Em 1944, aos 13 anos, na Transilvânia, Hungria, a fotógrafa Claudia Andujar percebeu que uma marca iria determinar o desaparecimento de muitas pessoas ao seu redor - pai, avós e seu primeiro namorado, Gyuri, todos carregavam a estrela de Davi em amarelo costurada na roupa.
Num primeiro encontro numa praça pública, em junho daquele ano, os dois confessaram os sentimentos e se beijaram.
"Era o nascimento do amor", diz Andujar. Interrompido pela história que se conhece, o romance continuou visível apenas num retrato de Gyuri, que a artista carregou num medalhão que pendia em seu pescoço.
Quase 40 anos depois, Andujar viu-se novamente envolvida com marcas, só que dessa vez era ela quem criava os sinais.
Em 1981, junto de dois estudantes de medicina, ela deu início a um projeto de saúde entre os índios ianomâmi, na Região Norte do Brasil.
Durante três anos, em distintos momentos e em difíceis recantos da selva amazônica, a pequena expedição vacinava comunidades que estavam fadadas a morrer pela contaminação com doenças trazidas pela invasão branca.
Enquanto os estudantes vacinavam, Andujar fotografava os índios com números. "Como eles não usam o nosso sistema, não têm nome e são chamados pela relação de parentesco, nós passamos a numerá-los para criar uma forma de identificação", conta ela.
Foram mais de mil retratos, realizados em mais de cem aldeias. No próximo dia 8, cerca de cem dessas imagens serão lançadas no livro "Marcados", com texto de Stella Senra, pela editora Cosac Naify, e serão vistas numa exposição com as fotografias na galeria Vermelho.
"Eu não via essas imagens como um trabalho artístico, era um projeto de saúde a favor dos ianomâmis", conta Andujar. Ela conhecera esses índios em 1970, durante reportagem para a revista "Realidade" sobre a Amazônia.
MARCADOS, de Claudia Andujar, Editora Cosac Naify (154 páginas)