O traço é minimalista. Inconfundível. Justo lá onde cartunistas do mundo inteiro parecem ter algo em comum - focar num detalhe - ele escolhe a contramão: desenha seus personagens pequenininhos, como se estivessem sendo vigiados do topo do Corcovado. Esta talvez seja a chave do sucesso de Jean-Jacques Sempé, 77 anos, o cartunista mais festejado da França, que lança no Brasil, pela Cosac Naify, um clássico: "Marcelino Pedregulho", livro infantil de 1969, com a bela história de amizade entre o menino Marcelino, que fica vermelho quando não deve, e o amigo Renê, que espirra sem estar resfriado.
Sempé tem no trato pessoal o humor de seus desenhos: sutil, divertido; curto e grosso. Em entrevista ao GLOBO, esse apaixonado por futebol diz que tem "muitas fraquezas", como seus personagens. A maior delas: "Sou muito preguiçoso". Este ano, ele pode relaxar - é só festa: 150 mil pessoas já visitaram a exposição sobre o "Pequeno Nicolau", personagem que criou com o cartunista René Goscinny (que também deu ao mundo Asterix, em parceria com Albert Uderzo) e que chega aos cinemas franceses no fim do mês. Mas Sempé não gosta de falar de Nicolau. A um jornalista francês, disse nunca ter imaginado que o personagem fosse virar mania e que tenta por todos os meios livrar-se dele: "Queria ter o mesmo sucesso com Marcelino Pedregulho!"
O GLOBO: O senhor se surpreende que uma obra sua de 1969 chegue agora ao Brasil?
SEMPÉ: Isso me surpreende, mas me agrada, sobretudo! Conheço o brasil através do futebol, mas não conheço o país.
Marcelino Pedregulho fica vermelho "quando não deve ficar". Como surgiu a ideia desse personagem?
Quando era jovem, isso acontecia comigo frequentemente. Eu ficava muito vermelho bruscamente.
Por quê?
Nunca soube. Eu era um menino, mas ainda assim... Sei lá. De tanto pensar nisso, um dia quis criar uma história sobre a amizade entre dois meninos. Mas levei muito tempo para encontrar uma particularidade no menino que se tornaria amigo de Marcelino. Como também tenho alergias, imaginei um garoto que espirrava o tempo todo, mesmo sem estar resfriado... são as alergias.
O senhor ainda fica bruscamente vermelho?
Menos (risos). Quando acontece, eu me pergunto: "O que está acontecendo?" Sentia que meu rosto ficava quente e via que me olhavam de forma estranha.
O mundo das crianças hoje é cheio de imagens, sons, informações. Por que um desenho simples, como o de Marcelino Pedregulho ainda tem força?
Difícil responder. Talvez elas tenham a impressão de que é uma escrita.
Seus personagens são sempre afetuosos. O senhor tem um carinho em relação a fraquezas humanas, não?
Como eu mesmo tenho muitas fraquezas e muito carinho por mim, forçosamente coloco isso nos desenhos.
Qual a sua grande fraqueza?
A preguiça. Como sou preguiçoso, trabalho muito, porque não sei me organizar.
O senhor começou sua carreira na grande imprensa, que hoje está em crise e em mutação. Isso o incomoda?
Sim. Dá medo. Mas eu sou desenhista, antes de mais nada. A imprensa hoje se preocupa demais com a notícia. Amanhã, não sabemos o que vai acontecer. É um defeito. Só notícia, pouca análise.
O senhor criou um estilo próprio, com muitos detalhes, desenhos em panorâmica, quando a maior parte dos desenhistas quer focar em algo. Isso veio naturalmente?
Não. Trabalhei muito.
O senhor obteve uma reputação internacional através das capas da revista "New Yorker". Como é trabalhar para os americanos?
Muito bom. São pessoas de palavra.
O senhor é frequentemente descrito como o mais francês dos desenhistas. Como vê a França de hoje?
Ah, sim, sou muito francês mesmo. Mas não faço só desenhos franceses. Para a "New Yorker", faço internacional. Quando desenho uma flor ou um piano, são internacionais. Sobre a França, gosto das pessoas que amam seu país, que sejam belgas, alemães, brasileiros. Eu gosto muito do meu país, a França.
O senhor certa vez disse que tem dificuldade de desenhar o mundo moderno: os computadores, todo o aparato 'high tech'. Por quê?
Porque, para mim, o mundo moderno não é suficientemente moderno. Por exemplo: como todo mundo, tenho um celular, que faz tudo. Eu pedi só um telefone, simples. Acho que o mundo moderno é muito complicado. Quantas vezes encontro escritores doentes porque seus computadores apagaram todo o capítulo do livro ou travaram? Tudo me parece muito complicado no mundo moderno.
Isso quer dizer que o senhor utiliza pouco seu telefone?
É, não sou muito bom. Os meus amigos brincam comigo por causa disso.
É preciso quase um doutorado para compreender a nova tecnologia...
Sim! O mundo moderno é para os aposentados, que têm tempo de ler instruções.
Alguns desenhistas saem à rua com um caderno de notas, um gravador. Qual o seu método de trabalho?
Fico apenas sentado na minha mesa de desenho.
Não sai nunca para buscar inspiração nas ruas?
Gostaria, mas saio pouco. Andava muito pelas ruas de Paris, mas sofri um acidente e agora ando mal. Adoro olhar Paris. Mas quando volto, o que desenho é totalmente falso.
O senhor então não desenha necessariamente o que vê?
Desenho mais o que imagino.
Acontece de o senhor ficar um dia todo bloqueado?
Claro. Nesse caso, eu me desespero. Fico furioso.
Alguns de seus críticos dizem que o senhor evita desenhar o lado sombrio da vida.
É verdade. Me deixa triste. Há muito lado negro. O que é difícil é achar uma pequena luz, uma pequena coisa mais luminosa que o negro. Você entende?
"O Pequeno Nicolau" se tornou um clássico. Foi adotado por escolas, ganhou retrospectiva e um filme. O senhor se sente adulado com tanto reconhecimento?
Tudo o que eu queria era que acontecesse o mesmo com Marcelino Pedregulho.