquer um que venha a se constituir como o pretexto de cada uma das obras, o que faz o entrecho é uma corrente poderosa e subterrânea de investigação sobre a literatura. Um tanto cerebral, sim, mas também envolvente, uma vez que essa investigação assume inflexões misteriosas e quase de suspense.
O que, bem entendido, não transforma sua escrita em fácil. Para começo, é quase impossível classificar como "romances" obras como O Mal de Montano e Bartleby e Companhia. Embora haja uma costura ficcional, são narrativas que combinam ensaio, jornalismo e uma erudição literária enciclopédica. Há ecos de Borges, de Fernando Pessoa e de Calvino na tessitura de Vila-Matas, mas há também um esforço de distinção notável. Uma dessas trilhas da diferenciação é a agilidade quase jornalística, o senso de urgência com que os problemas do fazer literário entram no âmbito de suas preocupações.
O Mal de Montano, cuja edição espanhola é de 2002, já se endereça, por exemplo, ao excesso de exposição e à mania confessional que tem encontrado na internet um abrigo e uma variedade de recursos quase infinita. Não que ele mencione blogs e que tais, mas o mal de que padece Montano, filho de um crítico literário que é o narrador, é uma obsessão de transformar qualquer acontecimento ínfimo e íntimo, qualquer fragmento da vida em literatura ou em alguma espécie de referência literária.
Num certo sentido, o que acontece em O Mal de Montano é, de certa forma, oposto ao que se passa no livro anterior de Vila-Matas. Em Bartleby e Companhia, de 2000 e publicado aqui em 2005, o narrador é obcecado (porque, de novo, trata-se de uma obsessão) por escritores que sofrem o que chama de "síndrome de Bartleby", ou seja, recusa em fazer. No caso do personagem da extraordinária novela de Herman Melville; o pobre-diabo que é admitido como escrevente começa a recusar trabalho, comida, ajuda, tudo, até atingir um estado de alienação completa e total. Os escritores do livro de Vila-Matas não chegam a tanto, mas podendo escrever ou tendo já escrito, escolhem não fazê-lo.
"I would prefer not to", ou "acho melhor não", o bordão impenetrável do escrivão Bartleby (cujo ofício, interessante lembrar, era copiar à mão ou conferir a cópia de documentos jurídicos), é quase a questão avessa à de Montano - tudo importa, tudo é passível de ser representado pela literatura. Ou seja, se em um caso é como "escrever as notas de rodapé de um livro em branco", no outro é como conseguir parar de escrever e voltar à vida Montano, efetivamente, adoece e definha pelo excesso.
Há em O Mal de Montano uma boa dose de combate literário em mais de uma entrevista, Vila-Matas declarou ter escrito o livro contra o "realismo espanhol", contra os "coloquialismos de Juan Marsé tanto quanto à exuberância de Juan Goytisolo". Para além do mal-estar de Vila-Matas, que se considera e se coloca fora do cânone literário espanhol, esse problema, evidentemente, não é localizado na Espanha.
Nesse escritor que não consegue parar de escrever, nesse sujeito que acha que tudo pode se transformar em literatura, pode-se identificar um sem-número de escritores que produzem copiosamente, sempre irrelevâncias, é verdade, mas sem parar. Como se a máquina literária moderna - editoras, feiras, títulos, escritores, livros ,- obedecesse ao imperativo de se movimentar e assim estivesse matando a literatura.