Celular - 13 histórias à maneira antiga

Lançado em: junho/2008


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Ingo Schulze

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  • 17/06/2008
    Jornal do Comércio | Panorama
    O gosto de uma história bem contada
    Eduardo Lanius

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  • A fluência quase nunca foi um requisito importante para que um escritor conquistasse o respeito da crítica dita especializada - que o digam os ingleses W. Somerset Maugham e Graham Greene, respectivamente responsáveis por "Servidão Humana" e "O Americano Tranqüilo", ambos cotados para um Prêmio Nobel que é provável merecessem, mas que, por razões de ordem mais cultural do que estética, jamais levaram. Ao contrário, popularidade e altas vendagens estão relacionadas com facilidade e concessão para muitos interpretadores, o que nem sempre é verdadeiro em termos objetivos. O mesmo sucede com outros autores que professam um gosto pronunciado pela narrativa per se, como se toda ficção de qualidade devesse necessariamente abrigar experimentações lingüísticas ou espaço-temporais para ter em mira a posteridade. É de se louvar então o aparecimento de "Celular - 13 Histórias À Maneira Antiga" (Cosac Naify, tradução e posfácio de Marcelo Backes, 352 páginas), de Ingo Schulze, cuja divulgação parece decorrer do fato de que se preocupa apenas em dar tramas bem realizadas. Não é pouco. E isso também não significa que não seja inventivo.

    Considerado um dos mais interessantes nomes em atividade na Alemanha e arredores, Schulze - convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) - não é inédito no Brasil, onde saiu Histórias Simples da Europa Oriental (2002). "Celular - 13 Histórias À Maneira Antiga" (2007), um volume de contos, deve-se advertir o candidato a leitor desde logo, não é um exemplar da estirpe dos best-sellers norte-americanos, que vai de Sidney Sheldon a Dan Brown, de Irving Wallace a Danielle Steel. O escritor alemão redige relatos em relativo grau hipnóticos, mas em estilo simples, como alguém que quer oferecer peças ficcionais cativantes ou, conforme registra o subtítulo, "à maneira antiga". É o que o distingue num panorama em que os volteios de todo tipo muitas vezes camuflam contos frouxos, inverossímeis ou somente anedóticos. Schulze, com freqüência, é linear na exposição do quadro geral de determinada situação que pretende fixar, mas espalha pelo texto zonas de sombra que pedem de quem o acompanha mais do que a atenção distraída dispensada às ficções casuais. Para além do dito, há muito de não-verbalizado.

    A narrativa que abre e dá título ao conjunto é emblemática. "Celular" flagra um casal de jornalistas, Constanze e o narrador, nas proximidades de Berlim, onde passam alguns dias de férias. A mulher é chamada às pressas para o trabalho e ele permanece à beira do incomunicável, no bangalô que alugaram - portador de um celular, ela o informa acerca do mundo exterior. Mas um episódio de vandalismo coloca o narrador em contato com um vizinho, que lhe pede o número e ele, tomado de surpresa, cede-o. De volta para casa, o telefone toca durante a noite e acaba por causar uma briga - no limite da separação - entre o casal. O fecho é magistral e revela os poderes encantatórios da literatura, uma arte feita de tensões, camadas sedimentadas e sofisticadas simetrias. Igualmente notável é Calcutá, em que um engenheiro de obras transformado em "dono-de-casa" tenta capturar um rato na cozinha, enquanto cuida da movimentação dos vizinhos - o filho deles havia sido vítima de um acidente, apenas entremostrado (sugerir, aliás, é um recurso de larga utilização por Schulze, que consegue extrair desse procedimento técnico impacto e sutileza incomuns).

    O posfácio de Marcelo Backes auxilia a avaliar o que acabou de se ler. "A sensação de estarmos sentados com o narrador, ou com o autor, na mesa de um bar nunca foi tão forte", assinala o tradutor, com propriedade, para, em outra parte, lembrar o quanto "Celular - 13 Histórias À Maneira Antiga" rende tributo à prática ancestral de uma trama bem urdida, o que se encontrava em repositórios do tipo "As Mil e Uma Noites" ou "Decameron". Trocada em outras palavras, "à maneira antiga" implica recuperar o sabor de um relato que consiga arrebatar a platéia, deixá-la em estado de suspensão. Em uma época que privilegia a comunicação instantânea e compulsória, possibilitada principalmente pelo celular, impõe-se a reiteração da capacidade magnética de uma história cuidada, vertente na qual "Celular - 13 Histórias À Maneira Antiga" se inscreve. Schulze, entre encontros e desencontros de gente comum às voltas com acontecimentos banais, mantém a audiência segura e constrói um elogio à perenidade. E é, afinal, o que todo mundo quer, a atenção cativa do interlocutor.

    Um trecho de Calcutá

    "Kevin estava em coma. Tudo acontecera diante do teatro, em meio aos canteiros de obras.

    Ela contou toda a história em detalhes. Eu diria até que ela se empolgou com a narrativa: apertava as costelas, a bacia com ambas as mãos, batia sobre as coxas e logo depois pressionava os dois punhos contra as têmporas, tentava virar a cabeça, mas a mantinha firme, como se estivesse presa a uma morsa. Seu pulôver havia levantado até a altura do umbigo.

    A mulher dos Becker começou a chorar. Eu já estava quase pulando a cerca para segurar sua mão, quando o telefone tocou, dentro da casa deles.

    Ela deixou a porta encostada. Por isso eu esperei. Depois de alguns minutos, empurrei a máquina de cortar grama para a cerca, peguei a extensão e continuei meu trabalho diante da porta da casa, que não perdi de vista em momento algum. Eu pensei que a mulher dos Becker por certo estava contando agora o mesmo que contara um pouco antes, e me perguntei se ela também gesticulava ao telefone, mas tocando seu corpo apenas com uma das mãos.

    Em vez de me curvar demoradamente, logo fiquei de cócoras, abri o saco plástico e esvaziei o cesto de grama de uma só vez dentro dele. Eu trabalhava como se estivesse sendo vigiado."

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