O santo sujo - a vida de Jayme Ovalle

Lançado em: junho/2008


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Humberto Werneck

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  • 03/07/2008
    O Estado de S. Paulo | Caderno 2
    As lendas do 'Santo Sujo' que mudaram a cultura do Brasil
    Francisco Quinteiro Pires e Ubiratan Brasil

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  • Manuel Bandeira chamava-o de poeta místico. Vinicius de Moraes dera-lhe o apelido de poeta louco. Mas curiosamente ele era um poeta sem poemas: apenas vivia e pensava poeticamente, segundo outro amigo, Fernando Sabino. É sabido que somente os santos e os loucos são capazes de dizer não ao mundo. Se Jayme Ovalle (1894-1955) disse não ao mundo, assim fez para chegar perto do humano.

    Para falar desse homem inclassificável, que tinha a idéia de escrever uma obra autobiográfica, "História de São Sujo", que nem chegou a começar, o jornalista Humberto Werneck escreveu "O Santo Sujo - A Vida de Jayme Ovalle" (Cosac Naify, 400 págs.).

    A primeira biografia do músico e boêmio, nascido em Belém (PA), autor da música "Azulão" e influenciador de uma geração de escritores, é tema de debate na Flip, do qual participam Werneck e o jornalista Xico Sá amanhã (3), às 17 horas.

    O jornalista mineiro Humberto Werneck diz ser difícil definir Jayme Ovalle. "Como entender alguém que se entregava à boemia na Lapa, mas era funcionário público exemplar, que não praticava corrupção nem chegava atrasado?", questiona o biógrafo

    A dificuldade de classificar esse indivíduo é tão grande quanto a das pesquisas para fazer a biografia, segundo Werneck. Ele compara os esforços com "O Santo Sujo", iniciados em 1991, com o trabalho de investigação de peritos sobre um avião que explodiu. As informações sobre o biografado são parcas, é preciso recolher os fragmentos da figura do músico paraense: muitos deles nem chegaram a ganhar registro; perderam-se na memória afetiva dos amigos que ele fez no Rio, para onde se mudou no fim da adolescência.

    "A maioria dos que conviveram com Ovalle já está morta", lembra Werneck, que se interessou pelo músico ao perceber citações feitas por gente do quilate de Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Augusto Frederico Schmidt, além de Vinicius e Bandeira, a quem Ovalle ensinou o uso dos diminutivos.

    "Ele trazia um mundo de arte inteiro dentro de si, mas não tinha capacidade de expressá-lo", diz Werneck.

    A sensibilidade extrema barrava na incapacidade de realização. Ele era a inspiração em carne, osso e... espírito. Embora fosse impossível prever se Ovalle saberia articular uma frase até o fim, suas tiradas poéticas eram inspiração para os colegas. A "Nova Gnomonia", a classificação dos seres humanos em cinco categorias divulgada em conversa de bar, tornou-se febre na intelectualidade carioca depois de Bandeira registrá-la em crônica no começo dos anos 1930.

    Tirando os jornais, como o "Diário Oficial", Ovalle lia apenas um livro: "As Sagradas Escrituras". "Ele lia a Bíblia como literatura, fazia anotações nas páginas", diz Werneck. "Ele pretendia reescrevê-la", completa. São lendárias as discussões de Jayme Ovalle com Deus. Se perdia, ele virava o crucifixo para a parede. Acordava à noite, em transe místico, esbofeteando o próprio rosto: "Apanha, judeu! Apanha, judeu!" Ao cristianismo, Ovalle misturou os segredos do candomblé.

    Além das 33 músicas que compôs, o número da perfeição por ser o da idade de Cristo quando morreu na cruz, Jayme Ovalle ditou "Poemas Ingleses" - cerca de 40, alguns publicados - e "The Foolish Bird" - inédito - para uma secretária, durante os quatro anos em que morou em Londres, nos anos 1930. Nessa época, ele consolidou sua rarefeita criação musical. (Morou outros quatro em Nova York, mas nunca dominou o inglês).

    O citado "História de São Sujo" tem um título que por si só revela muito sobre a personalidade de Ovalle, que, quando era jovem, adotou o monóculo - só o deixou nos anos 1950 - e passava graxa nos cabelos. E foi assim, em 1947, depois de nutrir muitos amores, entre os quais uma pomba e um manequim, que Ovalle conheceu sua única esposa, a norte-americana Virginia Peckham, com quem teve Mariana. Mariana, que mora no Brasil, é a protagonista do "epílogo ovalliano" - palavras de Werneck - de "O Santo Sujo".

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