Henri Cartier-Bresson: fotógrafo

Lançado em: setembro/2009


Título do Livro

saiu na imprensa

Autor: Henri Cartier-Bresson

Organização: Robert Delpire

palavras-chave:


  • 15/09/2009
    Carta Capital | Cultura
    A sina do perseguidor
    Rosane Pavam

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  • Henri Cartier-Bresson perseguiu o instante decisivo. E, com alguma ironia, o instante decisivo perseguiu Cartier-Bresson. Foi o artista quem associou o momento certo à fotografia, em um texto publicado nos anos 50. Com o tempo, malgrado se tratasse de um ensaio curto, perfeitamente composto, à moda de suas fotos, as incompreensões chegaram. Os criadores podem tornar-se vítimas involuntárias do que criam.

    Cartier-Bresson (1908-2004) utilizou a expressão “instante decisivo” para que ela o ajudasse a definir um novo campo de atuação, o seu, de fotógrafo. Ele não se preocupava em chamar aquilo que fazia de arte. Via na fotografia uma nova plasticidade, “produto das linhas instantâneas tecidas pelo movimento do objeto”. O homem com sua máquina deveria intervir neste momento, tornando o equilíbrio imóvel.

    Sua questão era definir o instante certo do clique, para que outros fotógrafos se servissem de sua experiência. O instante decisivo, como o queria Bresson, acontecia a partir de uma intuição ocorrida durante o ato de fotografar. Um fotógrafo deveria- ordenar rapidamente a composição a partir da avaliação geométrica da cena. Precisaria saber o que caberia na foto e o que ainda poderia entrar. E teria de esperar um pouco. O elemento improvável que surgisse da vida se tornaria a razão de ser da imagem, seu equilíbrio.

    O que possivelmente alguns leitores entenderam de O Instante Decisivo é que apenas pela intuição, rapidez ou sorte seria possível captar, no momento exato, a essência da vida alheia que pulsava diante da máquina de fotografar. Mas, quando falava em intuição, Cartier-Bresson imaginava algo surgido a partir de uma construção prévia.

    Ele trancou-se em uma biblioteca, na adolescência, e leu os romances. Conheceu a proporção áurea renascentista em todos os quadros percorridos nos museus e nos livros, nos intervalos de sua formação escolar. Admirou Marcel Proust, Paul Cézanne e André Lothe. Desenhou e pintou. Copiou os mestres. Resistiu aos nazistas e foi preso durante a Segunda Guerra Mundial. Não era só um curioso, um pescador do acaso. Ele admirou e assimilou a arte, que aplicou no cotidiano da rua. O instante decisivo nascia de um grande conhecimento anterior da arte e da literatura.

    O fotojornalismo revelou-se o veículo ideal para Cartier-Bresson aplicar o que aprendera. O mesmo fotojornalismo que parece ser hoje uma prática em extinção, em razão da popularização das máquinas fotográficas ou da crise econômica que impede os jornais, entre outras coisas, de financiar o custo das viagens que resultarão em imagens incríveis.

    Cartier-Bresson não fez só fotografia nem somente em preto e branco. Fotografou paisagens em cores do interior da França, como uma encomenda, e elas não funcionaram, uniformes demais. Perseguiu o cinema, colaborador de Jean Renoir, mas foi um operador sem timing coletivo. Jamais dispensou um bom laboratorista, porque não tinha paciência para acertar os tons, pretos e brancos magistrais, e também os admiráveis cinzas. E nem todas as suas fotos eram exatamente o que seu negativo apresentava. Atrás da Gare Saint-Lazare, de 1932, tinha, originalmente, bordas um pouco maiores, retiradas da cópia que ficou eterna.

    Contudo, é certo que ele perseguisse, em uma foto, a unicidade da narrativa, um significado abrangente, a totalidade de um haicai. Depois de Bresson, todos desejaram a foto única, embora tenha havido, por parte dos fotojornalistas, a tendência de mostrar um fato em sequências de imagens, a sugerir o movimento cinematográfico. Para Cartier-Bresson, a foto deveria ser uma só, porque ele a via como o alvo de uma flecha certeira. A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Eugen Herrigel, era, aliás, um de seus livros filosóficos de cabeceira, já que o arqueiro zen consegue a paz na tensão sem fim.

