Aleksandr Sokúrov

Lançado em: novembro/2002


Título do Livro

saiu na imprensa

Organização: Alvaro Machado

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  • 20/10/2002
    O Estado de S. Paulo | Caderno 2
    Três textos para entender o cinema espiritual de Sokúrov
    Luiz Zanin Oricchio

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  • Acompanhando a retrospectiva do mestre russo, a Cosac & Naify, em convênio com a 26.ª Mostra BR de Cinema, lança o volume Aleksandr Sokúrov, organizado pelo jornalista Álvaro Machado. O livro é composto por uma apresentação escrita pelo próprio Machado, um ensaio de Laymert Garcia dos Santos e uma entrevista que o diretor da mostra, Leon Cakoff, realizou com o diretor. O volume é pequeno (130 páginas), fartamente ilustrado com fotos do cineasta e de seus filmes, e serve como excelente introdução ao universo estético de Sokúrov.

    Nesse sentido, o texto de Álvaro Machado é particularmente feliz, por ser uma panorâmica de uma obra ainda insuficientemente conhecida e discutida. O que conhecemos de Sokúrov no Brasil até agora? Mãe e Filho, Dolce, Moloch e é só. Essa obra, lembra o autor da apresentação, centra-se, em boa parte, no tema da convivência com a morte, o que não lhe dá tom soturno, mas reflexivo. Arca Russa, o novo e badalado filme de Sokúrov, não seguiria esse padrão habitual. Seria, antes, uma tentativa de acerto de contas com a história e por isso teria desagradado a alguns seguidores do cineasta.

    Sim, seguidores, porque Sokúrov parece destinado a despertar algo mais do que simples admiração por seu trabalho. Pressente-se a existência de fiéis, membros de uma seita nova, porém influente. No entanto, seria interessante procurar entendê-lo como parte da tradição cultural russa, da qual faz parte o cineasta Serguei Eisenstein, a quem Sokúrov admira profundamente.

    Admiração, no caso, não significando adesão estética, porque seria difícil comparar os cinemas desses dois diretores a não ser por oposição.

    O exemplo mais radical dessa diferença, como se lê no artigo de Laymert Garcia dos Santos, estaria no trabalho mais recente, Arca Russa. Em seu diálogo contraditório com a tradição, Sokúrov evoca o cineasta da montagem, Eisenstein, para apresentar o filme sem montagem, que é Arca Russa.

    Além disso, seria difícil imaginar Eisenstein "biografando" Lênin, Hitler e Hiroito, como fez Sokúrov e, sobretudo, colocando-os em planos semelhantes.

    Interessa ao cineasta o estudo dessas figuras do poder, personalidades distorcidas pelo fetiche do mando e da autoridade. Dele, há também um patético documentário sobre Boris Ieltsin, o antecessor de Putin, já numa Rússia desagregada e entregue à corrupção.

    Como lembra Machado, esses "docudramas" provocaram polêmica quando lançados.

    Os "homens de poder" são impiedosamente pintados como ditadores decadentes, cheios de vícios, fracos na intimidade, imersos no medo dos traidores e na miséria moral. Na Rússia, esse retrato de Lênin foi duramente criticado pelos neocomunistas, já traumatizados pela dissolução do império soviético na era pós-Gorbachev. Enfim, a ênfase espiritualista de Sokúrov não anula seu conteúdo político, bem ao contrário.

    O ensaio de Laymert Garcia dos Santos concentra-se com exclusividade em Arca Russa, essa formidável proeza técnica que consistiu em filmar com milhares de figurantes num espaço gigantesco, o museu Hermitage, de São Petersburgo - tudo numa única tomada de 96 minutos. Filmagem sem interrupção, um mega plano-seqüência tecnicamente realizável apenas agora, graças à tecnologia digital. Sem nenhum corte, é o filme sem montagem, o anti-Eisenstein por excelência.

    O filme é, por um lado, o encontro do diretor com a "memória coletiva do Hermitage". Por outro, o reconhecimento da aristocracia em sua tentativa de fazer da Rússia um "Estado europeu civilizado". Os dois aspectos convergem, nesse continuum temporal entre cultura e civilidade. Por isso, analisa Laymert, a opção pelo plano-seqüência não se reduz ao virtuosismo técnico:

    "Imagens virtuais da memória do Hermitage mescladas a suas imagens atuais - é isso que o cinema digital de Sokúrov ambiciona capturar. A opção por registrá-las numa única e fantástica tomada não é um capricho - o continuum é absolutamente necessário como experiência do movimento do espírito em contato com os `espíritos do lugar`" (pág. 74).

    Mas, enfim, como filmes não são imagens platônicas ou formas puras, o ensaísta detecta em Arca Russa a "desalentada tentativa de reatar com a cultura européia e com o passado europeizante, uma vez fechado o parêntese socialista." (pág. 75). Essa perspectiva aristocrática é de fato a sensação mais presente nesse filme belo e decadentista.

    Cabe ainda destacar a esclarecedora entrevista de Sokúrov a Cakoff, com o cineasta discorrendo sobre o tempo, o crescimento e a montagem. E um pequeno comentário revelador sobre a espessura de verniz da decantada elegância aristocrática. Arca Russa concorreu em Cannes e saiu de lá de mãos abanando.

    Referindo-se à autoridade moral do júri, Sokúrov teria dito: "E depois, quem me julgará? Uma atriz pornô (Sharon Stone)? (pág. 112)".

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