Bartleby e companhia

Lançado em: janeiro/2005


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Enrique Vila-Matas

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  • 19/07/2005
    Folha de S. Paulo | Ilustrada
    A invenção do cinema
    Bernardo Carvalho

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  • Em grande parte graças ao espanhol Enrique Vila-Matas, que se alimenta da história da literatura como tema obsessivo de seus romances "Bartleby e Companhia" e "O Mal de Montano", publicados recentemente no Brasil, a figura de Bartleby, o escrivão criado por Herman Melville em meados do século 19, de repente parece ter ganhado um novo interesse. A Cosacnaify, que lançou os romances de Vila-Matas por aqui, acaba de publicar uma nova edição do texto de Melville.

    "Bartleby, o Escrivão", um dos mais célebres personagens da literatura moderna, contamina tudo à sua volta pela inação, por se recusar, sem explicações, a fazer o que quer que seja. Sua simples presença é perturbadora -e não apenas para a lógica da psicologia, que fica reduzida a nada. Bartleby produz uma antiação com conseqüências profundas na realidade, nos que o cercam e nas relações que estabelecem com as coisas.

    É uma feliz coincidência que, simultaneamente à publicação do conto de Melville, esteja em cartaz em São Paulo um clássico do cinema mudo, "O Homem das Novidades" ("The Cameraman", 1928), em cópia restaurada. O herói interpretado por Buster Keaton vai deixando sem querer um rastro de demolição por onde passa. Em sua habilidade involuntária (aliás, como a maioria dos personagens burlescos do cinema mudo), ele é um desastrado. Assim como Bartleby, mas agora por meio de uma ação descontrolada, basta a sua presença para que, sem razão e a despeito da sua vontade, o mundo fique de pernas para o ar.

    As relações entre o personagem criado por Melville e o de Buster Keaton não se resumem portanto ao fato de ambos viverem em Nova York. Nem de compartilharem ecos beckettianos (única experiência de Samuel Beckett como diretor de cinema, "Filme", de 1964, foi concebido em torno da figura do velho Keaton e, como lembra Modesto Carone no posfácio à nova edição do texto de Melville, Bartleby também antecipa os "clowns" do escritor irlandês). Ambos estão implicados na invenção do que não existe, do que é inimaginável.

    Bartleby é um escrivão num escritório de Wall Street. Sem passado nem futuro, simplesmente repete "acho melhor não" (na boa tradução de Irene Hirsch) sempre que lhe propõem uma nova tarefa. Para começar, encarna a própria opacidade: "...era uma dessas criaturas a respeito das quais nada se pode averiguar. (...) Aquilo que vi é tudo o que sei a respeito de Bartleby", diz o patrão no início do relato. Só sabe o que vê, que é muito pouco, e por isso precisa deduzir, por indícios incongruentes, o perfil do personagem, precisa inventá-lo, pois Bartleby é tão imperscrutável quanto a "parede cega" diante da qual trabalha. Ao patrão, só resta presumir, sempre correndo o risco de errar.

    Bartleby se recusa a todos os papéis existentes, não se encaixa em nada do que já existe, compelindo o patrão a imaginar o que ele pode ser e por que será assim. Sua inação (seu mistério) é o motor da imaginação dos que o cercam. É por ele não se enquadrar em nada que os outros são obrigados a imaginá-lo.

    Em "O Homem das Novidades", a secretária de uma agência de repórteres-cinegrafistas exorta o personagem vivido por Buster Keaton a fazer a mesma coisa, imaginar o que não há: "Ninguém chegará a lugar nenhum se não se arriscar a fazer o que nunca fez", diz ao cinegrafista inexperiente, ao lhe reservar um furo de reportagem, o mesmo furo que escondeu dos outros cinegrafistas da agência, para protegê-lo, pois está interessada nele. Cabe a ele imaginar, ou seja, fazer o que nunca fez.

    O interessante é que, em "O Homem das Novidades", a realidade também será reinventada. Embora, ao contrário de Bartleby, por meio da ação direta (ainda que involuntária) do personagem. O cinegrafista inexperiente sai para registrar tudo o que vê e acaba encenando, a despeito da sua vontade, por ser desastrado, os fatos que não existiriam sem a sua presença e que ele espantosamente não vê. É o princípio do burlesco.

    A realidade que o cerca é instável. Quando tenta quebrar um cofrinho para pegar o dinheiro de suas economias e sair com a secretária, é o mundo que se quebra e desaba à sua volta, a cama, a parede, o teto. E só por último o cofrinho. O mundo instável não acolhe nem sustenta o personagem.

    Por causa dessa instabilidade, o homem das novidades está sempre tendo que reinventar seu lugar, seu estado, sua relação com as coisas. Quando toma um ônibus, acaba "sentado" do lado de fora da janela, mas se comporta como se fosse um passageiro normal. Sua presença desestrutura as relações para em seguida restabelecê-las com um novo sentido e em outro lugar.

    Não é por acaso que o filme se chama "The Cameraman". E esse é um curioso ponto de vista vindo do interior de Hollywood em seus primórdios, uma bela imagem da invenção do cinema: a presença do "cameraman" recria a realidade à sua volta, e não apenas a registra. É ele que, por meio de sua ação desastrada, involuntária, atiça e provoca os fatos que a câmera acaba registrando. Se ele não estivesse lá, os fatos não aconteceriam daquela maneira. Sua simples presença já é uma intervenção no real. E isso mesmo se ele aparentemente se recusasse a agir, como Bartleby.

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