    “Fotografar é, num mesmo instante e numa fração de segundo, reconhecer um fato e organizar com rigor as formas percebidas visualmente, que exprimem esse fato e o significam. É colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, definiu Cartier-Bresson em outra oportunidade, “com sua lucidez e concisão habituais”, conforme observa o romancista francês Yves Bonnefoy.

    É Bonnefoy quem prefacia um livro essencial, raro entre os que temos no Brasil sobre o artista (o último foi Tête à Tête, pela Companhia das Letras, em 1998), e que sai agora pela Cosacnaify junto a uma exposição de suas fotos no Sesc Pinheiros, em São Paulo, de 17 de setembro a 20 de dezembro. O livro Henri-Cartier Bresson: Fotógrafo (344 págs.) foi organizado pelo próprio artista, em companhia de Robert Delpire. As 155 fotos vêm agrupadas em seis módulos, cujos temas são a rua, o campo, a política, os rituais religiosos, o retrato e o humor.

    Nessas imagens, depositadas pelo tempo no santuário da arte visual do Ocidente, o apreciador verá não só sua admirável leitura dos tempos, como ocorre na foto ateniense em que duas velhas andam em paridade vertical à beleza clássica de duas colunas, esculpidas em forma de mulheres.

    Haverá entre os instantes o célebre salto de um homem sobre a água, na Gare Saint-Lazare, espelhando seu reflexo na poça. A imagem cita a agilidade de Bresson, que dava pequenos “pulos” ao mirar seus seres em movimento. O escultor Alberto Giacometti, retratado com rapidez e esbelta singeleza entre esculturas finas, novamente sugere o fotógrafo e as formas enxutas que buscava. Há humor naquela foto em que pernas cruzadas surgem, sobre a grama, atrás de um guarda-chuva, este responsável por esconder o rosto dos personagens.

    O fotógrafo desloca os sentidos, brinca com eles. Um menino aparentemente em transe diante de uma parede, na verdade, olha uma bola no céu. Um quadro ou um caixão de defunto pairam como cabeças daqueles que os carregam. A profissão de fé do artista, estivesse ele na China, no México ou na Índia, cobrindo a morte de Gandhi, a fome dos revoltosos ou o funeral de um japonês, era olhar para os lados. A vida, apesar do que determina a pauta dos jornais, mora neles.

    O que as pessoas veem nas fotos de Bresson é o acontecimento ou é Bresson? Nem sempre espetacularmente, mas necessariamente, a fotografia interpreta a verdade. Ela é um ponto de vista, deste ou de qualquer outro fotógrafo, sobre a realidade.

    Como observa Bonnefoy no livro, “a composição, em Cartier-Bresson, é a reação instintiva, o reflexo seguro e rápido que lhe permite mais plenamente aquilo que a realidade nos abre às vezes”. Ou ainda, sobre o que acontece quando vemos algo reconhecível, fotografado por Bresson: “O acontecimento pode estar lá, na foto, mas é como que deslocado por alguns milímetros metafísicos que bastarão para desfazer sua primazia sobre a vida”.

    “Sou nervoso, só isso, e gosto de pintura. Nada entendo de fotografia”, disse a Bonnefoy um Cartier-Bresson impaciente com a observação, feita pelo romancista, de que percebera um “milagre” qualquer em uma foto sua.

    Nada entender de fotografia faz todo o sentido para este Bresson. Nos últimos anos de vida, ele desenhou bastante e quase não clicou. Um inventor sabe muito pouco sobre sua descoberta. Em arte, a invenção torna-se um modelo a ser desenvolvido ou diluído por seus seguidores no tempo. Este é um ensinamento que o crítico americano Ezra Pound, magistralmente fotografado pelo próprio Cartier-Bresson, ofereceu aos escritores. Mas que serve para todos os poetas, o fotógrafo francês entre os maiores deles.

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