Para o poeta e editor Augusto Massi, autor da orelha do livro "Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo", a fotografia de Cartier-Bresson se compara com a filosofia de Montaigne. Para outro poeta, o francês Yves Bonefoy, na apresentação da obra, o fotógrafo é um estilista entre Mallarmé e Flaubert ou Jules Renard. Todas as comparações apontam para a força que brota das 155 imagens reunidas no livro (fotos que já vimos, aqui e ali, em outras antologias).
O que se percebe é a dimensão múltipla da arte de Bresson, abrindo veios de interpretação, e sua capacidade de capturar, num instante fugidio, um pedaço de vida cheio de energia e potência. O escultor Giacometti caminhando no passo de suas estátuas, como se fosse um duplo de sua própria arte; um sujeito suspenso no ar, por cima de uma poça d'água, após uma chuva; ou a bela cena da vida cotidiana de Aquila degli Abruzzi, na Itália: em todas essas imagens, como em muitas outras do livro, nos encontramos diante de uma narrativa sintetizada naquilo que o próprio fotógrafo chamou de "momento decisivo" (termo cunhado em famoso ensaio, jamais editado em livro no Brasil). Há um antes e um depois de cada cena. Ela é capturada no momento de maior intensidade. Como ele dizia, é "o ato de viver", mas concentrado no enquadramento e no equilíbrio procurados de todos os elementos que compõem a cena.
O leitor encontrará, nos cinco módulos do livro, parte substancial da obra de Cartier-Bresson, com toda a sua carga de lirismo, de oportunidade e, claro, de humor, pois ele conseguia fisgar uma certa graça no inusitado. Suas fotos compõem, assim, uma crônica viva do mundo no turbulento miolo do século 20 (principalmente durante e depois da Segunda Guerra). A crônica da solidão e da sobrevivência humana em meio aos caos e à injustiça. Vale observar as belas fotos de crianças que encontram espaço para brincar nos cenários mais devastados pela estupidez dos homens.
O livro está sendo lançado numa parceria da Cosac Naify e do Sesc, juntamente com a exposição do mesmo nome, no Sesc Pinheiros.
Artista: Henri Cartier-Bresson
Organização: Henri Cartier-Bresson e Robert Delpire
Tradução: Célia Euvaldo
Editora: Cosac Naify e Edições Sesc-SP (344 págs.)
Avaliação: ótimo